Crítica | No Coração do Mar

estrelas 3

Existem pessoas na indústria cinematográfica que reconhecem suas limitações. Ron Howard é uma delas. Considerado um ator razoável, Howard não poupou suas oportunidades para ingressar na direção cinematográfica. Com cara e coragem, fez trabalhos para a televisão e alguns curtas chegando em seu primeiro longa para os cinemas em 1977 com Grand Theft Auto – poucos anos depois emplacou seus primeiros sucessos Splash – Uma Sereia em Minha Vida e Coccon. Hoje, indubitavelmente, Howard continua um ator mediano, porém se tornou um dos diretores mais relevantes da indústria. Afinal, quem não queria ter Apollo 13, Frost/Nixon, Uma Mente Brilhante e a sua obra-prima Rush, no currículo? Certamente eu queria.

Agora, com um hiato curto entre um blockbuster e outro, Howard retorna com o controverso No Coração do Mar baseado no livro de Nathaniel Philbrick que traz a história desventurada da tripulação do Essex, um navio baleeiro, que é atacada por uma grande baleia branca levando-os ao naufrágio e à luta pela sobrevivência.

A história é famosa. Tão famosa a ponto de ter inspirado o clássico Moby Dick de Herman Melville. Aliás, o próprio livro de Philbrick é em si, excelente. Logo, com uma história tão forte, com ação na medida certa, um  drama sobre a condição da fragilidade humana em relação aos seus meios de extensão, era de se esperar um baita filme digno de Oscar, não é? Pois bem, parece que a baleia não afundou somente o Essex, mas sim com boa parte da adaptação da obra, infelizmente.

Os problemas residem em sua maioria no texto do filme escrito a seis mãos somente em seu argumento – em si, um exagero. Amanda Silver e Rick Jaffa, os roteiristas mais bipolares da indústria – assinam o exemplar Planeta dos Macacos: O Confronto e o deplorável Jurassic World¸ unem forças com Charles Leavitt que faz o tratamento do texto. Se levarmos em conta a quarta cabeça de Nathaniel Philbrick, é possível ter uma ideia de que as coisas vão se atropelar.

Já começam com o uso para lá de corriqueiro de um clichê condenado: um senhor assombrado pelo passado resolve revelar uma grande história. Logo, o tema do filme se concentra em um enorme flashback – muito mal resolvido, aliás, já que o narrador não é onisciente como o texto apresenta. O diálogo se dá entre um dos marujos sobreviventes do massacre e Herman Melville que acredita que a história tenha força o suficiente para virar sua obra prima.

Quando o longa começa de fato, o dinamismo toma conta de forma avassaladora. Apenas em quinze minutos já temos três conflitos importantes, antes mesmo dos personagens embarcarem no Essex. Somente esses conflitos iniciais já exigem um tempo satisfatório para serem desenvolvidos – algo que não ocorre. E o filme não cessa em criar conflitos novos enquanto vai esquecendo de alguns outros. Ele tenta explorar a justiça da meritocracia, os relacionamentos amorosos dos marujos, os conflitos de classe e hierarquia nas embarcações, o impacto ambiental da caça às baleias, a condição do náufrago, o “antagonismo” da baleia branca e sua relação com o primeiro imediato Owen Chase (Chris Hemsworth) tentando mimetizar Moby Dick, homem vs. natureza, o custo da sobrevivência, as ingerências e corrupção de grandes corporações capitalistas, o terror do passado obscuro e o medo do futuro sobre um sucesso improvável. Listei somente onze, mas existem mais coisas que não posso citar por comprometer a sua experiência enquanto espectador. Enfim, onze grandes tópicos para explorar em apenas cento e vinte minutos. Logo, o filme não consegue se adequar em praticamente nada contando apenas com dois diálogos relevantes e bem elaborados e três sequências memoráveis – todas envolvendo as baleias, efeitos visuais, direção e zero de roteiro.

Também há uma estranheza com os protagonistas. Isso acontece porque ambos simplesmente não te prendem. Em meio a guerra de egos de Owen Chase e o capitão Pollard, o espectador é quem sai mais prejudicado já que diversas vezes os conflitos agregam pouco e são repetitivos – briguinhas de namorados adolescentes muito musculosos. Hemsworth sofre do mal do ator de um papel só até o naufrágio do Essex – curioso, pois seu James Hunt em Rush era bem diferente. Nesse tempo, ele é uma réplica do Thor, só que mais impaciente, carrancudo e gritão. Depois, a coisa melhora e ele desenvolve mais o drama, mas pesando novamente o sotaque que já começa a cansar. No fim, ele volta a ser Thor. O formato do filme, graças aos muitos personagens com divisões de tempo em tela similares uns aos outros, também contribui por nós não nos familiarizarmos com eles e tampouco com seus conflitos e tragédias. Uma pena, pois aqui poderia ter algo muito relevante para nos sentirmos presos a eles e nos importarmos com seu futuro.

Entretanto, apesar de não desenvolver esses conceitos de modo apropriado e tratar o destino de alguns personagens com bastante desdém – vide o caso do marinheiro Joy interpretado pelo sempre competente Cillian Murphy, o roteiro apresenta bons conflitos como apontei anteriormente, mesmo que sejam bem antagônicos e maniqueístas, mereciam mais substância. O tratamento da baleia com o imediato Chase realmente é o que salva a história do filme.

Apesar de Howard ter terminado Rush, aparentemente, Rush não saiu dele – nesse caso, é péssimo. Não somente o texto apressa o filme inteiro, mas o diretor utiliza uma montagem aceleradíssima durante todo o longa. Não há espaço para respirar. É como se víssemos um filme de Michal Bay sobre navios e baleias. Pela matemática que eu fiz, dá aproximadamente um plano com duração média de quatro a cinco segundos, isso quando eles não são ainda mais ligeiros. Ou seja, em termos de enquadramento e movimentação de câmera, No Coração do Mar é riquíssimo, porém isso prejudica o filme.

A primeira razão disso é que a montagem frenética nos cansa. São muitos planos e, entre eles, a quantidade de enquadramentos sujos é equivalente à de planos belos – e quando eles surgem, logo são interrompidos para um menos apurado esteticamente. Howard faz uma decupagem de cenas de ação para diversas cenas, incluindo às dedicadas para a vivência dos homens à deriva pós naufrágio. É lastimável, pois essas sequências clamam por planos mais longos que remetam à contemplação e reflexão. Não espere nada disso aqui. A reflexão realmente é rasteira e o drama humano, pouco palpável, porém as boas cenas existem. Além disso, Howard tem a constante mania de inserir elipses que evitam que o filme perca o ritmo nas cenas destinadas aos náufragos. Ali, realmente era necessário nos sentirmos um pouco do marasmo que eles sentiram ao ficar à deriva. Para ilustrar o que quero dizer, temos algumas passagens como essas em As Aventuras de Pi.

Entretanto, nas sequencias de ação, realmente Howard se sobressai, mesmo que sejam curtas, são excelentes e muito bem dirigidas. São espetáculos à parte e as dedicadas ao ataque da cachalote realmente conferem um ar ameaçador e temível para o animal. Uma mais interessante e criativa que a outra. Nesses casos, cabem os diversos planos que ele faz com câmeras que tomam pontos de vista semelhares às imagens captadas por GoPros (no filme, se trata da Canon C300) – há um excesso desses planos em diversas cenas.

Também é esquisito notar que Howard não valoriza a transformação física intensa que seus atores sofreram para cumprir a lógica interna do filme. Nunca vemos Chris Hemsworth magérrimo como ele apareceu nas fotos de divulgação, mas isso é por falha de Howard que nunca o enquadra para enfatizar o físico do ator. Bom, um desperdício de bom profissionalismo.

Assim como em Rush, Howard retoma a parceria com seu diretor de fotografia consagrado Anthony Dod Mantle que cria esquemas de iluminação verdadeiramente belos, além de conseguir entregar um resultado clean e flat para a luz guia dos personagens. Porém, mesmo sendo muito competente, Dod Mantle tem uns vícios que podem irritar. No caso, a estilização exagerada da pós-produção de correção de cor em suas imagens. Com isso, a imagem é lotada de filtros de cor – mais comum o esverdeado e dourado no caso, que tiram um pouco da naturalidade da cena nos lembrando que tudo ali se trata de imagens artificiais para um filme que tem uma temática realista. Com isso, o cinematografista cria tons surreais como o dourado intenso das ondas que refletem a luz do sol, além de alguns personagens terem um bronze extremamente alaranjado. Lembrando, isso não é algo que realmente me incomode, afinal é a marca autoral do cara e ele sabe fazer isso muitíssimo bem – vide a foto absolutamente fantástica de Dredd. Então espere encontrar uma cinematografia intensa, estilizada, vibrante e muito saturada. Pode parecer que o projetor está sofrendo de aberração cromática, mas realmente se trata da fotografia final da concepção de Dod Mantle.

Para compensar alguns infortúnios com a cor, Howard e Mantle nos presenteiam com um trabalho fantástico de câmera quando os personagens ficam confinados aos botes. Assim como também acertam com as belíssimas imagens aéreas e submarinas dignas de dar inveja a qualquer um. Para finalizar, também lamento a escolha do formato 1.85:1 quando esse filme tinha tudo para ser gravado em Cinemascope. Ou seja, dependo da sala que você for, a exibição acontecerá com as famigeradas letterbox cada canto lateral da tela.

Na incessante trilha musical, temos Roque Baños apresentando ótimos temas. Mesmo que alguns sejam bem genéricos e batidos, é inegável que o compositor consegue casar com muita facilidade música com ação tornando a experiência ainda melhor. Assim como o filme inteiro, poderia ser mais ousada durante o tempo que os marinheiros se refugiam nos botes.

Já os departamentos que merecem muito destaque são os de design de produção e figurino. Ambos trazem o clima certeiro da ilha de Nantucket do séc XIX. Uma recriação absolutamente fidedigna de cenários que contam pequenas histórias por si só – claro, cabendo à sua imaginação e vontade de exercitar a cabeça.

Como é de se esperar, esse filme se sustenta muito com o auxílio de efeitos visuais. No que tange os efeitos de atmosfera que agregam ao ambiente da cena e auxiliam o design de produção, não há o que por defeito. São belíssimos como todo estúdio de grande porte tem a competência de entregar. Entretanto, com os efeitos primários que se tratam das baleias, as coisas já não são tão fabulosas assim. É um resultado que transita entre o satisfatório para o ruim. Por vezes, lhes faltam textura, outras vezes, a animação que não agrada.

Enfim, No Coração do Mar é um bom filme, vale o ingresso. Sai da sessão um tanto decepcionado, mas sem dúvida alguma, tinha me divertido com ele. É um ótimo entretenimento muito bem produzido que deve agradar bastante, afinal tem a direção de Ron Howard que não é nenhum imbecil, mas sim um diretor bem perspicaz, aliado de um elenco grandioso e uma equipe competente. Se gosta de filmes como Mestre dos Mares ou Náufrago, certamente vai gostar deste, mesmo que em menor intensidade já que se trata de um filme mais fraco. A verdade é que o relato que Nathaniel Philbrick trouxe foi um dos mais fortes da literatura marítima e ganhou um filme que se apequenou diante da obra original. Tinha material de Oscar e trouxe um resultado ordinário, comum, simples que não elabora praticamente nada de novo, ainda que seja acima da média.

É uma pena, pois o livro merecia um filme tão impactante quanto.

No Coração do Mar (In the Heart of the Sea, EUA, 2015)
Direção: Ron Howard
Roteiro:
Rick Jaffa, Amanda Silver, Charles Leavitt, Nathaniel Philbrick
Elenco:
Chris Hemsworth, Cillian Murphy, Tom Holland, Bem Whishaw, Charlotte Riley, Brendan Gleeson, Frank Dillane, Benjamin Walker, Paul Anderson, Michelle Fairley.
Duração:
121 minutos.

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.