Crítica | Noite de Pânico

  • Filme quatro de sete da Maratona de Horror que relatei em detalhes aqui

Massacrado pela crítica em seu lançamento, Noite de Pânico é um daqueles filmes que, com o tempo, alcançou o status de cult, muito provavelmente por reunir, sob um mesmo telhado, os saudosos Jack Palance, Donald Pleasance e Martin Landau em uma história que pode, de forma rasa, ser apenas mais um slasher oitentista, mas que, se olharmos mais atentamente, carrega um subtexto bem mais interessante um pouquinho abaixo da superfície. Ou seja, além de oferecer as citadas celebridades hollywoodianas, a obra se preocupa em ir um pouco além, justificando sua perenidade.

Primeiro longa dirigido por Jack Sholder, que viria a se especializar no gênero com A Hora do Pesado 2 logo no ano seguinte, Noite de Pânico lida com quatro psicopatas de um sanatório que, durante um blecaute, aterrorizam o Dr. Dan Potter (Dwight Schultz), que eles acham que matou o especialista que os tratava anteriormente, além de sua família, cercando sua casa convenientemente localizada em local ermo. Donald Pleasance faz o Dr. Leo Bain, que comanda o sanatório e faz uso de técnicas mais humanas para tratar os prisioneiros que, porém, claramente não respondem ao tratamento de forma satisfatório, não perdendo a primeira oportunidade para se juntarem e exterminarem aqueles que se põem em seu caminho.

O simples fato de o protagonista ser perseguido por psicopatas, sendo que dois deles vividos por Palance e Landau, já dá o tom assustador da fita, o que é ainda amplificado pela presença do grandalhão Ronald ‘Fatty’ Elster, vivido por Erland van Lidth. O roteiro, porém, não trata seus personagens como assassinos ensandecidos no estilo Michael Myers ou Jason Vorhees. Há uma bem-vinda tentativa de se humanizar cada um deles, abrindo espaço para performances que, se cambam um pouco para o histrionismo, pelo menos mostrar um grau maior de cuidado e profundidade por parte do elenco, com algumas sequências perturbadoras não por sua violência gráfica, mas pela tensão e horror que as expressões faciais de Jack Palance, por exemplo, causam no espectador.

Apesar da curta duração, o roteiro escrito por Sholder demora a fazer a ação decolar, demorando-se talvez demasiadamente no estabelecimento de toda a situação: a chegada do Dr. Potter, a demonstração do hospício e do tratamento do Dr. Bain, a apresentação dos psicopatas e da família de Potter e assim por diante. Desnecessariamente, perde-se muito tempo nos preparativos e, quando o blecaute finalmente ocorre, há relativamente pouco para que o suspense seja explorado, ainda que Sholder seja feliz ao lidar com algumas sequências muito bem construídas, como as que envolvem a babá dos Potter ou as que ocorrem na cozinha da casa, mais já para o final. São momentos de brilho perto de uma grande quantidade de outros que é burocrática e padrão, sem qualquer tentativa de se sair do lugar-comum dos slasher típicos da época.

É também curioso como a direção de Sholder, na tentativa de elevar o suspense, perde a oportunidade de nos mostrar os psicopatas atuando em conjunto no cerco à casa dos Potter, deixando de colocar Palance e Landau nas mesmas sequências nesse processo. Teria sido particularmente sensacional ver os dois veteranos juntos no clímax, o que nem de longe acontece.

A estrutura fragmentada de Noite de Pânico foi, provavelmente, uma das razões que fizeram os críticos da época quase que unanimemente detestar o filme, mas elas, mesmo auxiliando na sensação de falta de unicidade narrativa durante os dois terços iniciais, permitem a exploração da psicopatia para além da mera fórmula “cara de maluco + faca = banho de sangue”. Há uma genuína preocupação em ir além do estereótipo dos slasher, com o roteiro sempre procurando explicar motivações de um lado a outro, sem rotulá-los como isso ou aquilo. Igualmente, não há, aqui, seres invencíveis ou perseguições impossíveis, com o perseguidor andando alcançando as futuras vítimas em fuga correndo. Há uma forte humanização de cada um, inclusive no lado dos Potter que agem sem qualquer planejamento brilhante ou heroísmos fora de lugar. Trata-se de uma família desesperada para sobreviver pela noite mais assustadora de suas vidas.

Noite de Pânico é um clássico de sua própria maneira que merece lugar de destaque entre os filmes do subgênero de sua época. Seja pelo elenco estelar, seja pela história que vai um pouco além do comum ou pelo efeito do conjunto, o filme com certeza tem seu poder para deixar plateias inteiras roendo as unhas.

Noite de Pânico (Alone in the Dark, EUA – 1982)
Direção: Jack Sholder
Roteiro: Jack Sholder, Robert Shaye, Michael Harrpster
Elenco: Jack Palance, Donald Pleasence, Martin Landau, Dwight Schultz, Erland van Lidth, Deborah Hedwall, Lee Taylor-Allan, Phillip Clark, Elizabeth Ward, Brent Jennings, Gordon Watkins, Carol Levy, Keith Reddin
Duração: 92 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.