Crítica | Novos Vingadores: Tudo Morre

estrelas 3,5

Obs.: As imagens utilizadas ao longo do texto são as capas variantes oficiais deste arco.

Em Caminho Para a Guerra Civil, Bendis e Maleev criaram um grupo de Novos Vingadores chamado Illuminati, seleto ajuntamento dos heróis mais poderosos da Terra que representavam grupos e ideologias diferentes do planeta (para saber quais eram e quais as suas representações clique aqui) e sempre se reuniam em momentos de crise, onde formulavam alternativas para enfrentar o mal da vez e moldarem o planeta à sua vontade.

A formação dos Illuminati aqui é um pouco diferente da formação original, contando com a presença do Capitão América, do Pantera Negra e de um substituto do falecido professor Xavier (para quem não se lembra, morto na saga Vingadores vs. X-Men, de 2012). O conteúdo da reunião é, como sempre, um momento de crise para a Terra e esse tom de fatalidade afeta o comportamento dos participantes, que trocam farpas e se enfrentam sem máscaras, mostrando uma versão dos heróis que normalmente não é vista quando estão engajados com seus companheiros em combate contra algum vilão ou mesmo em situações fora deste encontro secreto.

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A história se inicia em Wakanda, onde T’Challa, o Pantera Negra, encontra acidentalmente uma barreira temporal que o leva para uma realidade não vista a partir das vibrações naturais da Terra. E o que ele vê é desolador: há um enorme planeta (uma outra Terra, vinda do Multiverso) orbitando a nossa atmosfera e que em 8 horas dará início a um processo de colisão chamado “incursão”. Mesmo não concordando com o egoísmo e prepotência dos Illuminati, T’Challa não vê alternativa se não convocar o grupo e pelo menos temporariamente fazer parte dele, tendo por objetivo único salvar a Terra desses eventos de incursão que parecem inevitáveis e continuarão acontecendo até que algo muito drástico seja feito por todos eles.

O ponto de ruptura inicial se dá porque Namor está na jogada e sabemos que depois do que ele fez a Wakanda em AvX 4, o Pantera Negra não está exatamente feliz com a sua presença. Essa linha de inimizades, agressões e acusações morais são os pontos mais interessantes do arco e este mesmo teor de julgamento, que alcança patamares éticos quando o grupo precisa destruir um planeta para salvar a Terra de uma incursão “abominável” (a primeira vez que eu vejo cartógrafos oferecerem algum tipo de ameaça para um espaço geográfico… muito interessante esse conceito semi-invertido da função), mantém-se firme durante toda a leitura, dando um verdadeiro significado para a ação dos heróis e fazendo valer o conflito entre eles, tornando o fio central da discussão mais instigante.

Amigos que deveriam se unir para salvar o planeta agora brigam, tomam atitudes pouco elogiáveis, como, por exemplo, não lidar com uma opinião contrária (o que fazem com o Capitão América é um exemplo disso) e não sabem mais se são heróis ou simples e fracos humanos. Essas problemáticas de comportamento são um braço das boas reflexões trazidas pelo roteiro de Jonathan Hickman, que consegue juntar elementos fortes de relações humanas e embate de ideias com ação e ficção científica e fantasia, mescla que funciona bem a maior parte do tempo, mas não em todo o evento.

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O ponto em falso de Tudo Morre é a Cisne Negro (nova vilã, criada neste arco, cujo nome verdadeiro é Yabbat Ummon Turru e que tem origem em uma família real na Cidade Escondida da Terra-1365). Sua participação funciona apenas parcialmente, um pouco na apresentação do conflito e um pouco na “ajuda” que ela dá aos Illuminati. A personagem também é parte da reflexão paralela deste arco, que traz à tona a fugacidade da vida, a noção de que a morte é a certeza inevitável para todo e qualquer ser vivente (bom, exceto os heróis/seres imortais, mas já vimos exceções à regra também neste caso ao longo da História dos Quadrinhos) e o grande dilema moral de que se é válido fazer qualquer coisa para salvar a si mesmo e sua própria espécie da extinção, mesmo que esta “qualquer coisa” seja extinguir uma civilização (ou a possibilidade de uma civilização) inteira em um planeta-gêmeo.

Todavia, à parte estes aspectos, Cisne Negro parece clichê demais no final do arco, especialmente na conversa que tem com Terrax, dando uma deixa para a retomada do problema das incursões no futuro — até aí tudo bem –, mas de uma forma que coloca a personagem em uma camada já bastante gasta de vilãs, quando isto não era necessário. Questiona-se também a presença de Terrax ou Tyros (original da Terra-13054, a mesma de Galaktus, uma versão do nosso conhecido vilão naquele Universo) como prisioneiro dos Novos Vingadores. Penso que Jonathan Hickman tenha deixado esta ponta solta para retomá-la nos arcos seguintes, mas haviam formas mais harmônicas de aprisionar ou deixar um “vilão de prontidão” do que esta. Não é exatamente algo ruim, mas está aquém do potencial geral da história.

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Com arte de Steve Epting e finalização de Rick Magyar, o leitor é atraído para uma aventura de pegada cósmica que realmente vale muito apena seguir acompanhando. Os desenhos e a diagramação das páginas contam a história de uma maneira duplo-emocional, focando bastante em expressões, em quadros negros para solo ou monocromáticos para conjuntos, dando a oportunidade de discursos e diálogos ganharem destaque e sustentarem o drama amparados por um cenário emotivamente configurado. As cores de Frank D’Armata fecham o ciclo com atmosferas metálicas, sépias, acinzentadas, vermelhas e azul (a dos cartógrafos-destruidores), construindo uma boa variação de ambientes que se adequam a cada pequena reflexão que o roteiro nos apresenta ao longo das seis edições.

Com o Epílogo do arco, entendemos que ainda há muita coisa para ser abordada dentro desse Universo. Os Novos Vingadores agora estão com um peso enorme nas mãos e na consciência. Parece que cruzaram (ou não?) uma linha difícil de morte e vida para eles. Todos têm consciência de que tudo morre, mas será que estão em paz quando essa possibilidade, a da extinção de tudo o que existe, se apresenta inevitável? Encarar o fim precoce das coisas (e é importante que se destaque a palavra “precoce”) pode ser considerado uma exceção à regra de aceitação? E mesmo o fim precoce das coisas é, necessariamente, uma coisa ruim?

Novos Vingadores Vol.3 #1 a 6: Tudo Morre (New Avengers Vol. 3 #1 – 6: Everything Dies – Marvel NOW!) — EUA, março a julho de 2013
No Brasil: Novos Vingadores: Tudo Morre — Nova Marvel (Panini, dezembro de 2015)
Roteiro: Jonathan Hickman
Arte: Steve Epting
Arte-final: Rick Magyar, Steve Epting
Cores: Frank D’Armata
Letras: Joe Caramagna
Capas: Jock, Joe Quinones
148 páginas (encadernado da Panini)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.