Crítica | Neonomicon

Atenção: Diante da natureza da obra aqui criticada, SPOILERS são inevitáveis. Assim, só siga em frente se você leu ou não se importa com spoilers.

Escrevo essa crítica clicando com dificuldade as teclas do computador. Elas parecem teclas de máquina de escrever de tão pesadas. Meus pés estão sapateando de nervoso no chão, como se quisessem que eu parasse, fosse embora e largasse a redação. Minha cabeça está a mil com o que escrever sobre o que acabei de ler. O que foi mesmo que li?

Frescura? Pode ser. Mas leiam Neonomicon antes – algo que só recomendo para maiores de idade e, mesmo assim, com reticência – para me julgarem.

Se Alan Moore queria atormentar seus leitores, ele conseguiu com Neonomicon. A coletânea da Panini, na verdade, reúne uma adaptação de Antony Johnston de um texto do recluso escritor britânico chamado O Pátio (The Courtyard), publicado originalmente em quadrinhos em 2003 pela Avatar Press e Neonomicon (publicada pela primeira vez em 2010), uma espécie de continuação de O Pátio, essa sim efetivamente escrita para quadrinhos por Alan Moore. Ambas as histórias são ilustradas por Jacen Burrows.

O Pátio, composto de apenas dois breves números, nos apresenta a Aldo Sax, um agente do FBI que criou a “Teoria da Anomalia” e a usa para investigar casos estranhos. A tal teoria se resume a pinçar e reunir elementos que não se encaixam em diversos atos aparentemente sem ligação. Nada terrivelmente original, mas isso acaba levando Sax a investigar o Clube Zothique, no bairro de Red Hook e uma droga chamada Aklo.

Quando Neonomicon propriamente dita começa, nos deparamos com dois agentes do FBI, Merril Brears e Gordon Lamper investigando assassinatos na mesma linha de Aldo Sax. Brears é uma mulher se recuperando de seu vício em sexo, algo que discute abertamente com aparentemente todo mundo, especialmente Lamper. Por sua vez, Lamper é um afro-americano casado, que parece ser um bom moço.

Para iniciar os trabalhos, a dupla procura o próprio Sax, agora em um sanatório. No entanto, todas as palavras que saem da boca do detento são em uma língua indecifrável. Quando o Clube Zothique é mencionado, porém, Sax para de tagarelar e isso deflagra uma ação que acaba levando Brears e Lamper a envolverem-se com uma seita maluca que cultua a obra de H.P. Lovecraft e que faz sexo grupal em uma saída de esgoto debaixo da cidade de Salém, em Massachusetts.

 

O que vemos, a partir daí é o que me deixou estremecido. Ao longo de dez páginas ou mais, Moore trata de uma longa seqüência de estupro. E, para piorar tudo, se é que dá para piorar um cenário de estupro, o terrível ato não é feito por um humano, mas sim uma criatura aquática insaciável, saída mesmo dos devaneios de Lovecraft. Vejam bem, caros leitores, são mais de dez páginas mostrando o assunto – não explicitamente, mas quase – sem trégua, incluindo a reação de Brears ao que está acontecendo com ela, reação essa que também nos faz levantar as sobrancelhas em espanto.

Estupro em quadrinhos é um assunto tabu. Quando o próprio Moore lidou com isso em Watchmen, soube dosar a menção e a reação ao assunto, sem nunca mostrar mais do que o mínimo necessário. Fez o mesmo, para um efeito mais, digamos, particular, quando Mr. Hyde estupra o Homem Invisível até a morte em A Liga Extraordinária. O mesmo vale para outros exemplos fora do universo de Moore, como a desnecessária, mas já infelizmente famosa história de estupro de Sue Dibny pelo Dr. Luz, em Identidade Secreta.

Por ser uma mídia eminentemente voltada ao público infantil e jovem, o assunto – quando realmente precisa ser abordado – precisa de um tratamento que não chegue nem perto de glorificar a situação. A condenação deve ser evidente, sem sombra de dúvidas. Alan Moore, que fique claro, condena o estupro em Neonomicon, não tenham dúvida disso, mas são longas e torturantes dez páginas fazendo com que o leitor participe de cada momento e, quando ele conclui a terrível situação, a reação de Brears é como se algo não muito diferente do dia-a-dia dela tivesse acontecido. Ok, ela foi uma viciada em sexo, mas isso nem começa a justificar sua aparente aceitação da situação tenebrosa a que foi submetida. E a reação dos que estão à volta dela também é muito parecida, como mais um dia no trabalho, apenas com algumas menções a exame de AIDS ou, genericamente, para ela se cuidar. Mas tudo para por aí.

E eu parei também. Parei, pois comecei a pensar que Moore, no alto de sua inteligência, mesmo se autodenominando um mago e adorando um deus-serpente romano chamado Glycon, não fez em O Pátio e Neonomicon uma mera reverência à obra de H.P. Lovecraft. Claro, o culto “lovecraftiano” está lá, presente em praticamente todas as páginas, literalmente determinando cada quadro, cada ação e, por que não, cada reação.

No entanto, Moore destila seu veneno ao nos lembrar nada discretamente que Lovecraft era racista (até para os padrões de sua época) e que existe um bando de loucos que literalmente adora o escritor não por sua capacidade literária, mas por ser considerado uma espécie de ocultista ele próprio, algo que o próprio Lovecraft negou diversas vezes. Quando fala no culto a Lovecraft, Moore pode até estar falando de si próprio e seu culto ao tal deus-serpente romano e isso pode ser uma auto-referência muito interessante.

Mas eu iria ainda além e, considerando o que Moore passou na indústria mainstream de quadrinhos, será que Neonomicon não seria sua resposta? Sua forma de retratar alguns aspectos que o desagradam profundamente sobre o estado dessa indústria? Não quero dizer que ele usou de uma metáfora grosseira para indicar o que passou. Não acredito que ele fala de estupro para dizer que ele próprio foi “estuprado” pela indústria. Isso seria um descalabro e uma manobra indesculpável de tema tão pesado, triste e difícil por parte de Alan Moore.

 

 Quando digo que Neonomicon talvez seja a resposta malcriada de Moore à indústria que – ele afirma – o traiu, refiro-me à forma como ele trata seus personagens. Lamper nos é apresentado como um herói padrão. O afro-americano “obrigatório” nos quadrinhos politicamente corretos de hoje em dia. Mas Moore não perde tempo e o mata violentamente, sem mais nem menos. É assim que ele vê os heróis negros nos quadrinhos? Gente descartável que está ali só para mostrar a diversidade étnica daquela mídia, mas que, no primeiro momento possível, é eliminado?

E Brears? Uma ninfomaníaca recém-saída de tratamento psiquiátrico que enfrenta o estupro com se estivesse em um piquenique? Ela não reage nem mesmo antes de acontecer o evento, quando lhe pedem para retirar todas as roupas, inclusive a lente de contato, mesmo sabendo que, sem elas, não consegue ver absolutamente nada? E tudo isso no meio de uma investigação? Moore quer que nós acreditemos nisso ou está nos mostrando o abismo que existe entre escrever quadrinhos e ESCREVER quadrinhos?

Olhando sob esse prisma – que pode não ter absolutamente nenhum relação com que Moore quis efetivamente fazer, mas desconfio que tem – Neonomicon fica interessante. Ainda não justifica a forma longa que o estupro é abordado, pois isso não acrescenta em absolutamente nada à trama, mas se é uma crítica à indústria dos quadrinhos, até conseguiria aceitar. No entanto, esse “aceitar” exige certo esforço.

Finalmente, no quesito arte, Jacen Burrows trabalha uma estrutura de quatro quadros por página, com um desenho com paleta de cor escurecida, que é adequada ao tom da história. Os personagens são desenhados como seres humanos normais, com defeitos, mesmo os protagonistas. Briars é ligeiramente bonita, mas não tem um corpo de modelo como vemos na maioria das HQs por aí com mulheres no papel principal. Lamper é, por outro lado, bonitão, talvez para evocar a necessidade de o personagem que está lá só para “cumprir tabela” seja o melhor exemplar de seu grupo étnico, de forma que o estereótipo fique mais evidente. É uma arte condizente com uma obra desse porte que, porém, não consigo chamar de bela ou algum adjetivo equivalente em vista da natureza do que vemos desenrolar página a página.

Sei que essa crítica ficou longa, mas, assim que as teclas ficaram mais fáceis de manusear, meu cérebro a mil não parou de imaginar situações e palavras. Acho que é isso que um bom filme e uma boa HQ, no final das contas, deve almejar em relação ao seu espectador/leitor, ou seja, atingi-lo de alguma forma, seja tirando um sorriso, seja deixando-o depressivo, seja socando-o no estômago. Moore, se queria arrancar sentimentos fortes de seu público, ele alcançou seu objetivo, mas, mesmo assim, o tema é tão áspero e pesado que é difícil recomendar a leitura.

Neonomicon (Estados Unidos, 2003/2010)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.