Crítica | Ninfomaníaca: Volume 2

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estrelas 2,5

Em minha crítica do primeiro volume de Ninfomaníaca, escrevi que este foi um filme prejudicado pela divisão em duas partes. Eu não poderia estar mais enganado. Embora tenha sido concebido como um só, o volume 2 representa uma mudança brusca no tom da obra que acabam tirando quase todos os elementos positivos do primeiro filme.

Como esperado, a trama inicia exatamente de onde parou: Joe continua sua narrativa capitular inspirada nos elementos do quarto de Seligman. Na história ainda vemos a jovem Joe, vivida por Stacy Martin, mas pouco após, em um pulo temporal de três anos ela é trocada por Charlotte Gainsbourg, que dá vida a seus anos subsequentes. A mudança é brusca e inverossímil e parece estarmos vendo outro personagem, considerando que em apenas três anos ela mudou tanto. Ainda assim, Gainsbourg nos entrega um trabalho sólido e com o passar dos minutos acabamos deixando tal falha passar.

O sétimo capítulo, the silent duck, é o ponto forte do filme e consegue prender o espectador através de suas cenas agoniantes e seu constante suspense. O personagem “P” (Jamie Bell), inserido neste arco é um dos melhores em toda a narrativa, nos trazendo uma situação que conseguimos mas não queremos acreditar. Neste, o tom de ironia presente na primeira parte é abandonado por completo, substituído pela melancolia e degradação do ser humano. Tal alteração na progressão da trama é mantida conforme a história progride e, embora tal arco tenha funcionado, o posterior não consegue sustentar o longa-metragem. A partir da segunda metade do longa, ninfomaníaca fica apenas no título e passamos a ver algo completamente diferente.

Conforme foi dito na crítica do Volume 1, Ninfomaníaca peca na falta de conexão entre seus arcos dramáticos. Tal fator é ainda mais evidente aqui, ao ponto que não encontramos nenhuma vontade de terminar a história. Ao mesmo tempo a sensação de que aquilo não levará a lugar nenhum é crescente, que aquilo será um contar de histórias por si só. Infelizmente isso acaba se realizando através de um péssimo desfecho não só para a narração de Joe, como para o filme em si, que acaba forçando uma situação que simplesmente não se encaixa com os personagens até então construídos. A sensação deixada é que o roteirista (o próprio Trier) estava cansado e decidiu acabar por ali mesmo.

Os cortes bruscos e a câmera na mão continuam nesta segunda parte e diversos closes no rosto dos personagens constroem a sensação de agonia e suspense do capítulo 7. Por outro lado a montagem criativa repleta de inserts ilustrativos (que construíam o tom sarcástico da obra) foram abandonados quase por completo, tirando grande parte do entretenimento provido pelo longa. Além disso existe o mal posicionamento de alguns jump-cuts que acabam mais parecendo um erro do que o efetivo corte intencional.

Ninfomaníaca: Volume 2 tira quase todos os elementos que tornaram a primeira parte um bom filme e se constitui como uma narrativa forçada e acelerada. A divisão em duas partes, inesperadamente, acaba salvando o longa-metragem. Quem gostou do primeiro volume deveria ficar longe deste filme e quem simplesmente não consegue deixar uma história não terminada irá ter um grande desapontamento.

Ninfomaníaca: Volume 2 (Nymphomaniac: Volume 2, Dinamarca/ Alemanha/ França/ Bélgica/ Reino Unido – 2013)
Direção: Lars von Trier
Roteiro: Lars von Trier
Elenco:  Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Uma Thurman, Willem Dafoe, Michael Pas, Jamie Bell.
Duração: 123 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.