Crítica | Novo Esquadrão Suicida #13 a 16 – Liberdade (Novos 52)

estrelas 2

A aguardada evolução da escrita de Sean Ryan não se efetiva em seu último arco do Novo Esquadrão Suicida. Com um roteiro básico, o autor até consegue amarrar seus quatro derradeiros capítulos em torno do tema abordado até aqui – tema é uma palavra realmente forte para um quadrinho tão sem conteúdo como este. Mas o faz, para desespero de qualquer leitor que botava fé na melhora da HQ, com desleixo, pretensão e despreocupação em sair da inércia reinante no título.

Agora no Rio de Janeiro e com Amanda Waller no time in loco, o Esquadrão vai para mais uma missão rotineira, tão sem originalidade que nem vale a pena perder tempo explicando. Basta dizer que há uma droga que transforma humanos em meta humanos e que a equipe está diminuída, agora apenas com Pistoleiro, Arlequina, Capitão Bumerangue e Parasita, além da já falada líder.

É de se ressaltar que o link com as histórias passadas, em Liberdade, é extremamente frágil. Nada de desenvolver a Arlequina e sua conturbada relação com o Coringa de forma consistente, após os eventos envolvendo o Flash Reverso em Monstros. Apenas uma pontuação sobre isso aqui, outra acolá. E só. A própria participação de Amanda Waller na missão vira pura conveniência para que o núcleo de Vic Sage tenha um andamento decente sem a presença dela, ainda que Waller seja, de longe, a personagem mais interessante e protagonista deste arco inteiro, o que pouco significa.

O próprio Vic Sage de Ryan é outro problema, basicamente por ser um esquizofrênico. Em cada arco tem uma personalidade diferente e se impõe de modo distinto. O pior é que isso é usado a esmo, sem estabelecer claramente que Sage tem seus próprios e válidos interesses que possam ir além de destruir Waller por birra. Um vilão de histórias infantis tem motivações mais criativas do que uma simplória revolta de um personagem moldado conforme a necessidade do roteiro.

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É preciso dizer, ainda, que uma tentativa verborrágica de explicar os planos por trás dos eventos é cansativa e chega a ser ridícula. O mesmo blablablá de dominação global envolvendo as teorias de conspiração e meta humanos dos primeiros arcos é feito de forma tão tosca que parece ter sido copiada e colada de outras histórias fracas desse tipo. Não consigo identificar o intuito de Ryan ao incidir novamente nesse tipo de escrita irregular, pseudo pretensiosa que não chega nem a ser divertida, muito menos desafiadora.

A última edição é a melhor do arco, concluindo surpreendentemente bem essa básica história de modo a contribuir para um aprofundamento psicológico na condição de cada prisioneiro. Chamá-la de boa é exagero, mas trata-se, sem dúvida, da edição que dá sustento ao que Ryan tentou passar nas dezesseis edições em que esteve no comando. Mesmo sendo uma rasteira lição existencial, escrita de forma amadora que chega a irritar na maior parte do tempo, o questionamento do “por que estamos aqui?” encontra, no capítulo final de seu roteirista, uma narrativa razoavelmente bem trabalhada, com perdas, redenções, desabafos e caracterizações dignas de uma HQ que se compromete a mostrar uma história desse gênero.

O final também valoriza mais o arco anterior, Monstros, mas sua rapidez na resolução empobrece qualquer ímpeto de empatia em relação aos personagens e ao roteiro. O potencial do Pistoleiro aparece, assim como o do Arraia, da Arlequina, do Parasita e de tantos outros. Mas nada se efetiva em ato, infelizmente. Diminuir o grupo e ter histórias mais centradas, em comparação com as oito primeiras edições, até valeram para aumentar substancialmente o valor da HQ. O Novo Esquadrão Suicida, porém, não consegue passar as categorias de descartável e inofensivo. Salvo a arte de Briones, que continua padronizada sem correr grandes riscos, esse título não chega nem à mediocridade que a faria ser um passatempo válido. Fuja!

Novo Esquadrão Suicida – #13 a 16 – Novos 52 (EUA, 2014)
Roteiro:
Sean Ryan
Arte: Phillipe Briones
Cores: Blond
Editora: DC Comics
Páginas: 80 (aprox.)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.