Crítica | “Nevermind” – Nirvana

estrelas 4,5

Nirvana. A banda de Aberdeen, Estado de Washington, EUA, que sem querer, se tornou o espírito musical de parte da Geração X e da maioria da Geração Y. Depois do bem recebido, mas não famoso, álbum de estreia, Bleach (1989), e após uma turnê pelos Estados Unidos — sempre bem falada no cenário alternativo –, algumas mudanças começaram a acontecer nos bastidores do grupo. Inicialmente, essa mudança passou pelo estilo (estética musical e poesia). Kurt Cobain não estava exatamente mais tão engajado em “só fazer grunge e isso ele já tinha comentado por ocasião do lançamento de Bleach, dizendo que deixou de lado muitas ideias diferentes do gênero para poder se adequar ao gênero que levou sua banda a gravar um álbum pela Sub Pop. Além disso, influências como The Melvins, R.E.M., The Smithereens e Pixies davam ao cantor novas ideias de composição, as quais ele iria utilizar e expandir neste segundo álbum de estúdio, Nevermind (1991), e no terceiro e último, In Utero (1993).

Outras duas mudanças foram decisivas para a produção deste segundo disco. Primeiro, a entrada definitiva do baterista Dave Grohl, vindo de bandas menores; e segundo, a troca da Sub Pop para uma gravadora com maiores recursos e melhores equipamentos, a DGC. Com produção de Butch Vig, o álbum começou a ser gravado em abril/maio de 1990. Não havia pretensão alguma da banda, além do fato de “soar mais pop e melódico” do que no projeto anterior (o mote “calmo-distorção-barulho-calmo” foi muito aplicado aqui). O que o trio Cobain-Novoselic-Grohl não sabia era que estava prestes a mudar a forma como essa “vertente suja e distorcida do punk” seria vista pelo mundo. Nem que estavam às portas de entregar à História um dos álbuns mais icônicos do rock.

No ano em que Nevermind foi lançado, tivemos a I Guerra do Golfo, o fim da URSS, a dinamização da programação musical na TV (reformas na MTV) e a sequência das tecnologias de fácil acesso para a população, principalmente nos Estados Unidos e Japão. Um mundo onde a juventude tinha poucas vozes que cantavam sobre ela e para ela. Sobre seus tormentos, desejos perigosos, vícios, morte e vontade de sumir. Imaginem o peso que um videoclipe levemente inspirado em Zero de Comportamento (1933) e Se…(1968) com a letra e música de Smells Like Teen Spirit poderia causar nesses adolescentes, jovens e adultos inquietos. Com o lançamento do disco e as primeiras audições (no rádio e ao vivo) dessa canção, o mundo já estava caído perante o Nirvana. E o que era um álbum sem arroubos de grandeza, tornou-se, quase de repente, uma febre global.

A força de Smells Like Teen Spirit e a sua letra em certa medida enigmática, mostrando momentos da vida de um jovem rebelde, desiludido, sonhador e profundamente inquieto, entregou de bandeja para muita gente um lema para gritar e talvez colocar para fora muita coisa que letras e canções de outras bandas não conseguiram fazer. A faixa começa com um enganador tema na guitarra, que logo ganha força da banda e uma base de dois acordes — com uma linha de baixo que não permite ninguém descansar por um segundo sequer — acompanhando as estrofes. A letra fala de experimentos, libido, visão de si mesmo, honestidade. Vemos uma faixa da guitarra sendo progressivamente distorcida enquanto o “hello” de Cobain se torna “how low” e um refrão-dinamite enche os ouvidos e a alma. Na última versão do refrão (que traz riffs diferentes da base, com a voz de Cobain e Grohl em uníssono), há uma extensão de tempo, dando lugar ao verso “A denial…”, em mais uma explosão vocal que é sustentada até não se poder mais ouvir a voz do cantor. Um clássico capaz de exorcizar qualquer um.

O lado mais pop da banda, ainda dentro daquela proposta “calmo-barulhento” vem com In Bloom, uma das primeiras faixas a ganhar forma, ensaio e gravação, ainda com Chad Channing na bateria, trabalho que Grohl, contratado posteriormente, manteve inalterado, apenas seguindo o que o colega havia feito no primeiro tape, até porque, a maior diferença aqui é a sobreposição de vozes. O produtor Butch Vig usou o argumento sacana “John Lennon fez isso” para convencer Cobain a colocar camadas vocais diferentes, versos que ele canta com Dave Grohl.

Sabem aquelas canções que colocam uma banda — e um grande disco — ao alcance de todos, pincelando diversas tonalidades e densidades dentro um mesmo gênero? Pois é, Come as You Are é uma dessas canções. Com alguns segundos iniciais de um riff reconhecível até pelo pior ouvido musical do planeta e uso de um pedal para distorcer o som da guitarra, a fim de dar a sensação sonora de um ambiente aquático (o clipe sinaliza bem isso), a faixa é uma das mais honestas escritas por Cobain, e também clama por honestidade e confiança, talvez com um pouco de maldade (ou profecia?) na última estrofe. E é muito curioso que logo após esse pedido de entrega (colocado, inclusive, na placa de entrada da cidade de Aberdeen, cidade natal do compositor), venha a frenética e meio blasé Breed, com um refrão viciante e a afirmação genérica de se estar preso a uma classe ou situação social sufocantes. É quase uma ironia imediata ao chamado humano da canção anterior.

Lithium é a versão grunge da frase de Marx “a religião é o ópio do povo“. Cobain disse em entrevistas que a música é sobre “um homem que, depois da morte sua namorada, se volta à religião como último recurso para manter-se vivo“, e que colocou uma ou outra experiência de relacionamentos pessoais mais uma certa dose da experiência de ter vivido com um amigo (Jesse Reed) e seus pais protestantes. Essa é uma das canções compostas e ensaiadas antes da chegada de Grohl à banda e foi um dos motivos que reafirmou a insatisfação de Cobain com o antigo baterista. O refrão que grita “Yeah Yeah Yeah Yeah” e as menores “I like it – I’m not gonna crack“, etc., são os pontos de maior impacto vocal da faixa, com sobreposição e voz de apoio, talvez para dar um ar de “coral de igreja” ou mesmo muitas pessoas cantando junto, como se fosse uma oração. Inteligentíssima sacada do produtor Butch Vig para uma letra com esta temática.

No começo da crítica eu destaquei um dos propósitos do Nirvana neste segundo álbum, que era apresentar um som mais pessoal, não controlado por um selo ou pela obrigação de ser grunge, embora a força melódica ou pop de boa parte das canções aqui, mesmo com suas explosões casuais, tenham assustado o grupo (principalmente Cobain) e feito da mixagem e masterização do projeto uma verdadeira pilha de nervos. Da passagem do “antigo Nirvana” para o “novo Nirvana”, temos Polly, uma das primeiras composições de Kurt, inicialmente chamada Hitchhiker (datada de 1988) e que ganha em Nevermind uma versão semi-acústica, com a única participação (não creditada) de Chad Channing no álbum, tocando prato. A letra é bastante pesada, mas muito inteligente do ponto de vista poético, e conta uma monstruosa história de abuso, violência sexual, física e psicológica sofrida por uma garota, só que tudo isso pelo ponto de vista do estuprador. Tenso. Na sequência, a canção frenética por excelência, o momento punk, sujo e desajeitado do disco (não no sentido negativo, mas também não é um elogio), Territorial Pissings, parceria de Cobain com Chet Powers.

É de amplo conhecimento que o produtor Butch Vig sempre gostou de fazer experimentos musicais com tecnologia, e que se tornaria muito hábil nisso ao longo dos anos, basta ver os trabalhos de destaque dele nos anos 2000 e 2010, como Sing the Sorrow (AFI, 2003), White Crosses (Against Me!, 2010), Wasting Light e Sonic Highways (Foo Fighters, 2011 e 2014). Em Drain You há a maior intervenção de manipulação instrumental dele em Nevermind, claramente em um processo que não agradava Kurt Cobain, sempre receoso com sobreposições, fosse de vozes ou de instrumentos. Nessa faixa, porém, há uma coletânea de guitarras utilizadas em faixas de característica tonal distinta, gerando uma canção romântica completamente fora da curva, com um interlúdio, por volta de 1’35 que elenca boa parte dessas guitarras em pequenos trechos, e depois, todas juntas; espaço em suspensão que serve bem à letra da canção, onde eu-lírico neurótico reflete sobre o que disse para a namorada. A edição e mixagem de som aí também são excelentes, a segunda melhor do álbum, depois da faixa de abertura.

Lounge ActStay Away fazem parte do “limbo de ouro” de Nevermind, duas canções que não são completamente desconhecidas, mas que demoram para vir à mente da maioria das pessoas. As duas, porém, são ótimas. A primeira faz jus ao “lounge” do título e a segunda é mais uma das faixas de “exorcismo a todo custo” gritada por Cobain até o último fio de voz. É forte, tem uma boa linha de baixo — que se perde no final –, distorções interessantes no desfecho e serve como sequência geral do espírito que habita o álbum, o do jovem entre o contemplativo e o completamente insano. A bola fora vem apenas com On a Plain, canção pouco inspirada e um tanto chateante, que até Cobain desgostava, por ter que escrevê-la sob pressão.

O álbum “termina” com Something in the Way, que trouxe o mito do “Cobain morador de rua”, posteriormente refutado pelo biógrafo Charles Cross. É uma faixa densa, com um violoncelo dando o peso harmônico para a desesperança da letra e novamente a pegada acústica que víramos em Polly. Claro que é uma forma um pouco trágica de terminar o disco, mas a canção, apensar do desalento embutido, é bela e talvez seja o que faltava para encerrar o ciclo de uma vida atormentada que é a do eu lírico (ou dos muitos eu lírico) apresentado no disco. Já a famosa “faixa escondida”, Endless, Nameless, que é um improviso bobo de 6 minutos surgido durante as enervantes gravações da faixa Lithium, não serve para muita coisa. Nem como curiosidade, para dizer a verdade. É mais uma forma dos músicos colocarem o tempo musical deles ao bel prazer, fazer muito barulho e deixarem Cobain gritar à vontade. Como princípio de “rebeldia contra o produtor” até que pode ser interessante, mas para constar como registro de um álbum desse porte e dessa qualidade… não.

Considerado o disco que trouxe o rock alternativo para as grandes paradas (com ele, o Nirvana desbancou Michael Jackson na Billboard) e com uma das capas mais famosas da história do rock — o bebê (que era para ser uma menina, mas a gravadora gostou mais da foto com o menino) nadando pelado, olhando para uma nota de dólar presa em um azol –, o disco conseguiu deslanchar em vendas e assuntou à banda e à gravadora, colocando todos em um momento de fama e riqueza que traria consigo seus perigos, como sempre acontece com as coisas boas. O Nirvana teve uma curta discografia (3 discos, apenas), mas se só houvesse gravado Nevermind, certamente teria conseguido registrar o seu nome para sempre na história do rock. E nas mentes de uma geração inteira.

Aumenta!: Smells Like Teen Spirit
Diminui!: Endless, Nameless

Nevermind
Artista: Nirvana
País: Estados Unidos
Lançamento: 24 de setembro de 1991
Gravadora: DGC
Estilo: Rock, Grunge, Rock Alternativo

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.