Crítica | Nocaute

estrelas 2,5

Diante de gigantes como Touro Indomável e Rocky é praticamente inevitável não tecermos comparações com os novos filmes sobre boxe, ou melhor, sobre boxeadores. É essencial, porém, que criemos uma distância dessas duas excepcionais obras quando estamos diante de Nocaute. Isto, é, se seu roteiro, ao menos ajudasse a tal. Na tentativa do roteirista Kurt Sutter (criador da série Sons of Anarchy) em trazer uma espécie de metafórica biografia de Eminem – que, inclusive fazia parte do projeto como personagem principal, antes de abandonar em favor de um foco em sua música – ele acaba caindo em velhos clichês e enfatizando exageradamente determinados aspectos da trama que poderiam ter sido trabalhados menos exaustivamente.

Não que o longa seja simplesmente um desperdício de nosso tempo. Seu texto é, sim, datado sob quase todos os aspectos, mas alguns elementos ainda o salvam, criando um vínculo quase físico com o espectador. Antes de entrarmos neles, contudo, vamos ao enredo.

Billy Hope (Jake Gyllenhaal) é um boxeador profissional no auge de sua carreira. Toda sua vida, porém, foge do controle quando sua esposa acaba morrendo em virtude de uma bala perdida. Com uma filha para cuidar, Hope simplesmente deixa sua vida de lado e tem a menina tirada de si pelo conselho tutelar e o dinheiro esgotado em dívidas. Diante de tal situação, o ex-campeão deve remodelar sua carreira a fim de retomar o pouco que lhe resta e, é claro, sua dignidade abalada pelas suas impensadas ações. O que vemos, portanto é a velha história de queda e retomada da glória, amplamente explorada desde as origens do cinema e que já traz um resultado tão óbvio que chega a ser inacreditável como roteiristas ainda consigam colocá-las em seus projetos. Nocaute, infelizmente, sequer parece tentar fugir do lugar comum e mesmo dentro disso acaba se saindo não tão bem.

O maior causador de tal empecilho dentro da qualidade da obra é a forma como a queda de Billy é abordada. Repetidas e repetidas sequências de sua situação miserável nos são mostradas, nos passando não a almejada sensação de um afogamento gradual e sim uma simples repetição do mesmo, que acaba nos cansando, prolongando a duração do filme até o seu limite e, por fim, tirando tempo de tela de outros pontos mais engajantes que tornariam mais fluida a (re)ascensão de Hope, que acaba se desenvolvendo de uma hora para a outra, como se o próprio autor houvesse se esquecido que tal ênfase era necessária para a estrutura narrativa do longa.

Entramos, portanto, nos aspectos que salvam a obra e a primeira dessas é a direção de Antoine Fuqua. Não me refiro ao filme inteiro, é claro, apenas às sequências de ação, nas quais ele evidentemente demonstra uma maior familiaridade – em virtude, é claro, de seus trabalhos anteriores, nenhuma obra prima, porém. As cenas nas quais vemos o boxe, de fato, são decupadas oscilando entre o close e os planos médios, Fuqua procura não mostrar apenas os golpes, as esquivas, mas o sangue escorrendo de cada lutador, ampliando a sensação de angústia que o filme procura produzir. Os momentos mais calmos seguem a mesma estrutura, mas o melodrama exagerado atua contra os planos mais fechados, criando um desconforto no espectador que apenas quebra sua imersão. A morte da esposa é um exemplo claro disso, um acontecimento prolongado onde, claramente, menos seria mais. Antoine somente falha miseravelmente no clímax, não deixando nada claro o que ocorre e necessitando de um narrador para nos explicar o que se passa em tela. Surpreendentemente a melhor luta é a penúltima do filme.

Dentro de erros e acertos temos um ponto, contudo, que somente apresenta qualidades. Refiro-me ao trabalho de Gyllenhaal, que do ser cadavérico de O Abutre se transforma em um verdadeiro lutador. O ator, que muito embora já tenha caído em alguns projetos indesejáveis, não cansa de surpreender e traz uma verdadeira profundidade a seu personagem. Hope, sobretudo, é humano e as mudanças apresentadas não são da água para o vinho, são sutis e funcionam graças à sua atuação. De um monstro incontrolável em algumas sequências ele passa para uma figura dócil e claramente abalada – mesmo antes de perder a esposa conseguimos enxergar seu abalo emocional, um homem que evidentemente estava à beira do precipício e precisava apenas do empurrão final. Está longe de ser melhor trabalho, afinal temos o maravilhoso O Homem Duplicado antes disso, mas Jake evidentemente salva o filme.

Nocaute, portanto acaba ficando à sombra de gigantes, herda muito do filme de Touro Indomável e de Rocky, e, por pouco, consegue se sustentar com suas próprias pernas. Sutter contou com ampla oportunidade e um elenco estelar para nos trazer algo inédito, ao invés disso caiu no velho “mais do mesmo”. Ainda assim, vale o entretenimento, por mais que alguns trechos nos façam querer utilizar o fast-forward. 

Nocaute (Southpaw – EUA, 2015)
Direção:
 Antoine Fuqua
Roteiro: Kurt Sutter
Elenco: Jake Gyllenhaal, Rachel McAdams, Oona Laurence, 50 Cent, Skylan Brooks, Naomie Harris
Duração: 124 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.