Crítica | Noturno – Trilogia da Escuridão: Vol. 1

estrelas 3,5

Como são as coisas, não é mesmo? Guillermo del Toro teve uma ideia para uma série de televisão sobre vampiros (mais uma!), mas não conseguiu quem a comprasse. O resultado disso foi a confecção, junto com Chuck Hogan, escritor americano, de uma trilogia de livros batizada de The Strain Trilogy no original (Trilogia da Escuridão, no Brasil). O primeiro livro foi lançado em 2009, seguido dos volumes seguintes em 2010 e 2011. E, com o sucesso obtido, del Toro finalmente conseguiu um comprador para levar seu projeto para a televisão pela FX.

A presente crítica lida, apenas, com Noturno (The Strain), o primeiro livro. E é uma grande homenagem ao pai do vampiros, Drácula, de Bram Stoker, com enorme foco em um misterioso voo que chega no aeroporto JFK, de Nova Iorque e que não se comunica com a torre. Isolada, a aeronave é logo investigada e todos os seus tripulantes e passageiros são descobertos mortos, com a exceção de quatro. Quem lidera a investigação, que é automaticamente ligada com algum tipo de infecção, é o Dr. Ephraim “Eph” Goodweather, do Centro de Controle de Doenças. O mistério perdura e é bem construído, ainda que, estruturalmente, haja furos lógicos que não são abordados satisfatoriamente. Mesmo assim, a correlação imediata com a chegada do navio Demeter à Inglaterra, que carrega o caixão de Drácula, é o objetivo de del Toro e Hogan e nisso eles conseguem ser muito bem sucedidos, levando-nos a incrementalmente temer os capítulos seguintes.

Mas uma história de vampiros precisa ter o seu Van Helsing, não é mesmo? Especialmente uma tão próxima do material original. E, em Noturno, Van Helsing é Abraham Setrakian, sobrevivente do Holocausto que passou a vida inteira estudando e caçando vampiros e que é o único que percebe que há algo mais por detrás do misterioso avião fantasma. Logo, Setrakian e Eph se unem em uma batalha com poucas chances de sobrevivência e que, nesse primeiro volume, ainda não tem o escopo que a saga alcançaria nos seguintes. Ninguém acredita nos dois, por mais que eventos estranhos e preocupantes passem a ocorrer por toda Manhattan e por mais que eles tentem avisar do problema. Mas é muito mais fácil achar que tudo é histeria coletiva do que acreditar em vampiros, lógico. No time dos “mocinhos”, há, também, Vasiliy Fet, um exterminador de ratos de ascendência ucraniana que fornece o devido alívio cômico e a proverbial “trogloditagem” para a história, sendo um meio termo entre o enigmático Setrakian e o inocente Eph.

E os autores fazem um grande esforço para construir vampiros que, se por um lado respeitam a mitologia (nada de seres que brilham na luz do sol!), são, dentro do possível, galgados na ciência. O vampirismo é, aqui, uma doença, lembrando, de certa forma, o tratamento que Kathryn Bigelow deu ao tema em Quando Chega a Escuridão. Tudo, desde a vontade de sugar sangue até a aversão ao sol é explicado de maneira pseudo-científica em Noturno, mesmo que, para isso, tenhamos que aceitar alguns exageros. O Drácula dessa história é uma figura asquerosa, monstruosa mesmo, chamada, apenas de Mestre. Ele é o catalisador dos eventos no avião e por toda a cidade, recebendo ajuda dos quatro sobreviventes e ainda de outro importante personagem que não revelarei aqui.

A narrativa flui bem e engaja o leitor, mesmo que a trama, por vezes, se arraste demais e acabe se espalhando para diversos eventos menores isolados que são abordados com vagarosidade pelos autores, deixando evidente que um passo mais acelerado teria beneficiado o resultado do trabalho. Além disso, incomodei-me um pouco com o exagero na monstruosidade dos vampiros. Entendi o objetivo dos dois: eles queriam seres diferentes do que estamos acostumados a ver, imaginando seres da noite, hediondos em aparência, Mas Hogan e del Toro acabam se aproximando perigosamente do “monstro genérico”, por mais que, repito, eles tenham tentado manter todas as principais características do Conde Drácula de Bram Stoker.

Acabando com uma longa sequência de ação que efetivamente satisfaz ao mesmo tempo que deixa o gosto de “quero mais”, Noturno é uma leitura rápida, divertida, mas não é tão assustadora assim. De toda forma, é um alívio ver vampiros sendo tratados com respeito mais uma vez. Resta saber como eles ficarão na telinha.

*Li o livro no original em inglês, pelo que não posso comentar sobre a qualidade da tradução feita por Paulo Reis para a Editora Rocco, no Brasil.

Noturno (The Strain, EUA – junho de 2009)
Autores: Chuck Hogan, Guillhermo del Toro
Editora (nos EUA): HarperCollins Publishers
Editora (no Brasil): Editora Rocco
Tradução (no Brasil): Paulo Reis
Páginas: 464 (no Brasil)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.