Crítica | Noite e Neblina

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Tirando o seu título da diretiva nazista empreendida em 7 de dezembro de 1941, a chamada Nacht und Nebel — que definia, de maneira simples, o aprisionamento ou assassinato de “pessoas da resistência”, ou dos que eram considerados “colaboradores da resistência” dos lugares invadidos –, Noite e Neblina é um documentário duro, cruel, com imagens dos Campos de Concentração de Auschwitz e Majdanek (Polônia ocupada), em diferentes tempos e com diferentes abordagens de reflexão para o espectador.

A obra foi feita em colaboração com Jean Cayrol, que escreveu o roteiro. Cayrol foi um sobrevivente do campo de Mauthausen-Gusen (Áustria ocupada) e entrou no projeto como uma forma de garantir que Alain Resnais assinasse o contrato para dirigir o filme, pois o diretor havia recusado a primeira oferta que lhe foi feita, alegando que não tinha capacidade alguma de filmar algo relacionado ao Holocausto. Sem a presença de alguém que esteve em um Campo de Concentração, disse o cineasta, qualquer tipo de colocação que fizesse seria apenas uma apresentação “espetacular” de um acontecimento que, em seu ponto de vista, precisaria ser mostrado com muito mais cuidado e significado nas telas.

A estrutura do roteiro mais próxima daquela que vemos no filme — passando por adições e retiradas aqui e ali — tinha doze partes e pretendia mostrar, em pequenos episódios, a História em torno desses centros de trabalho forçado, experimentos “científicos” e local de punição para “inimigos do regime”. Imagens coloridas se misturam com imagens de época, de filmes franceses, belgas, americanos e soviéticos, gravados pelos soldados no momento da libertação ou clandestinamente, por infiltrados, ainda durante o regime. Das imagens dos campos desertos, em 1956, em uma mistura cheia de amargo cinismo, onde o narrador (Michel Bouquet) lê uma comparação dessas construções com a indústria hoteleira, passamos para uma chamada “história algébrica” do Nazismo, e daí para a visita de Himmler a Dachau (momento onde o texto e as imagens começam a ser contrapostas aos horrores que ali se faziam), para os vagões e enfim para a chegada dos judeus, ciganos, homossexuais, inimigos do regime e outros grupos sociais, políticos e étnicos aos Campos.

É importante destacar que em nenhum momento a narração e o roteiro dizem o que o espectador deve pensar a respeito. A apresentação é assumidamente parcial — o que requer maturidade do público para dela retirar o que deve pensar — e claramente critica ao processo de desumanização, questionando como uma nação como a Alemanha chegou ao ponto de institucionalizar uma máquina de extermínio aliada ao trabalho (O TRABALHO LIBERTA!) e que servisse, em diversos aspectos, a um regime político ancorado na máxima de salvação do povo alemão. Do contexto histórico, o filme vai fechando o recorte, mostrando a colocação dos prisioneiros em quarentena, sua vida cotidiana, a proliferação dos campos, o que ganhavam com aquilo e as técnicas de extermínio, um dos momentos mais difíceis da obra.

De imediato, percebemos uma grande preocupação do diretor em relembrar o acontecimento a partir de suas raízes e nos trazer de volta para a realidade, onde prados verdejantes com construções em decadência foram, um dia, palco de um dos grandes horrores da humanidade. Na reta final, com cenas da evacuação dos Campos e daquilo que os aliados lá encontraram, chegamos a algo que era uma das grandes preocupações de Resnais naquele ponto de sua carreira: a memória do que é importante, o que se pode aprender com a História, não necessariamente como um modelo de evitar o fato, mas de curar o mesmo tipo de ferida que gerou aquelas vozes que clamaram e os milhões que assentiram e apoiaram governantes e políticas de Estado messiânicas, levando a Alemanha e uma boa parte da Europa para aquele abismo.

Acima de qualquer coisa, Noite e Neblina é um filme para nos mostrar que aquilo que precedeu o Holocausto pode estar escondido em práticas e comportamentos de nosso momento político atual. A paz que alguns lugares vivem hoje pode fazer muitos se esquecerem de como ideias de segregação e superioridade são perigosas para a humanidade, e que não se deve flertar com elas, pois rapidamente farão apagar a memória de como essa grande máquina de extermínio começou a funcionar. E principalmente, como a “normalidade”, em seus problemas e felicidades cotidianas, tende a se esquecer de coisas que jamais deveriam se esquecidas. Contundente e necessário, Noite e Neblina é um documentário-lembrete. Uma viagem histórica e analítica por um período cujo espectro, queiramos ou não admitir, continua a nos rondar.

Noite e Neblina (Nuit et brouillard) — França, 1956
Direção: Alain Resnais
Roteiro: Jean Cayrol
Narração: Michel Bouquet
Duração: 32 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.