Crítica | No Man’s Sky

estrelas 3

Dificilmente veremos tão cedo um projeto tão ambicioso quanto No Man’s Sky. Desenvolvido pela desenvolvedora independente Hello Games, o jogo tinha uma proposta muito clara: nos trazer uma experiência única de exploração espacial, com um universo praticamente infinito, com planetas e sistemas sendo gerados de forma procedural. O hype naturalmente foi gigantesco, tanto para jogadores quanto para os veículos de mídia (que não deixam, eles próprios, de serem gamers). Temos aqui, contudo, mais um evidente exemplo de como a expectativa pode causar um grande desapontamento, ao passo que o game não é exatamente aquilo que esperávamos.

Após um breve carregamento disfarçado de uma viagem pelas estrelas, nos vemos isolados em um planeta aleatório – nossa nave está destruída e precisamos consertá-la. Dessa forma, a obra não perde tempo em nos jogar direto no gameplay. O início é muito similar aos jogos de crafting que temos por aí – precisamos minerar recursos a fim de construir algo em especifico, no caso, consertar nossa espaçonave. As primeiras horas do game, portanto, constituem nisso, exploramos esse planeta inicial – gerado de forma randômica para cada jogador, aos melhores moldes de Minecraft – a fim de encontrar os elementos específicos necessárias para cada peça quebrada em nosso veículo, enquanto aproveitamos um visual estonteante que faz uso de cores bastante vivas, que tornam cada paisagem uma verdadeira pintura.

À primeira vista os menus funcionam de forma muito intuitiva, tanto no teclado e mouse quanto no controle, mas desde já identificamos os primeiros problemas  de No Man’s Sky. A divisão entre três submenus, exosuit, Starship e tool é desnecessária, criando apenas uma quebra na fluidez do jogo, que nos obriga a constantemente pular de opção em opção o que não deixa de ser uma perda de tempo. Evidentemente que a intenção aqui era trazer elementos de survival ao game, a limitação de nosso inventário nos obrigaria a escolher bem o que precisamos e temermos uma exploração insensata, que nos levasse muito longe de nossa nave.

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Apenas uma das muitas paisagens que você verá no jogo.

Essa linha de pensamento é corroborada pelas condições de cada planeta, enquanto alguns podem ser considerados ideais para a vida do personagem, outros apresentam determinados graus de toxicidade, radiação, calor ou frio, o que obrigam uma manutenção constante de nossos escudos e dispositivo de suporte à vida. Tempestades, chuvas alcalinas, dentre outros, agravam nossa situação, requisitando uma maior cautela. O elemento survival, porém, em ponto algum consegue nos trazer uma tensão, visto que é muito fácil sobreviver – basicamente precisamos conseguir um recurso muito comum em todos os planetas para manter nosso equipamento funcionando plenamente. No fim, as condições planetárias e o pouco espaço no inventário simplesmente estão presentes para encher nossa paciência, colocando uma pedra no caminho de nossa exploração.

Nem mesmo as criaturas nativas dos planetas ou as sentinelas, uma espécie de polícia universal (eles estão em todos os lugares) robótica, conseguem nos trazer certo desafio, visto que é muito fácil combate-los, mesmo quando em grande número e desde o primeiro embate já podemos identificar as falhas no sistema de combate do jogo, que constitui basicamente em ficarmos parados, com a mira presa no alvo apertando um único botão. Não há mais nada além disso, a mira é quase automática e o inimigo, na grande maioria dos casos, fica parado em nossa frente, não trazendo qualquer desafio. Além disso, fugir de qualquer um deles é ridiculamente fácil e digo isso mesmo para aqueles cujo equipamento não teve sequer um upgrade, o que nos faz pensar sobre a necessidade em melhorarmos nossa arma de fogo.

Chega a hora, portanto de alçarmos voo pela primeira vez, sairmos do planeta no qual ficamos presos desde o início por aproximadamente uma hora de jogo (varia de acordo com o foco do jogador, naturalmente). Aqui No Man’s Sky demonstra sua verdadeira beleza, ao atravessarmos a atmosfera, nos depararmos com os primeiros asteroides e, logo em seguida, a vastidão do espaço, com planetas, estrelas e estações espaciais à distância, somos fisgados e imergidos quase que instantaneamente, pegados de surpresa por uma vontade de conhecer esses outros locais e, é claro, viajar desgovernadamente pelo universo. A distância, dada em tempo e não em metros ou passos, como é comum nos jogos da atualidade, aqui é oferecida em tempo, afinal, estamos falando de uma escala muito maior, que é dada em anos-luz e não em quilômetros. A imersão é ainda mais garantida. Quando engatamos a pulse engine pela primeira vez, uma versão menos veloz da famosa velocidade da luz, ou salto de dobra, nossas células nerds apreciadoras de ficção científica vibram como nunca antes, fazendo qualquer fã de Star Wars, Star Trek ou Battlestar Galactica ter verdadeiros espasmos de alegria. Pela primeira vez podemos explorar uma galáxia com os famosos elementos de séries e filmes do gênero e nos sentimos como pessoas que passam horas jogando Flight Simulator. Isso tudo não chega aos pés, porém, de quando ativamos o hyperdrive pela primeira vez e saltamos para outro sistema solar, nos deparando com outros planetas, com novas possibilidades e ambientes a serem explorados.

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Onde nenhum homem jamais esteve

Enquanto nos aproximamos de um desses novos astros, naves gigantescas saem do hiperespaço e logo descobrimos que se tratam de comboios de comércio. Começa a vida de pirata quando decidimos destruir seus reservatórios e roubarmos seus conteúdos. A polícia espacial, todavia, também está presente aqui e logo naves sentinelas aparecem para encher nossa paciência mais uma vez. O combate estelar, porém, consegue ser um pouco superior que o terrestre – a ausência de desafio mencionada anteriormente não existe aqui, muito pelo contrário, se não tivermos recursos necessários para constantemente reparar nossos escudos a morte é certa e se isso acontecer aparecemos no último local que salvamos o jogo com o inventário da nave vazio e com uma de suas peças requisitando uma manutenção. A Hello Games, contudo, parecia ter medo de dificultar nossa vida e logo descobrimos que nossos itens estão à nossa espera, convenientemente, no local de nossa morte esperando para serem recuperados, visto que o universo todo é educado o suficiente para não roubar de nós – mesmo algumas naves que, ironicamente, nos atacam simplesmente porque temos uma carga valiosa.

Quando descobrimos que a vida de pirata não é assim tão recompensadora decidimos pousar novamente nos planetas e, apesar de uma diferença estética evidente entre cada um, não podemos de ser tomados por uma sensação de mesmice: todo e qualquer ambiente soa exatamente igual a outros, visto que o que podemos fazer não varia. Dito isso, retomamos aquela primeira hora de gameplay e fazemos exatamente as mesmas coisas. Não que não exista mais nada para fazermos nos planetas, podemos encontrar ruínas, aprender a língua de uma das três raças inteligentes desse universo e procurarmos espaçonaves caídas. O problema é que cada uma dessas experiências é exatamente igual de planeta para planeta, mesmo as três raças são constituídas por npcs estáticos que falam coisas parecidas. Os diálogos, na grande maioria, nos trazem um desafio lógico interessante à priori, mas que rapidamente cai na repetição. Outra alternativa é catalogar os animais e plantas de cada local, além dos planetas descobertos, que podemos nomear para dar nossa cara a essa galáxia. Ao fazermos isso, podemos fazer upload para conseguir dinheiro e mostrar para o mundo nossa contribuição, mas, infelizmente, somos desmotivados a fazer isso, visto que precisamos ir de uma a uma em nossas descobertas e segurar o botão de upload, não há como subir tudo de uma vez.

Entramos, portanto, em um elemento de grande controvérsia em No Man’s Sky: seu multiplayer. Vamos deixar algo claro aqui não há multiplayer no jogo a maior interação que podemos ter é encontrar um planeta descoberto por outro jogador e só. Isso não é um MMO, e sequer podemos ver os outros, como já foi comprovado, surpreendentemente, no primeiro dia após o lançamento. A intenção aqui é clara, fazer nos sentir em um universo maior, com diversos outros exploradores, mas não podemos afastar um certo sentimento de solidão, o que não chega a ser um defeito, visto que nossa imersão é muito contribuída por esse fator.

No fim, percebemos que o game, apesar de todo o seu escopo, é bastante limitado e acaba soando como um jogo ainda em fase de testes, visto que muito conteúdo poderia ser melhorado. Ainda assim, em virtude da imersão provocada não só pelo visual, como pela possibilidade de explorar as estrelas, somos fisgados por essa experiência e compelidos a voltar para ela. Devo dizer que, mesmo se não fosse escrever esta crítica, ainda jogaria No Man’s Sky, há um evidente charme no game, apesar de todos os seus (muitos) defeitos. A ambição da Hello Games e nossa expectativa criaram uma certa decepção em relação à obra, mas isso não quer dizer que não possamos aproveitá-la, afinal, não é sempre que podemos explorar o universo à nossa própria vontade.

No Man’s Sky
Desenvolvedor:
Hello Games
Lançamento: 09 de agosto de 2016
Gênero: Ficção científica
Disponível para: PS4, PC


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GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.