Crítica | Novo Conto de Zatoichi

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estrelas 3,5

 spoilers! Confira as críticas para os outros filmes da série aqui.

Tokuzo Tanaka foi assistente de direção em Rashomon, de Akira Kurosawa e também trabalhou no mesmo cargo em três filmes de Kenji Mizoguchi e um de Kon Ichikawa, o que lhe deu bastante experiência ao lado de grandes diretores, moldando, aos poucos, o seu próprio estilo. Tanaka começou a dirigir filmes em 1959, tendo destaque dois anos depois, quando assinou os primeiros longas da série “Akumyo” ou “Tough Guy” (que teria 16 obras), todos estrelados por Shintaro Katsu.

Sendo bastante popular na Daiei, estúdio pelo qual tinha dirigido todos os seus filmes até então, Tanaka recebeu a tarefa de guiar a primeira obra colorida da franquia Zatoichi. Mais uma vez com um roteiro de Minoru Inuzuka vemos a continuação das andanças de Ichi, que encarna uma espécie de Sísifo japonês em busca de paz para si e igualdade e prosperidade para as pessoas que o cercam.

Nessa história, o protagonista volta à sua vila de nascimento, da qual se ausentou já há 4 anos. No início, ele encontra um velho amigo, Tamekichi, músico pobre que anda pelos campos tentando conseguir algum dinheiro. Esta é a deixa para o tom de “encontros com antigos conhecidos” que este novo filme nos traz. A bem da verdade, o roteiro aqui completa algo que se parece com uma “trilogia” introdutória ao Universo de Zatoichi. Nós começamos com Ichi trabalhando para Kanbei (O Conto de Zatoichi); vemos ele matar o chefe em circunstâncias moralmente densas (O Conto de Zatoichi Continua) e terminamos com o massagista cego lutando contra o vingativo irmão de Kanbei, aqui em busca de vingança (Novo Conto de Zatoichi).

Este é, na verdade, o fio da meada entre as obras, mas cada uma possui eventos e surgimento temporário de inimigos contra os quais Zatoichi lutará, mesmo que inicialmente evite isso. A longo prazo, tal premissa pode ser um problema para a série, mas até aqui, tem funcionado a contento. Para diferenciar o filme não apenas na cor, mas na cadência de eventos, Inuzuka fez de seu roteiro uma grande armadilha. A princípio, o surgimento de obstáculos é instigante e nos deixa imaginando como o espadachim poderia lidar com cada uma delas. Aos poucos, porém, isso se torna um peso a mais para ser resolvido na conclusão da fita, que mesmo terminando com todas as pontas textuais amarradas, carrega uma certa confusão do meio para o final.

Depois do irmão de Kanbei aparecer, a luta é interrompida para a entrada de Banno, antigo Mestre de Zatoichi, agora com problemas de dinheiro e com ações bastante questionáveis que descobriremos pouco a pouco. Nesse núcleo (vejam a quantidade de pequenos dramas que o filme apresenta!), temos mais um interesse romântico para Zatoichi, que chega a prometer para a jovem Yayoi — em uma cena patética e dramaticamente fraca e incoerente para com a história do personagem na “trilogia” — que jamais usaria a espada novamente; que jamais mataria alguém de novo; que deixaria os problemas da gangue Tengu; que sairia da Yakuza.

O espectador compreende que uma das intenções do autor foi mostrar o lado sensível de Zatoichi, que no tempo em que esteve fora da vila, perdeu aquele que considerou seu único amigo e, mais adiante, seu próprio irmão, por quem foi traído (assim como seria traído pelo próprio Mestre neste filme), e tudo isso deixou o homem sofrendo, algo que a belíssima atuação de Shintaro Katsu nos transmite desde cedo. Ele faz de tudo para não retirar a espada; ele não se mostra feliz com o que faz; mas precisa defender a própria vida constantemente. Como disse, é o Sísifo do cinema japonês: seus esforços e sua luta parecem chegar a um ponto de calmaria para, no momento seguinte, rolar montanha abaixo, forçando-o a dar início a todo o processo novamente.

Utilizar desse elemento delicado na fase atual da vida do personagem, para torná-lo incoerente, prometendo largar o que fazia, se humilhando para o irmão de Kanbei… não, não me parece algo válido no roteiro e aponto essa inserção romântica como um dos trechos fracos do texto de Inuzuka, ao lado da grande quantidade de dramas e inimigos.

Mesmo com tudo isso em jogo, o filme ainda consegue apresentar uma aventura que engaja e dá mais informações sobre o passado de Zatoichi, agora mostrando sua avó, seu antigo Mestre e um antigo amigo. É interessante notar que a fama do espadachim chegou até o seu primeiro lar e fez com que ele fosse tratado com um misto de medo, respeito e adoração pelas pessoas, dependendo do tipo de relação que possuem com ele.

A linha sombria que persegue Zatoichi tem vasão aqui na trilha sonora de Akira Ifukube, que volta à série imprimindo toques épicos, mais dendos e menos direcionados que os utilizados no filme anterior. Em oposição a isso, a direção de fotografia cria uma base azulada para todo o cenário mas não deixa de destacar a predominância de tons térreos nos objetos e nos figurinos (também com uma visível escala de cinza para uma porção de personagens), indicando as posições morais de cada um. Já a direção de Tokuzo Tanaka é dinâmica, especialmente nas lutas, fazendo bom uso de tomadas em espaços não muito abertos e utilizando com graça o plano/contraplano. Esteticamente, este é o filme que mais ousadia traz por parte da direção. Uma pena que o roteiro não deixe isso ainda melhor.

O Novo Conto de Zatoichi é mais uma história de traição e redenção na série. Mantendo a forte influência dos westerns e se aproximando cada vez mais do spaghetti western, a saga de Ichi começa e termina com o protagonista em movimento, deixando corações partidos, algumas mortes e carregando consigo a certeza de que isto não pode ser diferente para ele. Ele é o homem solitário para quem a felicidade e a paz foram negadas pela vida.

Um Ronin Reclamão

Mais uma vez o meu rascunho foi VANDALIZADO por uma pessoa que não consegue esquecer que é o errado de toda a história. Essas ameaças não ficarão assim. Partirei para o ataque em breve.
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Pensamentos aleatórios:

“Tiveste sede de sangue, e eu de sangue te encho.”
– Alighieri, Dante

“Não há maior vingança do que o esquecimento.”
– Gracián y Morales, Baltasar

“A vingança é uma espécie de justiça selvagem.”
– Bacon, Francis

“A vingança é o manjar mais delicioso, condimentado no Inferno.”
– Scott, Walter

“A vingança comprimida aumenta em violência e intensidade.”
– Maricá, Marquês

“Malograria a minha vingança tornando-a tão rápida.”
– Racine, Jean

bortaS bIr jablu’DI’ reH QaQqu’ nay'” (“Vingança é um prato que se como frio”)
– Provérbio Klingon

“Deixe estar jacaré, que a lagoa há de secar.”
– Fan, Ritter

Novo Conto de Zatoichi / Zatoichi #3 (Shin Zatôichi monogatari) — Japão, 1963
Direção: Tokuzo Tanaka
Roteiro: Minoru Inuzuka (baseado na obra de Kan Shimozawa)
Elenco: Shintarô Katsu, Mikiko Tsubouchi, Seizaburô Kawazu, Fujio Suga, Mieko Kondô, Chitose Maki, Tatsuo Endô, Gen Kimura, Kanae Kobayashi, Yutaka Nakamura, Shôsaku Sugiyama
Duração: 91 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.