Crítica | Nove Rainhas

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Quando o assunto é golpe em grande escala, quais filmes vêm à sua cabeça? É possível que cite o aclamado Onze Homens e Um Segredo, o clássico Golpe de Mestre ou até mesmo os mais recentes como Truque de Mestre ou Oito Mulheres e Um Segredo. Esse tipo de obra já é bem conhecida e possui diversos exemplos, bons ou ruins, dos mais mirabolantes e extraordinários planos arquitetados por criminosos. E um exemplar que encontra-se no panteão dos melhores do gênero é o esplêndido Nove Rainhas (2000).

Dirigido por Fabián Bielinsky, o longa conta a história de Marcos (Ricardo Darín) e Juan (Gastón Pauls), dois vigaristas que sobrevivem realizando pequenos furtos e golpes e cruzam seus caminhos em uma pequena loja de conveniências. Percebendo a inexperiência e ingenuidade de Juan ao assaltar a loja, Marcos, visivelmente há anos no ramo, o ajuda a escapar de ser preso pela polícia. A partir disso, o veterano charlatão propõe a formação de uma sociedade entre ambos, buscando alguém para substituir seu parceiro Turco (que é apenas mencionado durante o filme, sem nunca de fato dar as caras).

Quando Sandler (Oscar Núñez), um antigo parceiro de Marcos com grande capacidade artística, contata-os avisando que Vidal Gandolfo (Ignasi Abadal), um milionário com hobby de colecionar selos, está hospedado num hotel na cidade, ele propõe aplicar um golpe oferecendo réplicas dos selos das Nove Rainhas, cujos originais são avaliados em meio milhão de dólares. É desse momento em diante que a trama fica extremamente interessante e torna-se impossível tirar os olhos da tela, pois com tanto dinheiro envolvido na jogada, não sabemos quem realmente é confiável ou quem está apenas enrolando o outro para conseguir a maior vantagem possível.

A forma como Bielinsky constrói a atmosfera da película e nos vende vilões como mocinhos é totalmente maravilhosa. Apesar de termos noção do quanto as ações dos protagonistas são erradas, dificilmente nos colocamos ao lado contrário deles. Um dos motivos que nos leva a isso é justamente como o diretor nos apresenta as personagens, principalmente no primeiro ato do filme. Vemos Marcos e Juan realizando diversas artimanhas sempre com intuito de levar algumas vantagem (e é fascinante notar a habilidade e destreza de ambos nesse quesito), porém é algo que fazem essencialmente para sobreviver, pois ambos estão com problemas financeiros (principalmente o novato).

Claro, o carisma de Darín e Pauls é indispensável para que as intenções de Bielinsky sejam efetivadas, e ambos são impecáveis. Ao passo que Darín, sempre estupendo, encarna com maestria o papel típico do malandro durão, Pauls não fica atrás e transforma Juan em um homem aparentemente lerdo e com cara de tolo, quase um alívio cômico mais dramático, mas que prova ao longo da obra que pode ser tão importante quanto seu companheiro larápio. Dou o destaque na atuação, inclusive, para o próprio Pauls, que cumpre seu papel tão bem ao ponto de ficarmos boquiabertos e incrédulos com tudo ao final da história muito graças ao modo como o ator concebeu a personagem.

Ainda sobre ficarmos torcendo para a dupla gatuna, outro fator que auxilia em criar esse sentimento positivo para com eles é o alvo do golpe ser Gandolfo. Ele possui o inconfundível perfil do milionário excêntrico, cheio de empáfia, arrogância e soberba (praticamente a “mistura do mal com pitadas de psicopatia”), algo absolutamente passível de reprovação por si só. A partir do momento em que esse milionário enrolado com investigação parlamentar é o alvo, torna-se impossível não desejar o sucesso dessa “dupla dinâmica do crime”.

Apesar do básico de elaborar uma personagem facilmente reprovável no papel de antagonista, a fórmula funciona muito bem aqui. Por Marcos e Juan estarem muito mais próximos da realidade da maioria dos espectadores (embora sejam criminosos, estão inseridos na classe social de maior parte da população), identificar-se ou até mesmo nutrir uma empatia para com eles é uma tarefa muito mais simples do que realizar o mesmo com Gandolfo.

Nove Rainhas é outro maravilhoso exemplar do cinema argentino concebido durante a crise econômica vivida pelos nossos vizinhos durante a década de 90 e início dos anos 2000, provavelmente influenciando o diretor na criação da obra e mostrando, basicamente, pessoas tentando sobreviver em meio ao caos econômico de seu país através de tudo que estiver ao seu alcance. Todos esses aspectos somados a uma trama extremamente bem arquitetada, com diversas situações inesperadas, atuações magníficas, subtramas igualmente importantes e bem realizadas e um plot inimaginável são motivos que advogam em favor dessa incrível obra.

Nove Rainhas (Nueve Reinas) — Argentina, 2000
Direção: Fabián Bielinsky
Roteiro: Fabián Bielinsky
Elenco: Ricardo Darín, Gastón Pauls, Oscar Núñez, Ignasi Abadal, Leticia Brédice, Tomás Fonzi, María Mercedes Villagra, Gabo Correa, Pochi Ducasse, Luis Armesto, Roberto Rey, Celia Juárez, Alejandro Awada, Antonio Ugo, Leo Dyzen, Elsa Berenguer
Duração: 114 minutos

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.