Crítica | Nemo: Coração de Gelo (A Liga Extraordinária)

estrelas 4

Desde que criou a Liga Extraordinária em 1999, Alan Moore vem consistentemente publicando diversas histórias com versões diferentes do grupo. O volume um tratava da origem do grupo e do enfrentamento de uma ameaça infiltrada no próprio MI-6 da Inglaterra. No segundo, Moore faz sua adaptação de A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells. Depois, diante de obrigações contratuais, Moore escreveu um volume solto, batizado de Black Dossier, cujo conteúdo desafia explicações e, em linhas gerais, lida com Mina Murray e Allan Quatermain, agora juntos e rejuvenescidos. Finalmente, então, Moore publicou o volume três de sua série, fazendo seus dois heróis principais passearem ao longo de um século de história, começando em 1910, passando por 1969 e acabando em 2009.

Nemo Coracao de Gelo coverQuatro anos depois do último volume de Século, Alan Moore iniciou o primeiro projeto spin-off da Liga Extraordinária. Nada de Mina Murray e Allan Quatermain ou mesmo menções ao grupo. O foco é em Janni Dakkar, filha do Capitão Nemo, personagem apresentada em Século: 1910. De certa forma, o legado da Liga continua, mas Moore abre caminhos novos para suas histórias. E, assim como fez em Século, o autor dividiu a história de Janni em três volumes espaçados temporalmente, o primeiro deles, Coração de Gelo, se passando em 1925.

Nele, vemos Janni Dakkar consolidada como herdeira de Nemo, capitaneando o mítico submarino Náutilus em uma missão bem-sucedida de pirataria. A vítima é uma misteriosa rainha do principado de Kor, na África Central que, por intermédio de seu contratado em Nova York, passa a perseguir o Náutilus para reaver o tesouro. Sem saber que está com a cabeça a prêmio, Janni parte para a inóspita e gelada Antártica para refazer os passos de seu pai em uma particularmente perigosa expedição. A herdeira de Nemo sente um vazio e uma necessidade de se provar perante seus comandados que a leva a essa loucura e que catalisa a história.

Alan Moore deixa de lado as críticas ferozes à cultura pop que fez em Século e parte para uma aventura no estilo clássico, no espírito do primeiro volume da Liga Extraordinária. A motivação de Janni é, na verdade, uma mera desculpa para permitir que o autor escreva uma história básica de perseguição, mas sem perder os elementos literários que tornaram sua série tão instigante. Remexendo novamente no material do final do século XIX e começo do século XX, Moore desfila um sem-número de referências com diferentes graus de obscuridade. A rainha do reino de Kor, por exemplo, é Ayesha, personagem pinçada de She: A History of Adventure, escrito por H. Rider Haggard, em 1887. Os três aventureiros contratados para capturar – ou matar – Jannie e sua tripulação são Frank Read Jr., supostamente filho de Frank Read, personagem de Harry Enton em uma série de curtos romances também da segunda metade do século XIX; Jack Wright, outro herói popular do mesmo período, criado por Luis Senarens, conhecido como o Júlio Verne americano e, finalmente, Tom Swift, personagem também de uma centena de romances escritos por Edward Stratemeyer, a partir de 1910. Mas há muitas outras fontes inspiradores, valendo especialmente destaque para o magistral e desesperador Nas Montanhas da Loucura, de H.P. Lovecraft, um dos autores favoritos de Alan Moore e do qual ele já extraiu muita coisa em diversas obras diferentes.

Conhecer as fontes literárias que Moore usa – além do óbvio Capitão Nemo criado por Verne em sua obra 20.000 Léguas Submarinas, leitura obrigatória aliás – não é essencial para se aproveitar a aventura. Mas o autor escreve de tal maneira e com tanta propriedade que é inevitável que o leitor não sinta sua curiosidade aguçada pelo que vê página a página. É uma riqueza de detalhes que impressionará mesmo aqueles já acostumados com a estrutura narrativa de Moore em A Liga Extraordinária. Lógico que conhecer as obras que serviram de inspiração empresta outras camadas ao trabalho de Moore e, no meu caso, fiquei particularmente fascinado com a recriação visual da mitologia imaginada por Lovecraft em Nas Montanhas da Loucura, valendo especial destaque para uma série de páginas cuja cadência é feita para desnortear o leitor assim como os personagens. Fascinante – e enlouquecedora – leitura!

mosaico nemo coracao de gelo

(1) A perseguição no gelo; (2) as majestosas e fantasmagóricas “montanhas da loucura” e (3) TE-KE-LI-LI!!!

Com isso, o verniz de simplicidade aventuresca que uma primeira leitura de Coração de Gelo passará vai, com uma segunda e terceira leituras, dando espaço para mais um baú de tesouros do Mago de Northampton. Mesmo assim, de todos os volumes de A Liga Extraordinária, esse talvez seja o de mais rápida digestão.

A arte de Kevin O’Neill, parceiro de longa data de Moore, continua muito bonita, firmando muito bem a imagem corajosa e fria (o Coração de Gelo do título vem também daí) de Janni que tenta se convencer que é merecedora do manto de seu pai. Os demais personagens humanos ganham tratamento um tanto quanto pasteurizado do desenhista, talvez por faltar-lhes características que os destaquem dos demais. Parece-me que faltou, aqui, a inspiração que O’Neill teve ao recriar, dentre outros, John Carter e o tenente Gullivar Jones no início do volume dois. Mas O’Neill, por outro lado, esbanja seu talento quando a ação chega na Antártica. Seu traços trabalhando a ação e recriando as máquinas usadas pelos dois grupos em perseguição são impressionantes, com uma progressão de quadros muito dinâmica, economizando splash pages e invertendo, de maneira cadenciada, a ordem de leitura, só confundindo o espectador quando realmente quer (e aqui, refiro-me à já mencionada sequência de páginas feitas para desnortear o leitor na mesma proporção que desnorteia os personagens). E, claro, o ponto alto é mesmo a recriação do visual de todos os elementos fantásticos que povoam a febril mente de Lovecraft em Nas Montanhas da Loucura (desafio qualquer leitor que não tenha lido o romance de Lovecraft a não coçar de desespero pela leitura do mini-romance após acabar Coração de Gelo!).

Nemo: Coração de Gelo é uma aventura curta no universo de A Liga Extraordinária criada por Alan Moore que agradará tanto aqueles que só querem uma leitura rápida, como aqueles que esperam a costumeira profundidade e erudição do autor. Pela sua proposta, não é algo verdadeiramente comparável aos volumes anteriores propriamente ditos, mas é uma ótima introdução às aventuras solo de Janni Dakkar e a tripulação do Náutilus. Mais um acerto de Moore e O’Neill, sem dúvida.

Nemo: Coração de Gelo (Nemo: Heart of Ice, EUA/Reino Unido – 2013)
Roteiro: Alan Moore
Arte: Kevin O’Neill
Letras: Todd Klein
Cores: Ben Dimagmaliw
Editoras (originais): Top Shelf (EUA), Knockabout Comics (Reino Unido)
Data original de publicação: março de 2013
Editora (no Brasil): Devir
Data de publicação no Brasil: maio de 2015
Páginas: 55

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.