Crítica | Nós Somos as Melhores!

estrelas 4,5

O diretor sueco Lukas Moodyson retorna à temática de seu longa-metragem de estreia, Amigas de Colégio, em uma bela e leve história de amizade, amadurecimento e rebeldia. Nós Somos as Melhores! é uma pequena pérola em homenagem ao punk rock, à década de 80, à adolescência rebelde e à busca por identidade.

Focando em Bobo (Mira Barkhammar) e Klara (Mira Grosin), duas meninas de 13 anos em Estocolmo que detestam seus respectivos pais – sem que haja muito mais por trás disso, apenas aquela “vergonha” da família comum nessa idade – são isoladas na escola em razão de suas aparências (Bobo tem cabelo curto que ela mesmo cortou e Klara tem um moicano, ambas vestindo-se de qualquer jeito) e literalmente vivem juntas escutando punk rock em seus aparelhos Walkman e tentando viver no estilo contracultura sem exatamente saber o que é isso. Um dia, em um centro comunitário onde jovens têm várias atividades a seu dispor, as duas, por pura implicância, resolvem formar uma banda. Bobo vai para a bateria e Klara para o baixo, mas ambas jamais tocaram esses instrumentos antes. A empolgação das meninas, apesar de não terem qualquer talento musical, é contagiante.

Moodysson encanta o espectador com uma câmera quase que constantemente em plano médio, deixando as meninas em evidência, com as pequenas atrizes atuando naturalmente, como se estivessem em um documentário. O show é delas e o diretor sabe disso. E, com uma montagem dinâmica de Michal Leszczylowski, com cortes rápidos, mas nunca confusos, que quase lembram os jump cuts de Godard em Acossado, o filme ganha emoção e ritmo. Essa montagem elétrica, mas precisa, não só emula a música punk (sueca) que pontilha a trilha diegética da obra, como também é uma espécie de resumo visual do que provavelmente se passa na cabeça dessas jovens que tentam descobrir quem são, crescendo no processo, mas nunca deixando de lado a amizade fraterna.

Quando Hedvig (Liv LeMoyne), menina um ano mais velha, é arregimentada por Bobo e Klara para sua banda sem nome, o tema de amizade ganha contornos ainda mais interessantes. É que Bobo e Klara já nos são apresentadas como amigas e aceitamos esse fato. Mas, depois que as duas vêem Hedvig tocando violão clássico (e levando vaias!) no show de talentos da escola, elas abordam a tímida garota que almoça sozinha todos os dias na cantina e, em um turbilhão cativante de admiração e conexão imediata, uma trinca de “desajustadas” é formada.

E, tipicamente como fazem jovens dessa idade, a conversa é franca, com a radical Klara enfrentando a delicada Hedvig em relação à crença da segunda em Deus e toda sua criação católica. Mas não é um discurso de intolerância, mas sim mais de curiosidade, de querer entender como é que “alguém pode acreditar em algo que não se pode ver”. E as respostas que surgem daí são naturais, interessantes e questionadoras, sem tentativa de doutrinação. Mesmo quando, em conversa entre a mãe de Hedvig e as duas meninas, depois de, digamos, um incidente capilar muito divertido, o discurso parece descambar para um lado perigoso, o roteiro do próprio diretor, baseado em quadrinhos de sua esposa Coco, logo corrige o rumo de maneira simples, inteligente e que faz pensar.

Com uma fotografia quase naturalista de Ulf Brantås, que vem fazendo dupla com o diretor desde o começo de sua carreira, as meninas são vistas por meio de um olhar franco, sem filtros e sem efeitos, de maneira a ecoar a política de “sem maquiagem” que parece regrar a vida das três jovens, mas por razões diferentes, uma pela religião e as duas roqueiras pelo fato de simplesmente “serem do contra”. A direção de arte também ajuda na recriação do sabor dos anos 80, com elementos bem inseridos nos cenários e com tomadas externas que pouco nos localizam temporalmente, de maneira que não se gastasse com props maiores.

O resultado é atemporal e delicioso. Uma verdadeira jornada de crescimento em um feel good movie que aquecerá corações e divertirá representantes de todas as idades e de todos os gostos musicais.

Nós Somos as Melhores! (Vi är bäst!, Suécia/Dinamarca – 2013)
Direção: Lukas Moodysson
Roteiro: Lukas Moodysson (baseado em quadrinhos de Coco Moodysson)
Elenco: Mira Barkhammar, Mira Grosin, Liv LeMoyne, Johan Liljemark, Mattias Wiberg, Jonathan Salomonsson, Alvin Strollo, Anna Rydgren, Peter Eriksson, Charlie Falk, Lena Carlsson, David Dencik, Ann-Sofie Rase
Duração: 102 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.