Crítica | Novo Esquadrão Suicida # 1 a 8 – Insanidade Pura / Defeituosos (Novos 52)

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estrelas 1

Relançada em 2014 após o término do volume 4, o Novo Esquadrão Suicida, como uma amálgama de clichês, além de cansar, pode chegar a irritar. Ainda assim, se vista com um olhar mais cético como uma introdução ao grupo e à temática tradicionalmente proposta, certamente será uma HQ leve, com um momento ou outro mais cômico. Inofensiva, porém, já que vai do nada ao lugar algum em oito edições de muita explosão e pouco conteúdo para além da capa.

No primeiro arco, “Insanidade Pura”, vemos a equipe ser mandada às pressas para a sua primeira missão, na Rússia. Com a evidente presença de Arlequina e Pistoleiro, prestes a se tornarem astros do cinema, o time ainda conta com as presenças do Exterminador, da Filha do Coringa e do Arraia Negra, Este último, vilão clássico do Aquaman, que inclusive tem boa participação no segundo arco de Geoff Johns a frente da revista de Arthur Curry, vira aqui uma espécie de líder dos seus desajustados colegas. Seu destaque é bem dado, além de ter sido uma boa adição ao esquadrão. O problema aqui são todos os modelos esgotados que o roteirista Sean Ryan resolveu colocar na sua “história”.

O primeiro e mais claro erro é a questão do grupo que não se dá bem de primeira, o que gera brigas e desentendimentos entre os recrutados – todos aqui estereotipados em um grau assustador – para, no final, as coisas darem certo. Arraia é o líder e único aparentemente são. Pistoleiro é o sarcástico preguiçoso. Arlequina é a doida que, quando em presença das provocações da Filha da Coringa – a verdadeira maníaca – tem sua personalidade diminuída. E o Exterminador…é simplesmente dispensável, como também é a briga entre Amanda Waller – aqui esbelta, quase uma Maria Hill – e Vic Sage – o filosófico Questão na era pré- Novos 52, inexplicavelmente tornado uma criança marrenta – atores de outro clichê: a briga burocrática entre diretores que pode causar uma consequência para a equipe em campo.

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As coisas não param por aqui. Pode parecer paranoia, mas o roteiro é extremamente previsível, além de ser simplório: há uma missão, muitíssimo mal explicada, que deve ser feita. Ponto. Uma evidente desculpa para a turma se engalfinhar. Se isso ainda gerasse momentos visuais divertidos, verdadeiramente fantásticos – a comparação mais óbvia que fiz mentalmente foi com o próprio filme dos Vingadores – eu diria que “tá valendo”. Mas nas quatro primeiras edições, com linhas de diálogo frágeis e pouco atrativas em relação ao psicológico ou à personalidade de cada personagem, além de cenas de explosão praticamente iguais em cada edição – Michael Bay aplaudiria – tanto nos traços de Jeremy Roberts, quanto nos de Tom Derenick, o que se tem é uma história fraca, que não se sustenta no que tenta ser.

A terceira edição, por exemplo, toma grande tempo em retratar uma vulgar briga entre a Filha do Coringa e a Arlequina. “É sério mesmo?” eu me perguntei quando vi a coisa vindo, lentamente. As duas, com trapos para deixar a Psylocke de Jim Lee com inveja, se matando por causa de provocações adolescentes sobre o Coringa. Esse fetiche-palhaçada, misturado com a teoria da conspiração – também não poderia faltar – em altos cargos executivos, dão ao primeiro arco uma nota que beira o zero. Ah! E ainda tem traição de um dos membros, como não? Melhor nem entrar no mérito.

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Felizmente, o segundo arco, “Defeituosos”, melhora o nível, mesmo que nem tanto. Com a adição de outros vilões interessantes – e falhos, o que deixa a coisa com a possibilidade de ter alguma importância – vamos agora para a China – que imaginação para vilões dos americanos, não? Nada há para se explicar aqui: se você busca uma explanação, algo minimamente racional, está na revista errada. Esquadrão Suicida é ação desenfreada, acidentes e personagens sem noção. Corrijo: é ação a esmo, contingências convenientes e personagens forçados. A Arlequina ganha um melhor traço cômico, mas continua sendo uma exímia lutadora – em algum lugar, entre seu surgimento no desenho televisivo e agora, alguém deve ter aceitado esse tipo de coisa – assim como o Arraia ganha uma justificativa – paupérrima, ao meu ver – para se juntar ao grupo. Mas é um background, pelo menos.

Há dois fatores que atrapalham muito a história neste ponto. O primeiro, para variar, é a arte. Além de continuar irregular, ora com bons planos focados nas expressões dos personagens, ora com uma clara preguiça em individualizar cada vilão em quadro, ela traz um traço cartunesco que me fez voltar ao fim dos anos 90 e início dos anos 2000. Tudo parece exagerado, ao mesmo tempo que não há detalhamento algum nos cenários, quase sempre esquecíveis e desimportantes. O segundo ponto é o uso, veja só, de metahumanos fabricados pelos chineses. Essa ideia é tão, mas tão chata e tosca, que chega a ser hilário vê-la sendo usada como se nunca tivesse sido. Haja preguiça!

Devo falar que o final dá alguns indícios de melhora para os próximos arcos, com questionamentos que, apesar de pueris, são potencialmente fortes se colocados sob determinados personagens aqui apresentados. O problema é colocar fé em monstros. Aliás, em monstros não. Nestes monstros, especificamente.

Novo Esquadrão Suicida – #1 a 8  – Novos 52 ( EUA, 2014)
Roteiro: Sean Ryan
Arte: Jeremy Roberts e Tom Derenick
Cores: Blond
Editora: DC Comics
Páginas: 160 (aprox.)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.