Crítica | No Coração do Mar

no coração do mar

A presunção do ser em sua imbatibilidade é destruída pelo encontro com uma baleia diferente de qualquer outra. O homem, negando-se ser parte da natureza, é derrotado por ela. No Coração do Mar, adaptação do livro homônimo, lançado por Nathaniel Phillbrick, narra a história real que daria origem a um dos épicos mais famosos da literatura norte-americana, Moby Dick, inspirando fortemente o seu respectivo autor, Herman Melville (Ben Whishaw). Ao entrar em contato com um dos sobreviventes do Essex, baleeiro destruído por uma criatura impressionante, Melville vai de encontro a uma narrativa poderosíssima, apesar de que, futuramente, Moby Dick certamente mostraria ter absorvido mais das nuances dessa história do que a versão cinematográfica de No Coração do Mar. Vendo-se desesperada por conectar as abordagens de Melville em seu livro com os acontecimentos factuais, o filme, inicialmente, acaba desencontrando-se de um cerne. As questões relacionadas a Deus, seu significado, sua existência, sua benevolência, é pincelada uma única vez, em um filme que lida com várias pontuações ao mesmo tempo, mas nunca sabe costurá-las perfeitamente bem. Os horrores cometidos pelo homem no anseio pela sobrevivência é abordagem mais bem sucedida, costurada muito bem com o presente, que apresenta uma pessoa traumatizada pelo seu passado.

Aliás, sob uma outra ótica, No Coração do Mar não sabe como resolver o narrador de sua trama. Thomas Nickerson, interpretado por Brendan Glesson em sua velhice, é o último sobrevivente, ainda vivo, do Essex, mas o seu poder, como contador de histórias, é onisciente, podendo trazer à tona vertentes distantes de seu olhar. Se No Coração do Mar abordasse a visão do garoto, ainda no corpo de Tom Holland, em ótima forma, a história seria completamente diferente, mas muito mais coerente. Por isso, essa questão da sobrevivência é a mais forte, pois caminha aliada com o personagem do presente, com uma ferida incapaz de ser cicatrizada, nunca antes medicada. Um garoto que passa por provações terríveis, mas que sobrevive. Sem isso, nos encontramos com o protagonismo, de fato, sendo atribuído a Owen Chase (Chris Hemsworth), o imediato do capitão do navio. De início, é essa questão que se sobressai: a disputa entre Chase, o imediato, e George Polland Jr (Benjamin Walker), o capitão. Os atores se saem bem, mas essa pontuação dissolve-se em meio a outras melhor resolvidas. Chase é o herói grandioso, mas que toma decisões difíceis para conseguir sobreviver, enquanto George é o personagem que precisa se provar, em busca de uma redenção.

O mais interessante a ser observado de ambos é a transformação corporal dos personagens, que acabam tendo que sobreviver, perdidos no mar, ameaçados por uma baleia gigante. Nesse ponto, a maquiagem sobressai como um dos acertos da obra, que convence, sobretudo, tecnicamente. No Coração do Mar é impressionante visualmente. O trabalho de coesão da fotografia, de tons azuis e verdes, com a computação gráfica é um destaque. As baleias casam-se perfeitamente com os cenários apresentados e, a maior delas, o Moby Dick dos livros e dos filmes, é notável, encantando-nos e aterrorizando-nos ao mesmo tempo. Ademais, a direção do veterano Ron Howard, responsável por bons, ruins e péssimos filmes, também é excepcional, sabendo lidar decentemente com a ação do longa-metragem. A capacidade do diretor é grande, embora haja limitações. Contudo, o que é privilegiado aqui é exatamente uma câmera chacoalhante, que caminha como as ondas do mar, mas flui, ao mesmo passo, como uma ação terrena, cambaleante pelo convés do navio que em tempo naufragaria. Se a trilha sonora incidental não é valorizada, o som em si é um destaque fortíssimo, tornando a narrativa um espetáculo audiovisual de alto escalão.

Sendo assim, sob esses termos, é muito provável que o espectador consiga enxergar a natureza épica de Moby Dick em uma história que quer ser atrelada a esse nome. Sob outros, todavia, a história a ser contada é exatamente distinta, sem aquele mesmo charme. Mas tudo é questão de visão, de ótica, de como enxergar os acontecimentos e de se permitir, ou não, afeiçoar por uma narrativa com prós e contras bastante visíveis. Como algo inesperado, No Coração do Mar até consegue pincelar alguns contrastes do homem com a natureza, valorizando os últimos minutos para discursar sobre as consequências do afundamento do Essex para a economia. Sempre ela, ditando as verdades e o futuro. Enquanto, antes, animais eram mortos para que tirássemos o que quer que precisássemos deles, hoje, a natureza permitiu o homem descobrir matéria-prima do seu solo próprio. A questão é quando passaremos, e se já passamos, a abusar dos bens naturais. Um monstro surgiu para punir aqueles que ganhavam a vida sobre os seus iguais. Não é como se um outro irá surgir das terras e dos mares, punindo as petroleiras, mas certamente haverá consequências, questionamentos sobre a qualidade do poder de Deus, intrigas e oposições. E teremos que sobreviver.

No Coração do Mar (In the Heart of the Sea) – EUA/Espanha, 2015
Direção: Ron Howard
Roteiro: Charles Leavitt
Elenco: Chris Hemsworth, Benjamin Walker, Cillian Murphy, Tom Holland, Ben Whishaw, Brendan Gleeson, Michelle Fairley, Gary Beadle, Frank Dillane, Edward Ashley, Charlotte Riley, Donald Sumpter, Brooke Dimmock, Paul Anderson, Joseph Mawle, Luca Tosi, Jamie Sives
Duração:  121 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.