Crítica | Nimitz – De Volta ao Inferno

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estrelas 2,5

Quando lançado no verão americano de 1980, Nimitz – De Volta ao Inferno, ou The Final Countdown em seu original, amealhou sucesso apenas moderado, uma bilheteria não muito superior a seu custo e críticas geralmente negativas. Mas isso não impediu que o filme, ao longo dos anos, alcançasse o status de cult, adorado pelos fãs de ficção científica mundo afora. E há, sem dúvida, um charme e uma premissa interessante que justifica essa fama, ainda que, de fato, sob um olhar mais clínico, a produção não resista ao escrutínio.

O filme lida com o poderoso porta-aviões USS Nimitz, comandado pelo Capitão Matthew Yelland (Kirk Douglas), atravessando um inexplicável vórtex temporal que o transporta de volta a 6 de dezembro de 1941, véspera do fatídico ataque surpresa japonês a Pearl Harbor, no Havaí, que precipitaria a efetiva e derradeira entrada dos EUA na 2ª Guerra Mundial, momento histórico importantíssimo para a vitória dos Aliados. Com isso, o roteiro, escrito por um colegiado de quatro escritores – nunca um bom sinal! – faz a clássica pergunta: se fosse possível interferir na História do Mundo, seria correto fazê-lo?

A narrativa se dá, em grande parte, a partir da visão de um consultor civil, Warren Lasky (Martin Sheen) que é enviado por um misterioso empresário, o Sr. Tideman, para analisar as “eficiências” dos processos dentro do gigantesco navio. Nem mesmo Lasky sabe quem seu chefe é, mas isso é tratado de forma superficial no início, criando uma aura de mistério que só volta a ser abordada ao final, encapsulando o filme entre dois momentos no presente. Mas há, também, o Comandante Richard Owens (James Farentino), convenientemente um historiador amador que está escrevendo justamente um livro sobre o ataque a Pearl Harbor.

Armada toda a premissa, grande parte da “ação” (as aspas serão explicadas) se passa em 1941, com um longo processo de racionalização do que aconteceu, discussões sobre os fatos históricos importantes sobre o trágico dia e alguns enxertos de ficção científica aqui e ali vindos de Lasky e seu conhecimento de folhetim sobre viagem no tempo. Não demora e um esquadrão de batedores japoneses (em Zeros, claro) destrói um iate americano e os sobreviventes – o Senador Samuel Chapman (Charles Durning) e sua assistente Laurel Scott (Katharine Ross) – engrossam o caldo do paradoxo temporal, já que eles, segundo Owens, haviam desaparecido misteriosamente no dia do ataque a Pearl Harbor.

Apesar da interessantíssima premissa, o roteiro não sabe aproveitá-la. Para começar, os diálogos são extremamente expositivos e cansativos e, curiosamente, não conseguem de verdade explorar os conceitos inerentes ao assunto principal. Não há quase uma palavra sequer sobre as consequências de se derrubar o esquadrão japonês antes do ataque ou eventuais alternativas a isso. O aspecto de ficção científica do filme – que está só mesmo na presença do conceito de viagem no tempo – é soterrado debaixo de diálogos e mais diálogos que pouco desenvolvem os personagens e quebram o ritmo narrativo.

A direção de Don Taylor (um diretor que nunca despontou de verdade em seu ofício, sendo mais conhecido, talvez, por seu trabalho no ótimo Fuga do Planeta dos Macacos, também tendo viagem no tempo como pano de fundo) parece muito mais enamorada com os meandros do porta-aviões Nimitz, onde as sequências foram efetivamente filmadas, do que com o ato de contar uma história coesa. É quase como assistir a um documentário intitulado “Um Dia no Nimitz”, com a vida dos pilotos e técnicos, passeios por hangares e intermináveis pousos e decolagens de aviões. Suspeito que, se as sequências em que aviões aparecem fossem cortadas da projeção, o que sobraria não seria nem um média-metragem…

Com isso, não sobra tempo para que nada mais complexo seja feito e Douglas, Sheen, Farentino, Ross e Durning, apesar de bons em seus papeis, são subaproveitados ao extremo. Todos parecem coadjuvantes em seu próprio filme, em papeis rasos que parecem fungíveis, ou seja, completamente substituíveis uns pelos outros.

No entanto, justiça seja feita: Taylor, montando câmeras em belos F-14 Tomcat e em réplicas de Zero japoneses, entrega um breve, mas eficiente combate aéreo que é de encher os olhos. Mas é claro que uma sequência isolada não compensa os problemas do filme, que demora a decolar e cujos acontecimentos se dão apesar das ações dos personagens. E é por isso que usei “ação” entre aspas mais acima. Toda a progressão narrativa se dá sem que seja importante uma única ação por parte do elenco. A pergunta “devemos atacar ou não Pearl Harbor?” é respondida não por Yelland, Lasky ou Owens, mas sim, literalmente, pela natureza, o que arranca qualquer senso dramático da película.

Claro que, para aqueles que, como eu, assistiram Nimitz – De Volta ao Inferno com tenra idade, o filme sem dúvida capturou a imaginação e tem seu valor nostálgico. Afinal, combates aéreos, porta-aviões e viagem no tempo resultam em uma combinação irresistível para mentes em formação e é certamente por isso – somando à ideia do “o que aconteceria se” – que a obra amealhou seguidores ao longo dos anos. Mas os críticos da época estavam certos: o filme é menos do que a soma de suas partes. Mesmo assim, ele diverte.

Nimitz – De Volta ao Inferno (The Final Countdown, EUA – 1980)
Direção: Don Taylor
Roteiro: David Ambrose, Gerry Davis, Thomas Hunter, Peter Powell
Elenco: Kirk Douglas, Martin Sheen, Katharine Ross, James Farentino,  Ron O’Neal, Charles Durning, Victor Mohica, James Coleman, Soon-Tek Oh,  Joe Lowry, Alvin Ing, Mark Thomas
Duração: 1o3 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.