Crítica | No Limite da Realidade (1983)

Televisão não é cinema. Em tempos de discussão sobre a legitimidade das produções do Netflix em concorrer aos Prêmios da Academia, a diferenciação tem sido bastante evocada. Não se trata de uma questão simples. O que separa os dois formatos vai além do valor de produção, refinamento de direção e de roteiro ou orçamento – mas passa um pouco por todas essas vias, no sentido de que o formato da produção tem ligação com seu formato intentado de exibição.

No Limite da Realidade é o resultado de uma tentativa de transpor o seminal seriado antológico (homônimo no original) Além da Imaginação de Rod Sterling, marco das telinhas, para as telonas oitentistas já marcadas pelo saudosismo em relação ao clássico sessentista. A trajetória adotada, ao contrário de propor uma reimaginação do misto único de horror, sci-fi e fantasia do original, foi a de transplantar o show em sua literalidade para uma recriação cinematográfica.

Para tanto, a produção capitaneada por John Landis trouxe, além do próprio, os grandes talentos ascendentes de Joe Dante e George Miller, além do já mais que consagrado Steven Spielberg, para dirigir remakes de uma coletânea de quatro episódios. Formando um todo intencionalmente heterogêneo, o filme abraça a identidade televisiva e o formato antológico da série ao mesmo tempo em que evita perder sua principal característica narrativa – o conto rápido com um twist impactante como cerne. Infelizmente, a produção acabou sendo mais associada ao desastre nas filmagens que acabou resultando na morte do ator Vic Morrow do que por qualquer mérito em recriar nas telonas o fascínio dos contos limítrofes em preto-e-branco que tanto marcaram época.

O primeiro segmento, Time Out, inspira-se no episódio A Quality of Mercy para um cautionary tale a respeito dos discursos de ódio e a condição humana que eles negam por sua absoluta falta de empatia. Vic Morrow interpreta aqui em seu último papel um odioso racista que mediante contratempos em sua carreira queixa-se aos quatro ventos a respeito dos problemas atuais da América deverem-se à influência dos judeus e dos negros.

Caricatural em seu desenho, horripilantemente realista em uma execução que não nos deixa dissimular o quanto a questão se faz presente com força ainda hoje, o evento bizarro que se abate sobre o sujeito é o de encarnar, sucessivamente, um membro de grupos sociais perseguidos em uma sequência de cenários do mais puro horror que a realidade é capaz de oferecer. Campos de concentração, chacinas do Ku Klux Klan, extermínio dos vietcongues: o curta não hesita em condensar vários lugares-comuns do tema em uma perseguição alongada e fazer da viagem de Connor um tour do inferno que é a realidade.

O enfoque direto e reto do segmento para tratar do tema acaba lhe custando boa parte da efetividade de fato. Sem sutileza alguma, a coisa toda acaba por soar como uma lição de moral forçada mais do que realmente uma representação do inferno pessoal de um propagador do ódio. Os sets, a atuação e o roteiro remontam a uma produção televisiva, para o bem e para o mal. O tema moral é descaradamente sessentista, tendo sucesso enquanto tributo a este tipo de história que foi comum à época, mas às custas de ressaltar um caráter datado e de pouca inovação para a sequência. Já a partir da primeira cena, com os nazistas, fica claro ao espectador o direcionamento da coisa, sendo que o segmento não guarda nenhuma surpresa para além desta lição de moral – na qual em nenhum momento sente-se realmente a realidade ou o peso que a situação teria para um sujeito do tipo.

O segundo segmento, Kick the Can, recria o episódio homônimo sob a direção de Spielberg. De forma um tanto anti-intuitiva, o lado do diretor que vemos aparecer de forma mais marcada aqui não é o da construção de tensão a partir da sugestão ou a exploração minimalista genial de conceitos fantásticos – casamentos perfeitos dos fortes do diretor com as premissas do seriado. Temos aqui o Spielberg de uma veia mais emocional, explorando habilmente um drama otimista e energético, ainda que não de forma particularmente inspirada.

Trabalhando entre os extremos opostos da infância e da velhice, a trama traz o misterioso Sr. Bloom (Scatman Crothers) visitando a Casa de Repouso de Sunnyvale, incentivando os moradores do local a relembrar suas brincadeiras favoritas de infância, para então reeditá-las em um convite para sua brincadeira favorita, aquela do título. Porque a maturidade ou a velhice haveria de negar a infância? Qual é o mais cobiçável – a mente velha em corpo jovem ou a mente jovem em corpo velho? Essas questões são entrevistas aqui por um roteiro que no entanto carece de uma estrutura mais eventual e de uma montagem mais empolgante.

Apesar de começar bem, intrigando bem mais do que o segmento anterior, a história acaba mais uma vez encaminhando-se para um terreno mais óbvio – sendo que mesmo o suspense em relação ao caráter do desfecho (que poderia ainda chocar com um twist negativo) acaba diluído em uma resolução linear apaziguadora. O toque de Spielberg, que poderia dar contornos especiais a um enredo morno, não se encontra lá muito presente aqui – o que nos leva a pensar se o desastre na filmagem do primeiro segmento (que ocorreu logo no início das gravações, precedendo todos os outros) não acabou colocando o diretor em um modus operandi de puro cumprimento de tabela, uma vez que ele compreensivelmente condenou pesadamente o ocorrido de maneira a subentender uma lamentação em relação a sua participação no projeto.

A sensação morna dos dois primeiros segmentos finalmente é superada em It’s a Good Life. Remake de um clássico episódio homônimo, o curta a cargo de Joe Dante traz a professora Helen Foley (Kathleen Quinlan) encontrando-se com o misterioso garoto Anthony (Jeremy Licht), que convida-a para comemorar seu aniversário junto à sua família, alegando que eles pouco se importam com ele. A chegada na casa da criança logo mostra que as coisas não são bem assim, com o estranho comportamento da família revelando um grande temor em relação a ele.

O segmento constrói a tensão muito bem, mostrando que não é necessário recorrer a nenhum tipo de ameaça de violência para se estabelecer um clima fidedigno de horror. É bem interessante a forma como a direção utiliza-se dos temas infantis para construir o horror em torno da ditadura do terrível garoto manipulador de realidade e sua dificuldade em aceitar, como boa criança mimada que é, que a satisfação de seus gostos pessoais não significa necessariamente a felicidade de todos. Tema bem mais simples que o do primeiro segmento, mas que rende aqui um curta bem mais memorável.

A imagética e sonoridade dos cartoons antigos são muito bem utilizadas em todo seu potencial de causar desconforto (e acredite, é bastante potencial mesmo!), e a forma como vamos explorando a casa, que vai sendo revelada gradativamente mais surreal ao longo do passeio de Helen pelos seus corredores auxilia a coisa toda a causar o tipo de impressão de desconforto da falta de sentido do qual a franquia tão bem se utiliza. Momentos tão simples como o jantar servido por Anthony, que consiste em um mistureba de doces que só soaria bem na imaginação infantil mesmo, conseguem realizar na tela um desconforto palpável reminescente de cenários oníricos, o que é algo que frequentemente é tentado mas raramente se consegue captar tão bem quanto Dante faz aqui.

Por fim, no quarto segmento temos George Miller realizando o remake de Nightmare at 20.000 Feet, um dos episódios mais icônicos da série original, que contava com William Shatner como um passageiro em um vôo, apavorado por visões de um gremlin sabotando as turbinas da asa vista de sua janela. A direção visceral e energética de Miller consegue fazer do claustro do avião a melhor sequência de toda a coletânea, com John Lithgow vendendo bem a figura do atormentado Sr. Valentine.

A começar pelo ataque de pânico no banheiro do avião, a sequência bombardeia o espectador com um senso de urgência que é frequentemente contrastado com toques de leveza advindos da reação dos outros passageiros (com destaque para a garotinha com seu fantoche horripilante) ao surto de Valentine. O conto breve impressiona visualmente, tanto na turbulência claustrofóbica do interior da aeronave quanto pela imagética bem realizada do monstro na asa – novamente uma figura onírica terrível para acompanhar aquele hambúrguer lambuzado de manteiga de amendoim do segmento anterior.

A narrativa também vai ao âmago da temática da franquia, que é a deste limite entre o real e o imaginário, a especulação científica e os medos e superstições mais brutos que todos têm. O desespero de Valentine em fotografar a criatura, mesmo com a iminência do desastre, é especialmente interessante – se é para morrer, que ao menos ele possa saber se a criatura que ele percebeu ali esteve envolvida com seu trágico final ou se tudo não passou de ilusão. Também encontramos tempo para uma breve sequência de ação, encerrando a coletânea em um pico de adrenalina, que nos entrega por fim já incautos ao rápido e simples twist final, que retoma a breve vinheta da abertura para dar um fim terrível ao pobre Sr. Valentine, herói injustiçado daquele vôo.

No Limite da Realidade é uma coletânea bastante heterogênea, e se constrói desta forma propositalmente. Trata-se de um formato interessante e de uma escolha bem acertada, ainda que pouco ortodoxa (ou seria ortodoxa demais?), para transpor um clássico da televisão para o formato cinematográfico. Infelizmente a fidelidade ao método televisivo, se garante à obra um ar de autenticidade, ao mesmo tempo vem às custas de algumas limitações.

Notadamente, Time Out parece falhar no salto para as telas grandes, constituindo-se como uma espécie de exercício redundante com uma lição de moral pouco sutil ou sequer interessante em sua entrega. Kick the Can traz uma ideia promissora e conta com a direção cuidadosa de Spielberg, mas ainda assim também peca pela falta de qualquer “algo mais” que justifique sua reedição. Felizmente, It’s a Good Life Nightmare at 20.000 Feet chegam a tempo de salvar o dia, trazendo dois segmentos marcantes e bem realizados que conseguem enfim justificar a empreitada. Tivesse o projeto conseguido se manter no nível destas duas partes finais (e, é claro, não houvesse ocorrido o terrível acidente nas gravações, que marcou de forma irreparável a produção), talvez poderíamos estar diante de um filme realmente digno de nota. Ainda assim, No Limite da Realidade não deixa de entregar, ao menos em parte, o potencial de sua proposta, valendo a pena ser conferido por todos aqueles que querem abrir a porta para a quinta dimensão, com sua chave da imaginação.

No Limite da Realidade (Twilight Zone: The Movie, EUA – 1983)
Direção: John Landis, Steven Spielberg, Joe Dante, George Miller
Roteiro: John Landis, George Clayton Johnson, Richard Matheson, Melissa Matheson, Jerome Bixby, Rod Sterling
Elenco: Dan Aykroyd, Alberto Brooks, Vic Morrow, Doug McGrath, Charles Hallahan, Scatman Crothers, Bill Quinn, Martin Garner, Kathleen Quinlan, Jeremy Licht, Kevin McCarthy, Patricia Barry, John Lithgow, Abbre Lane, Donna Dixon, John Dennis Johnston
Duração: 101 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.