Crítica | “News of the World” – Queen

estrelas 4,5

News of the World (1977), sexto álbum do Queen, fez parte de um momento de mudanças para a banda. Tendo alcançado fama e chegado ao ponto de ser venerada por suas complexas gravações (destaque para os álbuns A Night at the Opera e A Day at the Races), a banda encontrou-se em um momento musical que exigia um passo em uma direção completamente diferente. O mundo, a sociedade e a música mudavam rapidamente e o quarteto da rainha queria apostar nessas mudanças como fôlego para criarem coisas novas, uma nova perspectiva.

De fato, News of the World não se parece em nada com a produção orquestral e semi-operística dos discos anteriores. Trata-se de um álbum cru, simples e objetivo, segundo a banda, o mais fácil de ser gravado (dois meses de estúdio) e o que mostrava, pela primeira vez, o Queen trilhando caminhos que não conheciam bem, embora não ignorassem o que iriam fazer.

O título do disco, News of the World, veio de um tabloide dominical britânico e a capa, com um robô tendo matado acidentalmente a banda, foi feita pelo artista Frank Kelly Freas, que em 1953 ilustrara a capa da edição de outubro da Astounding Science Fiction. A capa trazia um robô segurando um homem morto, com a legenda, “Please… fix it, Daddy?“, e foi realizada para representar o conto The Gulf Between, de Tom Godwin. Roger Taylor, fã de ficção científica, tinha a revista e propôs que a banda entrasse em contato com o artista e pedisse a ele que alterasse a concepção, colocando a banda no lugar do homem morto. O contato foi feito e Frank Kelly Freas aceitou a proposta. A diferença entre as duas versões feitas pelo mesmo artista, vocês podem ver na segunda imagem abaixo.

news of the world frente e costas do disco

Capa e contra-capa de News of the World, com arte de Frank Kelly Freas adaptada ao formato do disco/CD.

Sem nenhum produtor convidado (este foi o segundo disco que a própria banda produziu, com engenharia de som de Mike Stone), o Queen conseguiu realizar o seu passo definitivo para um cenário mais popular, não menos experimental mas definitivamente menos “erudito” ou “intricado” que seus primeiros cinco álbuns. Era a hora e a vez de aproximar-se do punk e do funk sem quebrar a identidade da banda. O resultado final foi um disco um pouco aquém dos dois trabalhos anteriores, mas, indubitavelmente, um grande disco. E é por isso que eu nunca vou entender completamente por quê as pessoas costumam avaliar esse álbum com notas tão baixas.
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LADO A

A bem da verdade, News of the World é o primeiro “álbum democrático” do Queen. Sério. Observe por exemplo os clássicos absolutos que estão nas faixas 1 e 2, We Will Rock You e We Are the Champions, respectivamente. Ambas as canções foram pensadas a partir da energia das torcidas de futebol e seus hinos, ambas gratificantemente originais, sendo a segunda melhor produzida e musicalmente mais rica que a primeira. Percebam a facilidade de conquista que essas músicas conseguem junto ao público e a energia que passam. No primeiro caso, um ostinato musical de pés e palmas a cappella que ganha acompanhamento simples, com uma letra que pouquíssimas pessoas pararam para pensar o quão triste é. No segundo, a faixa mais motivacional de toda a história do rock (com direito a coro fazendo papel harmônico e arranjos sofisticados além de excelente participação do baixo de John Deacon), muito embora as lendas urbanas digam que é uma tirada de Freddie Mercury para com as “bandas rivais”, colocando o Queen como os grandes campeões da história.

news of the world capas completas

À esquerda, a capa de Frank Kelly Freas realizada para o conto The Gulf Between. À direita, a figura completa desenhada por ele para o Queen, em 1977.

A mudança de conceito e conteúdo na produção e estrutura das composições talvez sejam melhor percebidos nesse disco — e desprezados por muitas pessoas — dada a grande diferença entre as faixas. Repare que quando saímos das canções de “rock de arena” e chegamos na terceira e quarta faixas, há surpresas quase enlouquecedoras para o público. Sheer Heart Attack, de Roger Taylor, que era para ser lançada no álbum de mesmo nome, é definitivamente uma investida da banda no punk rock e foi gravada no mesmo estúdio — na sala ao lado! — em que os Sex Pistols gravavam o seu primeiro disco. Nunca deem ouvidos à bobagem de que o Queen odiava o punk. A banda já estava na semente do gênero antes mesmo dela germinar, no proto-punk Modern Times Rock ‘n’ Roll, faixa do primeiro disco! À época, Sheer Heart Attack ganharia um vídeo, mas não foi possível fazer a gravação devido ao pouco tempo que a banda tinha até o início da turnê. Essa falha foi preenchida no segundo semestre de 2011, quando Taylor e May criaram um concurso para os fãs fazerem um clipe musical da faixa. O vencedor, Luke Leslie, foi responsável pelo clipe extremamente criativo que vocês podem assistir abaixo.

A outra grande surpresa é All Dead All Dead a canção de Brian May fez, em parte, para uma perda que ele nunca superou: a morte de seu gato de infância. A composição teve esse ponto motivador mas havia também a memória de amigos que partiram, junção que gerou uma das mais belas e delicadas baladas para piano sobre o tema. A execução é de Mercury e os vocais de Brian May, em uma interpretação bastante emotiva, com voz de apoio de Mercury apenas no refrão, onde também aparecem o baixo e a bateria.

Na reta final do Lado A temos Spread Your Wings, canção que apenas aparenta ser simples mas é formada por longos ciclos, divididos em subseções com retomadas que não são cansativas. Não há nenhum vocal de apoio e a impressão geral é que se trata de uma balada rock padrão, mas as diferenças entre os ciclos — e a voz de Mercury, forte, precisa — desmente essa impressão. Por último, temos Fight from the Inside, uma espécie de “protesto” de Roger Taylor, que vai por um caminho de letra não muito constante no Queen, mostrando que ele era o mais influenciado pelo punk. Há um arranjo pesado na canção, um riff que é declaradamente um dos favoritos de Slash (!)  e, surpreendentemente, foco principal no baixo e na bateria. Nesta faixa, Taylor toca todos os instrumentos e faz todos os vocais.
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LADO B 

Para uma banda que estava procurando um caminho mais “pop”, mais cru, mais “cotidiano”, era natural que houvesse uma aproximação com tendências estilísticas e/ou conceituais da época. E isto é visto de todas as formas em Get Down, Make Love, a expressão psicodélica e sexual de Mercury no disco. Muitos ouvintes simplesmente perdem o esforço experimental da faixa, com diversos tipos de ‘ruídos’ (sexuais, claro), fragmentos cheios de tensão, escopo instrumental mais restrito, uso de pedal, harmonizador e faixa tocada ao contrário. É importante lembrar que ainda estamos na era do Queen SEM SINTETIZADOR (período que vai de Queen a Jazz), o que torna os esforços desses discos ainda mais interessantes em termos de criação e produção musical.

Gravado em um take, Sleeping on the Sidewalk é um blues quase espontâneo (não exatamente “sem eles saberem que estava gravando”, como muitas vezes é noticiado), mas mesmo assim, sem as precisas programações de blocos musicais separados, sobrefaixas, etc. A harmonia não explora o “padrão blues”, mas ensaia essa presença em diversos momentos. E desse blues de Brian May, passamos para a grande surpresa do disco, a caribenha Who Needs You, de Deacon, uma das canções mais odiadas do disco.

Embora eu admita que esta faixa “não é nada demais”, eu jamais diria que se trata de uma canção ruim, porque não é. Trata-se de uma composição caribenha, com violões acústicos e espanhóis (estes, com uma levada flamenca que além de bonita é divertida), maracas, campanas e o chimbal da bateria fechado. Definitivamente é uma música atípica para o Queen, mas eu desafio qualquer pessoa a não pensar em praias de água azulada/esverdeada, céu limpo, muito sol, água de coco e rede enquanto estiver ouvindo. É para se ouvir despreocupado e, principalmente, para pensar na coragem do Queen, uma respeitadíssima e adorada banda de rock, gravando uma faixa inteiramente caribenha. Percebam que o papel de “romper barreiras” da banda ainda existia, mas em outros formatos.

A penúltima faixa do disco, It’s Late, é praticamente a “despedida” do Queen em relação aos seus épicos completos (a banda demoraria para fazer algo parecido novamente). Não é uma faixa extremamente complexa, mas é a mais longa do disco (6’26”) e que possui intricados vocais em três “atos” (a letra é a crônica de uma vida), como em uma pequena peça, além de uma surpresa na ponte entre o coro e o refrão final.

E fechando o disco, a sensacional My Melancholy Blues, de Freddie Mercury. É curioso, poque que não se trata de um blues de verdade, já que os seus padrões harmônicos são jazzísticos. Mercury assume os vocais e o piano e tem acompanhamento do baixo e bateria apenas com vassourinha, mantendo a intimidade necessária da canção, que fecha o disco da maneira mais sublime possível.

Sem nenhum medo de mudar de rumo (eu sei que essa frase poderá ser usado contra mim na crítica de Hot Space, mas tudo bem) e fazendo tal mudança com qualidade e variedade de gênero e estilo, o Queen plantou aqui em News of the World as sementes de um estágio musical no qual se fixaria a partir do lançamento de Jazz (1978). Enquanto A Day at the Races (1976) foi o estágio final do Queen operístico, News of the World foi o primeiro ensaio de um Queen secular, mais pop, mais comercial. Isso não significa que a qualidade da banda estava comprometida, mas é incontestável que a escolha para trilhar esse novo caminho geraria álbuns que denotariam, para muitos ouvidos, “sons de uma outra banda”.

Aumenta!: We Are the Champions
Diminui!: TALVEZ Who Needs You
Minhas canções favoritas do álbum: All Dead, All Dead  e  My Melancholy Blues

News of the World
Artista: Queen
País: Reino Unido
Lançamento: 28 de outubro de 1977
Gravadora: EMI, Parlophone
Estilo: Rock, Arena Rock, Hard rock

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.