Crítica | Ninfomaníaca: Volume 1

estrelas 3,5

Polêmica e Lars Von Trier caminham de mãos dadas há tempos, Ninfomaníaca é a mais recente prova disso. O filme causou diversos choques desde seu anúncio, seja pelo seu tema, como pela duração que ele teria (até ser dividido em duas partes). Já era mais do que óbvio, contudo, que isso foi apenas uma estratégia de marketing – a primeira parte do longa não é nem um pouco chocante.

A trama gira em torno de Joe (Charlotte Gainsbourg), que é encontrada caída na rua por Seligman (Stellan Skarsgård), um aparentemente inocente senhor de idade. Ele oferece para chamar uma ambulância e, posteriormente, a polícia, mas ela pede que não o faça. Ao invés disso, pedindo por chá e um copo de leite, ela é levada para a casa do velho. A indagação de Seligman é esperada: o que houve? Após alguns floreios, Joe decide contar a sua história – desde o início. Mas por onde começar? A conversa acaba indo para a pesca, através da observação da mulher sobre uma isca na parede de seu hospedeiro. Isca e uma ninfomaníaca, a relação é óbvia. Começa o primeiro capítulo.

Desde esse princípio do filme já sentimos que a presença daquela isca parece muito oportuna para o roteiro, fornecendo o pontapé inicial para a história de Joe. Isso, porém, é relevado: coincidências existem, afinal. O problema está nas sequência de coincidências entre cada capítulo do longa – o quarto de Seligman parece ter sido arrumado especialmente para que sua hóspede contasse sua história, ao ponto que cada elemento é muito específico para lembrar os fatos narrados.

Ainda fora da narrativa da vida da ninfomaníaca, ainda temos diálogos artificiais, muito claramente construídos para possibilitar as metáforas utilizadas em cada arco dramático do filme. Não só isso, as reações de Seligman são, no mínimo, inverossímeis, demonstrando somente em alguns momentos o choque esperado ao ouvir a história de Joe. No fim parece que ele está assistindo um filme e não a realidade.

Deixemos de lado o tempo presente do filme e vamos mergulhar na sua narrativa do passado de Joe. Cada um dos arcos, ou capítulos, é repleto de ironias, das mais sutis até às escancaradas – tornando essa, uma obra preenchida pelo humor negro. Nesse ponto não só as situações, como a narração de Joe, montagem e edição repleta de inserts agem garantindo a total atenção do espectador. Um filme onde esperávamos choque ganhamos o riso.

Essa comédia irônica, porém, se torna muito exagerada no terceiro capítulo da obra, “Ms. H”, e acaba parecendo um teatro do absurdo, distanciando-nos da realidade (por mais inacreditável que seja) da história contada por Joe.

Então, de maneira brusca, somos levados ao presente novamente. E o que se manteve daquele episódio? Aparentemente somente a nossa memória, pois eles soam desconexos dentro da narrativa do filme, tendo um ou outro elemento em comum. Em última instância parece que a ordem na qual a história é contada não importa e nos sentimos assistindo uma ficção seriada. Isso se torna ainda mais evidente com o esperado término brusco do filme que nos deixa sem muitos motivos para assistir a segunda parte.

É claro que não podiam faltar as características básicas dos filmes de Trier. A câmera na mão e os cortes bruscos estão mais do que presentes em Ninfomaníaca e transpassam de maneira efetiva o constante desejo da personagem e uma espécie de ansiedade relativo a esse.

O volume 1 de Ninfomaníaca é um filme visualmente explícito, porém nem de longe tão chocante quanto o esperado. Possui um humor negro afiado e diversas situações inacreditáveis, mas acaba pecando na falta de conexão entre seus arcos dramáticos. Definitivamente foi um filme prejudicado pela sua divisão em duas partes.

Ninfomaníaca: Volume 1 (Nymphomaniac: Volume 1, Dinamarca/ Alemanha/ França/ Bélgica/ Reino Unido – 2013)
Direção: Lars von Trier
Roteiro: Lars von Trier
Elenco:  Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Uma Thurman, Sophie Kennedy Clark, Connie Nielsen
Duração: 122 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.