Crítica | Ninguém Deseja a Noite

estrelas 4

A natureza exploratória do ser humano, que pode ser traçada desde a origem da espécie, é uma das causas da prosperidade da raça humana, o nomadismo e sua capacidade de adaptação a diferentes ambientes, independentemente das diferentes temperaturas que habita ao redor do mundo. Noite Sem Fim nos leva a uma jornada, passada no início do século XX, uma aventura passada no Polo Norte, cujo foco, porém, não é a exploração em si e sim a forma como uma pessoa pode evoluir quando entra em contato com diferentes culturas, largando sua mentalidade fechada para trás.

Baseado em uma história real, o longa-metragem acompanha Josephine Peary (Juliette Binoche), que viaja ao polo norte em busca de seu marido, Robert Peary, partira em uma expedição a fim de chegar onde nenhum outro homem jamais esteve. Integrante da alta sociedade, a protagonista  conta com uma visão tipicamente afunilada da sociedade, enxergando todos com menos condição que ela como inferiores e ouvindo somente a si mesma. É uma pessoa extremamente egoísta, de tal forma que chega a irritar o espectador. Tudo começa a mudar, contudo, quando sua viagem passa por crescentes complicações, fugindo totalmente ao controle da mulher. Ela é forçada, então, a se adaptar e, enfim, a aprender.

Passamos a primeira metade de Noite Sem Fim odiando profundamente Josephine. A maneira como fala e age, colocando todos, inclusive ela própria, em perigo nos faz torcer para que o gelo tome conta de sua vida. De fato, muitos perecem simplesmente para que ela possa cumprir a vontade egoísta de rever seu marido, já que ele, provavelmente, não retornaria com vida dessa sua ousada viagem. O roteiro de Miguel Barros acerta na forma como constrói a personagem principal, ela reflete perfeitamente o imperialismo que marcou o final do século XIX e início do XX, ao passo que ela se vê como superior aos esquimós, locais da região.

Juliette Binoche, como de costume, não deixa a desejar e encarna sua personagem a tal ponto que esquecemos que há uma atriz por trás dela – é o típico personagem que amamos odiar. Felizmente, contudo, essa raiva vai se deixando, conforme ela passa mais tempo com Allaka (Rinko Kikuchi), uma esquimó. Sentimos nitidamente a abertura de sua mente, o aprendizado e o abandono de preconceitos e outras concepções que a definiam anteriormente. Chega a ser impressionante como a narrativa consegue nos mostrar isso com tamanha fluidez, tornando toda a metamorfose bastante orgânica.

A direção de Isabel Coixet ainda sabe trabalhar com o ambiente à sua volta. A diretora opta por planos mais fechados, evidenciando o foco no psicológico da protagonista. Poucos são os planos mais abertos e eles estão presentes a fim de mostrar o vazio daquele lugar, quase que um testamento para a inutilidade daquela expedição, que visa apenas chegar em um lugar desolado e desabitado, apenas para colocar uma bandeira do país. As vidas humanas, dessa forma, ganham mais valor e suas perdas criam um desconforto evidente em nós, que enxergamos tudo aquilo como um preciosismo dos países imperialistas.

A montagem, infelizmente, deixa a desejar quando intercala o passado e o presente sem qualquer justificativa narrativa. É criada uma desnecessária confusão no espectador, que acaba gerando uma quebra de imersão, visto que não entendemos claramente a intenção daquelas inserções na projeção.

Dito isso, Noite Sem Fim ainda nos oferece uma interessante história sobre o aprendizado e abandono dos preconceitos. É um alerta para que todos sejamos capazes de manter uma mente aberta, dispostos a escutar aqueles com mais experiência que nós e, mais importante, é uma obra que evidencia o valor da vida sobre todo o resto. Se sacrificar por um nobre objetivo é uma coisa, por algo que de nada irá melhorar a vida das outras pessoas é outra completamente diferente.

Noite Sem Fim (Nadie Quiere la Noche) – Espanha/ França/ Bulgária, 2015
Direção:
 Isabel Coixet
Roteiro: Miguel Barros
Elenco: Juliette Binoche, Rinko Kikuchi, Gabriel Byrne, Matt Salinger,  Velizar Binev, Ben Temple
Duração: 104 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.