Crítica | Noé

estrelas 4

Darren Aronofsky, em seu primeiro filme de gigantesco orçamento e, portanto, menos controle artístico, consegue navegar muito bem as águas turbulentas e traiçoeiras que marcam os grandes blockbusters e acaba fazendo um misto eficiente entre filme autoral e filme de ação. Apesar de não ser a obra mais ousada do diretor ou mesmo a mais filosófica, ainda assim Noé consegue deslumbrar e fazer pensar, além de contar com atuações marcantes, mesmo que não por todo o tempo de projeção.

Mas o resumo acima não é algo que, para mim, foi fácil de alcançar. Saí do filme com sentimentos conflitantes que oscilavam entre deslumbramento e desconfiança. Com o tempo, porém, fui mastigando o que havia visto e a conclusão é que Noé, apesar de ser aquém do que poderia ter sido, é uma obra muito corajosa considerando-se o material fonte e perfeitamente dentro do que esperamos que saia da cabeça de Aronofsky, que não só dirigiu, mas como co-escreveu o roteiro junto com Ari Handel (publicado em forma de graphic novel em seu primeiro tratamento), produtor de Fonte da Vida (cujo argumento também escreveu), O Lutador e Cisne Negro.

E, realmente, o que marca Noé é a coragem, coragem essa não demonstrada pela Paramount em suas peças publicitárias e trailers. Vendido como um “épico bíblico com Russel Crowe”, o filme vai muito além dessa pecha. Aliás, muito além não. Vai na ferida, desconstruindo o mito e criando um Noé humano e falho em um mundo em que o nome “Deus” nunca é citado e que a mera existência da forma como imaginado por Aronofsky já é herético para quem for seguidor cego dos textos bíblicos.

Afinal de contas, o que são o Novo e Velho Testamentos que não instrumentos criadores de mitologia, não muito diferentes do que a linguagem falada, textos escritos  e desenhos em vasos criaram e expandiram as mitologias grega, romana, nórdica, chinesa e muitas e muitas outras? Se encararmos dessa forma e pensarmos que o dilúvio, de uma forma ou de outra, faz parte da mitologia de diversas religiões, a obra de Aronofsky pode muito bem ser encarada como sendo algo passado, por exemplo, na Terra Média.

Afinal, um dos aspectos mais inteligentes que Aronofsky faz ao longo de toda a projeção é inserir aspectos de conotação científica dentro do mito. Reparem, por exemplo, na Terra antediluviana vista do espaço. Os continentes estão todos juntos, antes da deriva continental, ainda formando Pangeia, o supercontinente que existia há 200 milhões de anos. Só aí Aronofsky destrói o reducionismo imbecilizante Criacionista, que forçou a Paramount, dentre outras coisas, a incluir um aviso no filme explicando a seu público, basicamente, que essa não era a “verdadeira história de Noé”. E isso sem contar na sequência de “criação do mundo” que suspeitamente, mas não sem querer, parece-se com reconstruções do Big Bang que vemos em documentários científicos como Cosmos.

Mas o diretor vai além. Invertam o cenário que descrevi acima e reparem no céu visto da Terra e notem como a abóboda celeste pulula de nebulosas, galáxias e estrelas coloridas, claramente dando a entender que há vida lá fora e que não estamos sozinhos. São pequenos detalhes como esses que logo de início retiram Noé da categoria de “filme bíblico” como tantos outros que vemos por aí, todos fazendo verdadeira reverência inconteste e evangelizadora ao material fonte. Aronofsky é crítico, fortemente crítico, aliás, e é muito bem sucedido em seu intento, ainda que seja visível a marca das rédeas impostas – compreensivelmente, devo dizer – pela produtora.

Mantendo a estrutura básica de três atos, o diretor investe um bom tempo em um prólogo para contar sobre Adão e Eva, o Paraíso, Cain e Abel e, finalmente, Set, o terceiro irmão de quem Noé e sua família descendem. O resto do mundo é tomado pelos filhos de Cain, destruidores, assassinos, ladrões e que tomam tudo o que podem do planeta.

E o que vemos é um cenário completamente devastado, literalmente pós-apocalíptico logo no começo da fita, com Noé vivendo da natureza – ou do que restou dela – e os Homens basicamente usando a técnica de “terra arrasada”. E a sensação que dá é que sim, estamos vendo ficção científica, sensação essa que é amplificada pela presença dos anjos caídos, chamados Guardiões, cuja aparência a Paramount fez das tripas coração para esconder em todo o material publicitário.

Esses anjos são retratados como monstros de pedra (seres de luz envoltos por um “pedaço do planeta” que tentaram defender à revelia do Criador) feios, mas ao mesmo tempo inusitadamente belos, com um trabalho espetacular de computação gráfica feito pela Industrial Light & Magic e de voz por parte de Nick Nolte, Mark Margolis e Kevin Durand. Citados apenas de passagem nos textos bíblicos – e nunca da forma como eles são aqui apresentados – os Guardiões têm papel relevante em Noé, não só como guias para a jornada do protagonista e sua família, mas, também, como instrumentos que permitem a construção mais crível da Arca. Nesse momento do filme, as sequências menos interessantes acontecem com Matusalém (Anthony Hopkins), avô de Noé, já que dificultam a progressão da fita e pouco acrescentam à ela, pois a interpretação dos sonhos de Noé – que deflagram a construção da Arca – é para lá de óbvia.

O antagonista é Tubal-Cain (Ray Winstone), que comanda uma turba de gente ensandecida, em um exagero de caracterizações que às vezes nos leva, inadvertidamente, a risadas nervosas, especialmente quando essa selvageria toda é contrastada com a relativa calma e tranquilidade de Noé (Russel Crowe), sua esposa Naameh (Jennifer Connelly), seus filhos Shem (Douglas Booth) e Ham (Logan Lerman) e sua filha adotiva Ila (Emma Watson). Apesar do contraste abissal parecer artificial, ele apenas contribui para a virada de mesa que Aronofsky prepara no segundo ato.

Quando esperamos tranquilidade depois do horror, o roteiro passa a abordar o fanatismo religioso em mais uma forte estocada do diretor na crença religiosa exacerbada. E, então, aquilo que considerávamos certo, passa a ser incerto, errado na verdade e passamos a relativizar tudo que vemos, o que justifica a abordagem tão polarizante do mundo antediluviano. Se Tubal-Cain tende a ser a encarnação do mal e Noé a do bem, essa noção se dissipa quando a Arca está tranquilamente boiando ao longo de meses a fio. O mundo está morto e só as criaturas inocentes sobreviveram. Qual são os papeis, então, de Noé e sua família?

É nesse ponto que Russel Crowe e Emma Watson, os dois personagens que mais recebem atenção do roteiro, realmente mostram a que vieram. Serei particularmente críptico aqui, para evitar spoilers, mas basta dizer que o conflito gerado pela fé cega e enfurecida de Noé, uma modificação de comportamento talvez brusca demais, é tenso o suficiente para sustentar a narrativa, ainda que exija um pouco demais da suspensão da descrença e que Aronofsky erre um pouco na montagem, tornando tudo muito corrido. Mas é fato que a resolução conta com uma das mais impressionantes atuações de Crowe em toda sua carreira.

A terceira parte, já em terra firme, nos dá um pouco de calma e tranquilidade, mas, em última análise, assim como as sequências com Matusalém, pouco desenvolvem a narrativa a um ponto realmente relevante. Há desfechos para o que o fundamentalismo de Noé gerou, para o conflito com Ham, mas o trabalho de Aronofsky se perde um pouco entre ser fiel ao material fonte e realmente partir para a “transgressão”. É nesse ponto que fica mais sensível o propalado cabresto do estúdio no trabalho do diretor, ainda que, para inglês ver, as declarações de ambos tenham tentado reduzir o problema.

Apesar de acabar de forma domada, o apuro visual de Aronofsky ao longo de toda a jornada, sua recusa em simplesmente contar uma “história bíblica”, suas inteligentes inserções críticas e o trabalho de atuação de Crowe e de Watson, além dos efeitos especiais de primeira linha e do inusitado de toda a experiência, tornam Noé um filme imperdível, que precisa ser experimentado no cinema. E, claro, como todo bom Aronofsky, ninguém sairá sem uma boa dose de assuntos relevantes para discutir.

Publicado originalmente em 3 de abril de 2014.

Noé (Noah) — EUA, 2014
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Darren Aronofsky, Ari Handel
Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Ray Winstone, Anthony Hopkins, Emma Watson, Logan Lerman, Douglas Booth, Nick Nolte, Mark Margolis, Kevin Durand, Leo McHugh Carroll, Marton Csokas
Duração: 138 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.