Crítica | Nova York Sitiada

estrelas 3

No ano de seu lançamento, Nova York Sitiada não chamou a atenção nem do público nem da crítica, ficando na casa dos cem milhões em bilheteria e acumulando análises mistas. Contudo, o filme voltou à tona após os diversos ataques terroristas cometidos no século XXI, tema que o longa aborda profundamente.

A obra mostra o agente oficial do FBI Anthony Hubbard (Denzel Washington) e a oficial da CIA Elise Kraft (Annette Bening) caçando um perigoso grupo de terroristas que espalham bombas em diversos lugares de Nova York, levando a cidade ao caos e levando a população a pedir intervenção militar.

O desenvolvimento da narrativa pode ser considerado, no mínimo, atrapalhado. Apesar do bom começo, quando a temática do filme é apresentada através de imagens de arquivo, o longa se perde com o decorrer do tempo, não ficando clara a intenção de alguns personagens secundários. Esse amontoado de dúvidas poderia ser benéfico caso uma aura de mistério fosse construída na obra, mas não é o caso aqui, o que vemos é uma trama policial cheia de furos. As motivações do General Devereaux, por exemplo, nunca são explícitas, não é claro se ele pretendia algo mais em Nova York além de capturar os terroristas ou se apenas estava cumprindo o seu trabalho, aliás, há uma cena envolvendo o personagem e um terrorista árabe logo no início que jamais é justificada. Além disso, a oficial da CIA Elise Kraft, que no primeiro ato parecia ser cheia de dualidades, agredindo uma pessoa durante um interrogatório, de repente passa a tomar atitudes corretas sem nenhuma explicação.

A linha temporal do filme também não é bem estabelecida, vemos em uma cena, por exemplo, um membro da presidência dos EUA dizendo para Devereaux que o presidente não aceitará a intervenção militar e logo em seguida os militares tomam conta das ruas do Brooklyn, tornando a narrativa confusa. A obra ainda sugere certa rivalidade entre o coronel e Kraft que jamais é explorada a fundo, parecendo algo jogado no longa. Para piorar, a investigação não é pontuada corretamente e quando descobrimos o último terrorista por trás dos ataques a descoberta não é impactante como deveria, aliás, nessa cena há um péssimo diálogo expositivo onde um personagem é obrigado a dizer “então você é a última célula”, para que o público consiga entender o impacto do momento, uma vez que, não houve uma preparação anterior para o clímax.

Essas oscilações no longa são sentidas também na direção de Edward Zwick. Apesar de belos planos gerais extremos e planos de ambientação por Nova York, não há nenhuma intenção em criar uma lógica visual mais ousada, portanto, o que vemos são vários close-ups para focar os diálogos. Para piorar, a edição falha bruscamente as vezes, sendo claros alguns cortes no meio de cenas chave para a história que tiram toda a dramaticidade do momento. Além disso, a obra jamais consegue encontrar um ritmo constante, oscilando entre instantes monótonos e frenéticos.

No que diz respeito ao elenco, Denzel Washington e Annette Bening demonstram uma química interessante entre os dois personagens, sempre deixando no ar certa tensão sexual entre os dois, além de diferenciarem a ideologia de cada um, uma vez que, enquanto Hubbard é correto e segue a lei, Kraft às vezes opta por ações contestáveis para conseguir o que quer. Já Bruce Willis é o oposto dos dois atores, estando totalmente no automático aqui.

Diante de tantas críticas, há que se dizer que o verdadeiro valor em Nova York Sitiada está em sua abordagem sobre o terrorismo. O longa mostra-se extremamente atual, especialmente após os atentados do 11 de setembro, escapando do viés ufanista e fazendo duras críticas ao próprio país e sua neura antiterrorista. Além disso, a obra é corajosa o suficiente para destacar o terror cometido pelos próprios estadunidenses.

Há uma inteligente crítica aos EUA trazendo para a realidade americana todas as atrocidades cometidas pela política externa do país. Portanto, a intervenção militar na cidade de Nova York nada mais é do que uma excelente alegoria das invasões que eles mesmos fazem em outras nações. O roteiro ainda é hábil em simbolizar o imperialismo norte-americano através da imagem do coronel Devereaux, justificando todas as suas violações de direitos humanos, como, tortura, prisão sem julgamento e até mesmo assassinato, sob o pretexto de que aquilo é feito para defender sua pátria, deixando explícito como a arma estadunidense para combater o terrorismo é praticar ainda mais terrorismo.

A obra destaca também a perseguição que os islâmicos sofrem neste período, mostrando-nos sendo presos simplesmente por seguirem sua religião (qualquer semelhança com as ideias de Trump é mera coincidência). O longa choca ainda mais quando exibe os árabes sendo enviados para verdadeiros campos de concentração sem motivo algum, apenas por sua etnia, ressaltando todos os abusos cometidos pelos EUA contra cidadãos do mundo. Para quem achar exagerada a representação das ações dos militares no filme, leia um pouco sobre a Prisão de Guantánamo e veja que isso não é nada perto do que ocorre na realidade.

Nova York Sitiada é mais fácil de ser compreendido hoje do que no ano de seu lançamento, após os terríveis ataques terroristas cometidos no nosso século, mostrando-se então uma obra a frente de seu tempo. Contudo, o roteiro atrapalhado e a direção instável impedem que o filme seja algo além de um belo e explícito debate sobre os abusos cometidos pelos EUA. Mas se faltou tato para Zwick desenvolver um bom trabalho aqui, não faltou coragem para dar um tapa de luvas na política externa norte-americana.

Nova York Sitiada (The Siege) – EUA, 1998
Direção: Edward Zwick
Roteiro: Edward Zwick, Menno Meyjes, Lawrence Wright
Elenco: Denzel Washington, Annette Bening, Bruce Willis, Tony Shalhoub, Aasif Mandvi, Sami Bouajila, Ahmed Ben Larby, Lianna Pai, Mark Valley, David Proval, Lance Reddick
Duração: 116 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.