Crítica | Nos Bastidores da Notícia

Apesar da banalização da mídia contemporânea, há algumas regras básicas para a criação de qualquer notícia. Os manuais pedem que o autor comece com a manchete, seguida de uma abertura com frase de impacto. Logo mais, o fornecimento de detalhes bem importantes. Para ficar adequado, adicione os fatos principais (primários e secundários). Concluir sem se esquecer de revisar e estar bem atento às fontes é outra questão de grande importância.  Em Nos Bastidores da Notícia, drama bem humorado escrito e dirigido por James L. Brooks, aprendemos estas e outras lições sobre o “fazer televisivo”, numa amostra do imaginário que o cinema construiu no que diz respeito ao profissional de jornalismo.

Indicada ao Oscar em diversas categorias, Nos Bastidores da Notícia é uma narrativa sobre Jane Craig (Holly Hunter), uma produtora de televisão carregada de problemas emocionais. Ela divide a sua rotina com o inseguro Aaron Altman (Albert Brooks) e galanteador Tom Grunnick (William Hurt). Constantemente no limite dos prazos e outras cobranças de um ambiente de trabalho exigente, o trio luta para manter a sanidade e exercer as suas funções adequadamente.

O funcionamento de um canal de televisão é o mote central. O que é verdade e o que não é? Como lidar? Numa era de compartilhamento irresponsável de falácias em redes sociais, Nos Bastidores da Notícia é um filme necessário. Talvez não o filme em si, por conta das suas falhas narrativas, mas a sua discussão. O que temos frequentemente no campo das notícias é a junção de informação com entretenimento, problemática responsável por criar ruídos terríveis. Na conjuntura de repasse de informações em um mundo globalizado agitado, os profissionais de televisão, tendo em vista a sobrevivência de seus cargos, estão mais preocupados com esta rentável fusão. Ao tratar do embaralhar fronteiras, o neologismo se refere aos profissionais que criam programas que apelam ao popular, dando ênfase aos índices de criminalidade, adornado por elementos trágicos e muitas vezes, grotescos. A ascensão de celebridades também é outra constante, num terreno discursivo onde o sangue, a violência e o humor são poderosas moedas de troca.

Além da radiografia dos bastidores de um telejornal, o filme levanta outra questão relevante para profissionais de qualquer área: a importância do trabalho em equipe. Dinamismo, respeito e outros cuidados são fundamentais para ações eficazes, tais como a transmissão de uma notícia, algo que o filme traz como centro nervoso da história que nos é contada. Comprometimento, comunicação, humildade para saber ouvir e compreender a hora certa de intervir, equilíbrio para assumir lideranças e habilidade no entendimento das engrenagens que subsidiam o sistema. Eis alguns dos comandos que tornam o trabalho em equipe funcional. Nos bastidores da transmissão de notícias de Jane, Aaron e Tom, estas orientações nem sempre estão ordenadas.

Ética é outra discussão que o filme suscita. Em reunião da UNESCO em 1983, profissionais de diversas confederações aprovaram uma série de princípios que regem a ética no jornalismo. Tal código proclama que o dever supremo de todo jornalista é servir a causa do direito à informação oriunda de fontes verídicas e autênticas, num trabalho erguido em bases honestas e exposição com responsabilidade dos fatos. Em vigor desde 1987, ano de lançamento do filme, as regras não são seguidas por todos os personagens em Nos Bastidores da Notícia, em especial, Tom Grunnick, num trecho que parece ter sido criado para pensar o mundo em 2017, em suas discussões sobre cultura do estupro. Na reportagem que o torna popular, há cortes entre a declaração de uma entrevistada e a encenação do jornalista, em lágrimas com o relato graças ao ótimo poder do editor da matéria. Esse é apenas um dos elementos críticos propostos pelo filme, uma comédia dramática que discute temas bem relevantes, mas falha no quesito narrativa, pois perde o ritmo em boa parte de suas cenas mais importantes.

Nos Bastidores da Notícia também permite a análise dos indivíduos acometidos pelo control freak, expressão que designa pessoas como Jane Craig, necessitadas de controle em tudo, perfeccionistas, exageradas nas cobranças em relação aos outros e a si mesmas. Em Mulheres às Avessas, elucidativo estudo da psicóloga Ligia Guerra, a especialista explica que tais pessoas são muito inseguras, sobrecarregadas e vitimadas pelo estresse constante, amedrontadas pelo fantasma da solidão e da dificuldade financeira mediante a possibilidade de ficarem desempregadas. Em suma, um retrato do profissional contemporâneo, mergulhado em um mundo de crises sistêmicas e descrença nas instituições regentes.

Interessante, bem humorada, mas talvez longa demais, a produção de 132 minutos flerta com temas importantes da área e tece críticas ácidas sobre aos obcecados pelo sucesso profissional e também aos discursos superficiais da televisão numa era prévia ao advento massificação da cibercultura. Apesar de não ter sido refilmada, há vários filmes que seguem o seu estilo, tratando de abordagens atuais dentro do mesmo esquema narrativo, isto é, um roteiro engendrado pelos estereótipos mais fáceis de acessar: o duelo entre um jornalista romântico e mantenedor do discurso de porta-voz da opinião pública e o inescrupuloso que recorre aos meios mais escusos que se possa imaginar para conseguir tornar a notícia uma mercadoria. Por ser um estereótipo não significa que é algo ruim, afinal, tais estruturas circulam de forma viva e sorrateira em nosso jornalismo diário, basta assistir aos programas de notícias do horário do almoço ou aos informes políticos de canais hegemônicos brasileiros.

Nos Bastidores da Notícia (Broadcast News) — EUA, 1987
Direção: James L. Brooks
Roteiro: James L. Brooks
Elenco: Albert Brooks, Holly Hunter, Jack Nicholson, Joan Cusack, John Cusack, William Hurt, Robert Prosky, Stephen Mendillo, Frank Doubleday
Duração: 124 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.