Crítica | Nerve: Um Jogo Sem Regras

estrelas 3,5

A exploração dos excessos da tecnologia na era da informação já não é uma novidade no audiovisual, desde filmes até histórias em quadrinhos já tivemos algumas obras que abordaram o exagero das pessoas em quererem registrar tudo, seja através de fotos ou vídeos em suas redes sociais. A série Black Mirror é um ótimo exemplo de um retrato do lado negro da tecnologia. Nerve: Um Jogo Sem Regras vem com essa mesma premissa, nos trazendo uma realidade, infelizmente, não tão distante assim, se aprofundando na necessidade de estar conectado que cada vez mais absorve mais pessoas.

A trama gira em torno de Vee (Emma Roberts), uma garota de dezessete anos com um talento para fotografia, cujo sonho é estudar na Cal Arts. Seu medo de revelar sua intenção de se mudar para sua mãe, contudo, é um empecilho em sua jornada e esse temor se estende para outras áreas da sua vida. Quando sua amiga, Sidney (Emily Meade), a convence de se soltar mais, a menina decide fazer parte de um novo jogo que assola os EUA: Nerve. Nele, a pessoa deve escolher entre ser um observador ou jogador, o primeiro grupo deve propor desafios para o segundo realizar – ao obter sucesso, o jogador, então, recebe uma determinada quantia em dinheiro, de acordo com a ousadia da ação e sobe de posição no ranking. Vee, porém, mal sabia a escala que esse jogo alcançaria.

Desde os primeiros minutos da projeção já sabemos a ênfase do longa-metragem. Assistimos a protagonista interagindo com seu computador através de uma câmera que filma exclusivamente sua tela. Há uma interessante dinâmica nesse plano detalhe subjetivo, ao passo que ele acompanha o olhar da personagem, que ora vai para o Spotify, ora para o Facebook. A forma como mexe no computador e os clássicos defeitos, como a transmissão com constantes falhas da webcam já nos passa uma grande familiaridade, colocando a trama com os dois pés no chão antes de decolar. Imediatamente sentimos como se estivéssemos, de fato, diante de nossa própria tela.

A forma como a tensão gradualmente progride dentro da narrativa é certamente um dos pontos positivos da obra. Sentimos, sim, uma notável lentidão em alguns trechos, em especial uma subtrama envolvendo Sidney, que, no fim, em nada acrescenta. Isso, contudo, não afeta consideravelmente o filme como um todo e seu ritmo consegue se manter em uma boa velocidade na maior parte do tempo, sabendo muito bem aproveitar cada desafio para construir seus personagens, enquanto o sentimento de urgência é amplificado pelos espectadores, tanto os desconhecidos na rua, quanto os amigos de Vee, que muitas vezes são mostrados assistindo as loucuras que ela comete ao longo do jogo.

Confesso que, ao sair da tela, logo no começo da projeção, fiquei um tanto preocupado em relação ao trabalho de fotografia, que trazia uma câmera demasiadamente instável nos primeiros minutos. Isso, felizmente, não dura pouco e a obra se mantém com uma linguagem até bastante clássica quando falamos dos enquadramentos. A direção realmente se destaca nas cenas de maior velocidade, visto que consegue passar uma noção perfeita de rapidez, nos deixando com o coração na boca mais de uma vez.

O verdadeiro mérito de Nerve, todavia, está em seus efeitos especiais, que trazem aos quadros, constantemente, a visão dos espectadores sobreposta ao que nós próprios assistimos. O filme não cai no óbvio e decide nos levar para a tela de um desses observadores e decide mesclar as duas perspectivas de forma criativa e que, em momento algum, prejudica nosso entendimento. Além disso, os planos gerais aéreos nos mostram não somente onde de Nova York a protagonista se encontra, como a quantidade de outros jogadores ativos, o que insere praticamente uma contagem regressiva para o gran finale, que permanece como uma incógnita até o clímax.

Esse, por sua vez, pede um pouco mais de suspensão de descrença de nós espectadores. Sentimos como se o roteiro de Jessica Sharzer, baseado no romance de Jeanne Ryan, tivesse deixado de vez o seu vínculo com a realidade, visto que utiliza uma solução muito fora da realidade do cidadão comum, quando poderia ter optado por algo mais “pé no chão”. Existe, porém, uma forte mensagem por trás da reviravolta final, que se estende para nosso próprio mundo, especificamente para pessoas que compartilham fotos vazadas ou se entretém com a miséria filmada ou fotografada dos outros. É uma moral um tanto óbvia, que já estava presente em toda a projeção, mas que não deixa de contar com uma certa força.

Nerve: Um Jogo Sem Regras, cujo título brasileiro não faz o menor sentido, visto que ele conta sim com algumas regras, não é uma obra perfeita, mas está muito acima da maioria dos filmes pipoca que assistimos esse ano. É diversão garantida, que definitivamente prende o espectador do início ao fim, especialmente em virtude de seus efeitos que se integram perfeitamente à narrativa, mostrando que, nem sempre, eles são o vilão do cinema atual.

Nerve: Um Jogo Sem Regras (Nerve) – EUA, 2016
Direção:
 Henry Joost, Ariel Schulman
Roteiro: Jessica Sharzer (baseado no livro de Jeanne Ryan)
Elenco: Emma Roberts, Dave Franco, Emily Meade, Miles Heizer, Kimiko Glenn, Marc John Jefferies, Machine Gun Kelly
Duração: 96 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.