Crítica | No Tempo das Diligências

estrelas 4

Da cidade de Tonto, no interior do Arizona, em direção ao Novo México, um território Apache: este é o trajeto da diligência que irá marcar a história do western por vários motivos e que contribuiria imensamente para colocar o nome de John Ford entre um dos diretores mais respeitados do cinema.

No Tempo das Diligências é fruto do apogeu do faroeste. Ele surgiu ao final da fase chamada de “a primeira travessia do deserto”, iniciada na década de 30, e é o filme que praticamente finda essa fase, dando início à primeira reforma interna do gênero, a “renovação” empreendida entre 1940 e 1946. Havia então uma pequena resistência dos estúdios ao gênero na época – no caso de financiarem westerns “classe A”, já que filmes “B” do gênero ainda eram largamente produzidos –, uma resistência que cresceria nas duas décadas seguintes, levando o western ao declínio a partir dos anos 60.

Foi nesse pequeno “impasse de produção” que John Ford se viu quando comprou os direitos do conto Stage to Lordsburg (adaptação de Bola de Sebo, de Guy de Maupassant) escrito por Ernest Haycox, e resolveu filmá-lo. A história foi rejeitada de cara pelos produtores Darryl F. Zanuck e Jack Warner, mas ganhou as graças de David O. Selznick, que propôs Gary Cooper e Marlene Dietrich para os papéis principais. Ford já conhecia muito bem o modo de trabalhar de Selznick e percebeu que o produtor queria fazer algo bastante luxuoso, o que ia totalmente contra a simplicidade dos filmes do diretor. Aproveitando-se da agenda ocupada de Selznick com as filmagens de …E o Vento Levou, Ford resolveu buscar financiamento em outro lugar e foi então que chegou ao produtor independente Walter Wanger.

Wanger, que já tinha produzido alguns filmes notáveis como Aplausos, O Último Chá do General Yen, Delírios de Hollywood, Rainha Cristina, A História Começou à Noite e Vive-se Só Uma Vez, ofereceu a Ford um orçamento de 562 mil dólares para a produção de No Tempo das Diligências. O valor culminou com uma diminuição geral nos salários, um sacrifício a que o próprio Ford se submeteu para ter o filme realizado como ele queria.

Marcado por 22 anos de experiência na direção, John Ford vinha aprimorando um estilo cada vez mais rigoroso em seus filmes, não se furtando em apresentar grandes histórias mas mantendo a mesma simplicidade de seus primeiros longas, evitando floreios tanto estéticos quanto narrativos e apostando muitas fichas no desenvolvimento de seus personagens. Não é de se espantar que o diretor exigisse tanto dos roteiristas e utilizasse do texto para gerar impactos programados no decorrer da projeção. No caso de No Tempo das Diligências, observamos isso principalmente quando o personagem de John Wayne (que era amigo pessoal de Ford e já tinha trabalhado com ele em papéis menores nos filmes Minha Mãe, Quatro Filhos, Justiça do Amor, A Guarda Negra, Em Continência, Homens Sem Mulheres e Galanteador Audaz) aparece pela primeira vez, com um inesquecível distanciamento de foco para depois a câmera se aproximar quase indecisa do personagem, focando-o com perfeição.

Esse tratamento psicológico era um trunfo bem arquitetado por Ford em todos os seus longas metragens, apresentando em cada um deles elementos que marcariam o ponto sentimental ou cômico da obra (mesmo nos westerns) e que eventualmente nos traria símbolos espalhados por todo o filme, algo que poderia ser explorado em uma frase, como a oferta de ajuda de Lucy a Dallas, em uma das sequências finais; em algum objeto recorrente nas cenas, como o uísque de Doc Boon e as algemas de Ringo Kid; ou ainda elementos mitológicos do próprio western e da cultura popular, como a apresentação da “mão do homem morto” no pôquer de Luke Plummer, que estava prestes a morrer, ou a quase onipresença dos Apaches de Gerônimo.

Erguer um cenário claustrofóbico, como era a intenção do diretor, em um roteiro que trabalhasse elementos sociais de peso e fosse um western sobre segundas chances e enfrentamento de fantasmas pessoais não é algo fácil nem na teoria. E é aí que a escrupulosa direção de Ford entra em cena. O diretor explora o seu plano de fundo favorito (o Monument Valley, o Deserto de Mojave e outras paisagens) como um ponto fixo no espaço e vai desmembrando-o compassadamente, com as paradas da diligência, os pequenos conflitos em cada uma dessas paradas e a revelação clara da mudança de cada um dos passageiros, que enfrentam os Apaches na emocionante sequência do tiroteio no deserto.

O diretor de fotografia Bert Glennon captou com grande realismo cada uma das paisagens estabelecidas por Ford e conseguiu um bom efeito nas panorâmicas, especialmente quando contextualizadas a alguma ameaça, a exemplo do louvável jogo de “ida e volta” da diligência para os Apaches no topo de uma formação rochosa, observando a caravana. Esse jogo cênico é reforçado pela trilha sonora de Gerard Carbonara, que fugiu aos temas recorrentes do western clássico (ainda mais nessa fase do apogeu) e compôs uma peça de tom épico-dramático, com forte marcação de tempo em marcha destacando os metais em conjunto e nunca individualmente, usando dinamicamente as cordas para suavizar as quebras melódicas e dando espaço para cenas mais doces, como a do nascimento do bebê.  Por fim, o compositor ainda traz um interessante e sombrio tema para a batalha contra os índios, iniciando com forte percussão em crescendo e seguindo com um tema em tons menores que culmina com a repetição da linha quase militar do início da obra (aliás, a cavalaria tem um importante papel no filme, portanto, faz total sentido esse modelo de composição seguido por Carbonara).

O que incomoda em No Tempo das Diligências é a sua “segunda parte” (pós eventos ocorridos em Apache Wells), com a exploração mais familiar dada a alguns passageiros. Entendo essa abordagem como um desvio temático, principalmente de um tema que vinha sendo construído em outra linha até então – mesmo se levarmos em consideração as sugestões observadas dentro da diligência. O engraçado é que ainda assim, o afeiçoar-se de Ringo Kid por Dallas e o desfecho da obra não retira do filme o seu posto de grandeza, apenas lhe concede um tom diferente daquele usado em quase sua totalidade.

No Tempo das Diligências é um western essencial. John Ford emprega em sua realização a larga experiência adquirida no gênero ao longo dos anos e realiza um filme que marcaria para sempre não só a sua carreira – há uma incrível semelhança entre a vingança de Ringo Kid e a sequência do tiroteio final em O Homem Que Matou o Facínora – mas também a história do cinema.

No Tempo das Diligências (Stagecoach) – EUA, 1939
Direção: John Ford
Roteiro: Ernest Haycox, Dudley Nichols, Ben Hecht
Elenco: Claire Trevor, John Wayne, Andy Devine, John Carradine, Thomas Mitchell, Louise Platt, George Bancroft, Donald Meek, Berton Churchill, Tim Holt, Tom Tyler
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.