Crítica | No Intenso Agora

PLANO CRITICO NO INTENSO AGORA PLANO CRITICO

Como uma mensagem na garrafa, o cineasta João Moreira Salles encontrou imagens perdidas de sua mãe, Elisa Margarida Gonçalves Moreira Salles. Ela registrou, em vídeo caseiro e diário de bordo, uma exótica viagem à China em plena Revolução Cultural maoísta. Elisa estava exultante e relatou entusiasmada o que via por aquelas terras. Salles, no entanto, ficou perturbado com a felicidade de sua mãe — característica que ela perdeu ao longo da vida — e resolveu estudar aquelas imagens tanto como registro histórico quanto como uma tentativa de conhecer melhor aquela mulher.

Foi a partir dessa premissa de interesse, digamos, privado, que Salles construiu sua astuta pesquisa sobre a natureza da imagem documental e as possibilidades de extracampos que escapam ao frame. Nesse aspecto, o documentário No Intenso Agora é exemplar: uma filmagem captada em um regime de exceção é diferente de uma outra realizada num estado democrático; um cinegrafista amador seguro e livre filma na rua, enquanto outro, tomado pelo medo, tenta gravar por detrás de cortinas. O filme é como uma Aula Magna, narrada pelo próprio Salles, sobre o que está no plano e o que escapa a ele (invariavelmente um estado emocional). Daí a potência do testemunho audiovisual: não se trata apenas do que o documento expõe, mas sobretudo do que ele não expõe (ou deixa de expor por acaso ou omissão).

O pesquisador Ricardo Weschefelder escreveu: “o espaço tende a reduzir e confinar a imagem em seu território demarcado; o tempo, por outro lado, pode criar noções entre passado, presente e futuro no plano da imagem”. É assim que Salles, amparado pela montagem inteligente de Eduardo Escorel e Laís Lifschitz, consegue desenvolver sua tese sobre a imagem e o som em tempos de revolução e comentar politicamente sobre a revolta estudantil francesa, a ditadura soviética e o uso ideológico da morte. O roteiro é, além de muito bem escrito, capaz de nos direcionar por territórios diversos e nos envolver emocionalmente com o que é relatado. Como o filme é conceitualmente amplo, a opção por conduzir o espectador pela mão do afeto se mostra acertada, de modo que é possível sentir o calor do ímpeto juvenil e o medo da repressão que marcaram a segunda metade dos anos 60.

Não cabe definir rigorosamente No Intenso Agora, encaixando-o numa categoria demarcada, passível de classificação objetiva e fácil. O filme, ao mesmo tempo em que é pessoal, é impessoal. O diretor/narrador salta de um registro analítico, factual, para um outro que possibilita a conjectura, a imaginação. Quando achamos que Salles pretende fazer apenas um ensaio metalinguístico, ele parece mesmo querer redescobrir a imagem perdida de uma mulher feliz, sua própria mãe. São essas escolhas narrativas que fazem de No Intenso Agora uma experiência notável. A edição de som de Denilson Campos torna veemente as passagens silenciosas e dá textura à viagem à pobre e vibrante China de Mao Tsé-Tung, assim como nos insere no quebra-quebra civil da Paris de Maio de 68. Mais tarde conheceremos Praga e sua primavera incendiada. Depois, um Rio de Janeiro em plena ditadura militar. Trata-se de um tour de force por fatos e lugares marcantes da História recente – período no qual as pessoas viviam o fervor político como testemunhas oficiais.

Prepare-se, portanto, para sair da projeção mais atento às escolhas e condições em que uma filmagem é executada. Prepare-se também para, contra o esquecimento, conhecer os bastidores de momentos decisivos. Prepare-se, sobretudo, para entender que o nosso momento é agora e que ele precisa ser captado em toda sua intensidade.

No Intenso Agora (Brasil, 2017)
Direção: João Moreira Salles
Roteiro: João Moreira Salles
Duração: 127 min.

MAURÍCIO ROSA . . . Maurício Rosa é um cara do século 19 ou dos anos 70 ou do futuro, mas, definitivamente, não é um homem do aqui e agora. É poeta ocasional e brinca com as palavras para produzir textura e afeto. Tem 26 anos e persegue uma dramaturgia para o desenredo desse mundo. Pisciano, destro, cinéfilo e eterno amante das mulheres da arte.