Crítica | Noite de Ano Novo

   

O filme Noite de Ano Novo incorre no mesmo erro das cantoras Madonna e Taylor Swift no campo do videoclipe em 2015: apostam na presença de diversos ícones da indústria e da mídia para alavancar o produto, mas o excesso de participações atrapalha, tornando o roteiro disperso, sem uma boa dinâmica interna e cheio de conflitos pouco convincentes ou resolvidos de maneira insatisfatória. Lançado nos cinemas em 09 de dezembro de 2001, a “comédia romântica dramática musical” tem até alguns momentos bonitinhos, mas que se revelam ordinários ao final do processo.

O roteiro gravita em torno de uma série de personagens na véspera do ano novo. Claire Morgan (Hilary Swank) surge como a organizadora da festa na Times Square e precisa lidar com os problemas técnicos envolvendo o evento. Paralelo a isso, através de uma pouco eficiente montagem alternada, somos apresentados ao cantor Jensen (Jon Bon Jovi) num badalado baile de máscaras. No local, ele reencontra uma antiga namorada da juventude (Katherine Heigl, bonitinha, mas em mais um personagem raso). Há Ingrid (Michelle Pfeiffer), uma mulher insegura que decide mudar a sua vida repentinamente e para isso, vai contar com Paul (Zac Efron), milagrosamente interessante de tão bonito e sexy em seus passos de dança bem coreografados e um punhado de piadas semidivertidas.

Entre os demais projetos de conflitos estão Randy (Asthon Kutcher) num problema com a pouco graciosa Elise (Lea Michele, a coisa mais chata da série Glee), a adolescente Hailey (Abigail Breslin) que está ansiosa pelo seu primeiro beijo e vive em discussão com a sua mãe Kate (Sarah Jessica Parker). No elenco ainda temos Sofia Vergara, Halle Berry, Josh Duhamel, Carla Cugino, Jessica Biel, James Belushi, Robert DeNiro, etc, todos atores eficientes, condenados a exercer papeis que só enfeitam (muito mal) a narrativa.

Um caso mais curioso da produção é a atriz Sarah Jessica Parker. Há uma cena belíssima próxima ao final do filme. Ela salta de um carro e é captada por um plano detalhe. O foco? Uma estonteante sandália. Mais publicitário impossível. Deixo claro que não há nada contra a influência da publicidade e da propaganda nos filmes, mas o que acontece neste caso é o processo de “eternização” da atriz como a maravilhosa personagem Carrie Bradshaw, da série Sex and The City. O perfil funcionou muito bem durante seis temporadas, mas a atriz parece não ter conseguido se desvencilhar da personagem, haja vista outros filmes que capitalizam neste insistente “jeito” consumista de gostar de sapatos e da moda. Uma pena, afinal, estamos diante de uma atriz talentosa tendo a sua capacidade de atuação limitada por conta dos ditames da mesma indústria que clama por juventude, e, por sua vez, expressões faciais adornadas por botóx e preenchimentos labiais.

Até então, Noite de Ano Novo foi o último filme do cineasta Garry Marshall, responsável por narrativas mais interessantes, como por exemplo, Uma Linda Mulher e Amigas para Sempre, mas também o “culpado” pelos fracassados Noiva em Fuga e Um Presente para Helen, bobagens que giram em torno de temáticas cheias de semelhanças e com poucas diferenças entre si. No final das contas, um diretor pouco inventivo e vendido para o “sistema” hollywoodiano.

Noite de Ano Novo é rodeado dos clichês desta época, os mesmos que recebemos através das redes sociais e aplicativos: perdoar, esquecer, amar, rezar, refletir, em suma, os verbos que complementam as sentenças dos cartões que recebemos e distribuímos. Adianto, não haveria problema algum se a coisa fosse contada com o mínimo de criatividade. Torna-se uma pessoa melhor é a cartilha básica para a evolução dos personagens nas aulas de Roteiro e Argumento, mas já que estamos diante de uma tradição narrativa milenar, com uma quantidade imensa de histórias contadas e recontadas, custa incrementar um pouco?

Com 118 minutos de duração, Noite de Ano Novo é um filme esteticamente bonito, com frames publicitários que pululam a cada instante, música pop balançante, mas naufraga em suas intenções. A produção é a prova cabal de que não adianta ter um elenco estrelado para enganar o público. E fez feio no campo da crítica especializada, pois foi indicado ao prêmio de “pior” nas seguintes categorias: Filme, Diretor, Roteiro, Atriz (Sarah Jessica Parker) e Elenco. Uma vergonha “daquelas”.

Noite de Ano Novo (New Year´s Eve) – Estados Unidos. 2011.
Direção: Garry Marshall.
Roteiro: Katherine Fugate.
Elenco: Katherine Heigl, Hilary Swank, Halle Berry, Hector Elizondo, Jon Bon Jovi, Josh Duhamel, Michelle Pfeiffer, Zac Efron,  Ashton Kutcher, Lea Michele, Abigail Breslin, Sarah Jessica Parker, Jessica Biel, Seth Meyers, Sarah Paulson, Robert De Niro, Sofia Vergara.
Duração: 118 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.