Crítica | No Olho do Furacão

Não há nada de especial para ser notado no desenrolar da filmografia de Rob Cohen. Claro, conhecemos seus êxitos comerciais como o início da bilionária franquia Velozes e Furiosos e outros projetos bacanas no cenário dos filmes de ação como Daylight, Triplo X e Coração de Dragão, mas, no geral, Cohen sempre assumiu sua postura de pau mandado de Hollywood, o “joga esse projeto no meu colo que eu faço”. E outras contribuições como A Múmia – Tumba do Imperador Dragão e O Garoto da Casa ao Lado comprovam que nem só de boas bilheterias foi feita a carreira desse diretor.

Mas confesso que, diante de uma premissa tão rocambólica e fajuta como a de No Olho do Furacão, cuja banalidade grita por todos os poros possíveis, não houve como botar alguma fé quando um diretor com energia pra dar e vender, independente de seus resultados, se propôs a comandar (ou ficar à serviço dos produtores) mais um desses filmes de furacão, tornados e tempestades que tentam ser o novo Twister à todo custo e que podem, ocasionalmente, injetar alguma dose de diversão quando temos alguém tão acostumado com a movimentação e manipulação de efeitos visuais (não que Cohen seja referência nisso) para dar vida a ideia de aliar essa vibe de filme catástrofe com uma narrativa paralela envolvendo um assalto de 160 milhões(?!).

No caso, Will (Toby Kebell, de Black Mirror) é um meteorologista que dá sinal vermelho para as autoridades de uma pequena cidade norte-americana sobre a chegada de uma tempestade devastadora. Em algum momento, Will e seu irmão Breeze (Ryan Kwanten), com quem tem uma mágoa do passado (e pasmem, também envolvendo uma tempestade), irão dar de contra com o andamento de um assalto contra a sede do Tesouro Nacional, ode os assaltantes dependem da agente Casey (Maggie Grace) para abrir o cofre, já que ela é a única detentora dos códigos de acesso.

Há um claro apelo em No Olho do Furacão para atrair o mais médio dos públicos, e não há nenhum problema nisso quando o único objetivo de divertir se faz tão claro diante da proposta. Mas vocês estão lendo as palavras de um crítico que sempre renegou o posicionamento do “é só desligar o cérebro e embarcar”, pois acreditem, mesmo o mais descompromissado dos filmes necessita de algum cérebro para não se deixar engolir pela banalidade e respeitar minimamente a inteligência do público, algo que os roteiristas Scott Windhauser e Jeff Dixon parecem piamente pensar o contrário. A começar pelo fato de que No Olho do Furacão se leva a sério de tal forma que não deveria, e o revirar do estômago já têm início com a pincelada dramatúrgica dos dois irmãos protagonistas, que nada mais passam de um arremedo de motivações para que os irmãos despertem alguma empatia no público, e isto com direito ao rosto de Lord Voldemort se formando no meio da tempestade e tudo.

E mesmo a má qualidade da computação gráfica (cheguei a acreditar que tudo se passa no mesmo universo de Sharknado, pois JURO que só faltaram os tubarões) que poderia jogar à favor de Cohen nas cenas de ação apenas acentua a bizarrice canhestra das situações elaboradas, uma vez que não há qualquer noção de movimentação por parte do diretor para que possamos compreender o que se passa na tela ou mesmo sentirmos alguma adrenalina. Quando a tempestade definitivamente assume seu protagonismo no clímax, Cohen parte para um novo nível de absurdo que jamais se justifica e causa níveis de constrangimentos cavalares, em especial quando os personagens saem com arranhões mínimos no rosto mesmo estando debaixo da enorme tempestade.

Há, é claro, o inevitável potencial cômico de No Olho do Furacão diante de tanta suspensão da descrença, em especial quando os personagens se vêem pendurados por cabos e sendo puxados pelo furacão, balançando no ar, ou mesmo a calota do carro que se transforma num maravilhoso bumerangue assassino. Não é difícil comprar a ideia de um filme como No Olho do Furacão, mas a prepotência do conjunto da vez em se deixar emburrecer a tal ponto minam o potencial de entretenimento de mais um filhote de Twister.

No Olho do Furacão (The Hurricane Heist, EUA – 2018)
Direção: Rob Cohen
Roteiro: Scott Windhauser, Jeff Dixon, baseado em argumento de Anthony Fingleton e Carlos Davis
Elenco: Toby Kebbell, Maggie Grace, Ryan Kwanten, Ralph Ineson, Ben Cross
Duração: 103 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.