Crítica | Ninfomaníaca: Volume 2

Se os críticos consideraram frustradas suas expectativas por uma maior ousadia no primeiro volume de Ninfomaníaca, certamente foi em seu segundo capítulo que eles tiveram aquilo que tanto esperaram. No Volume 2, Lars von Trier clarifica as suas intenções e aprofunda a jornada de autodescoberta e autopunição de Joe. A personagem segue seu relato a partir da maior desgraça que se abateu sobre ela – a insensibilidade ao sexo. Joe torna-se esposa e mãe e deixa-se cair no vazio que já havia suspeitado. É interessante sua fala de que não lhe faltava amor materno, mas que sentia denunciada nos olhos do filho a sua sexualidade impudica (certamente um prato cheio para uma abordagem psicanalítica, que foge bastante do escopo dessa crítica). Naufragando no vazio e asfixiada pelo “conforto doméstico”, Joe radicaliza em sua experimentação – o que ela denomina como encontros com “os homens proibidos”.

Ela tenta redescobrir o prazer naquilo que considera de mais abjeto na sexualidade feminina. O prazer lhe é restaurado, mas Lars von Trier não tarda a retomar a imagem da mulher que abdica da maternidade em função do próprio gozo. O prólogo de O Anticristo ressurge como um eco, mas Jerôme consegue evitar o fim trágico que serviu de leitmotiv ao filme anterior. Se a personagem feminina do filme de 2009 se converte em uma espécie de bruxa medieval, provando de sua sexualidade infame como Eva do fruto proibido, Joe fará inicialmente o caminho oposto. Ela se penitenciará por sua natureza destruidora e condenada e procurará ajuda em um grupo de apoio a ninfomaníacas. Nesse momento, Joe se vê no espelho como criança. Uma das digressões de Seligman aponta para a ideia freudiana de que a criança é um ser de sexualidade polimórfica, cujas perversões vão sendo abafadas ao longo da vida. Quando Joe se olha no espelho, ela contempla a sua luxúria potencial, em estado embrionário, mas já capaz de constranger seus esforços proibitórios de adulta. A grande virada se dá exatamente aqui.

Ninfomaníaca: Volume 2 chega aos dois principais pontos que desejava alcançar. Se já fica claro, desde o primeiro volume, que o amor, a maternidade e a família aprisionaram Joe na insuportabilidade do nada, também não é na perspectiva patologizante de sua própria sexualidade que ela encontrará algum sentido sobre si mesma. A metáfora sobre a representação da individualidade da alma humana pela singularidade da forma de uma árvore se materializa e Joe encontra, por fim, a sua correspondente. Se ela chama de hipocrisia a supressão de palavras para esconder a putrefação social que elas representam, não parece menos cínica a sua tentativa de auto-categorização psicopatológica. Vale observar que Joe jamais é diagnosticada, em nenhum dos dois volumes, como uma ninfomaníaca de fato, a não ser pelo seu próprio diagnóstico, que ela confessa a Seligman no começo de seu relato. Lars von Trier escarnece esse discurso psicopatológico desde O Anticristo, cujo personagem masculino – um psicólogo – fracassa retumbantemente em seu intento terapêutico. Para o dinamarquês, há muito nos recônditos da alma humana que não se pode compreender apenas pelo binômio função-disfunção.

Ao longo das quatro horas de projeção, a personagem de Charlotte Gaingsbourg enfrenta sua via crucis para compreender que suas idiossincrasias são a única prisão que lhe cabe. Sim, eis o segundo endpoint de Ninfomaníaca: Volume 2 e, possivelmente, o mais interessante deles. Lars von Trier consegue desmontar tudo o que se entendeu por libertação sexual nos últimos cinquenta anos. Joe não experimenta, em nenhum momento, a sua sexualidade atípica como um exercício de liberdade. Sua busca incessante pelo gozo é sua mesma busca pelo sofrimento e pela dor. Joe é uma árvore tortuosa e solitária. O sexo não é uma simples enfermidade para Lars von Trier, mas também não liberta nem redime a sua protagonista. Ele a aprisiona em algo borderline. Em um certo limbo. O cineasta dinamarquês não realiza nenhum ataque militante ao feminismo, é bom que se diga. Ele apenas entrega a perturbadora suspeita de que há nesse terreno muito mais camadas do que fomos capazes de enxergar. Joe não luta por sua emancipação sexual. Ela luta por sua imanente condenação.

Embora eu considere a inserção da personagem “P” bastante desnecessária nesse segundo volume, já que ela apenas funciona à conclusão da obra, sem lhe dar qualquer profundidade, acho o ato derradeiro do filme bastante contundente. Se, até então, Seligman apenas havia acompanhado o relato de Joe, agora ele agirá. Lars von Trier é inteligente o suficiente para não abandonar as ambivalências que usou para costurar seu filme. No singelo quarto de hóspedes, agora é o personagem de Stellan Skarsgard quem iniciará uma tentativa malograda de libertação. Em Ninfomaníaca: Volume 2, descobrimos que Seligman também está condenado, mas por uma sentença de vetor contrário. Ainda que o filme se alongue demais em seus minutos finais, acho que sua conclusão não poderia ser mais interessante. Se o desfecho de Melancolia expõe a derrota da humanidade diante do cosmo, agora o homem tombará sozinho. Apocalipticamente, mas destruído por si mesmo.

Ninfomaníaca: Volume 2 (Nymphomaniac: Volume 2) – Dinamarca/Alemanha/Reino Unido, 2013
Direção: Lars von Trier
Roteiro: Lars von Trier
Elenco:  Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Uma Thurman, Willem Dafoe, Michael Pas, Jamie Bell
Duração: 123 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.