Crítica | O ABC da Morte 2

estrelas 2

Podem falar o que quiserem de mim, mas não podem me chamar de covarde ou de alguém que não dá segundas chances. Afinal, em 2013, assisti, no Festival do Rio, O ABC da Morte, inusitado projetado produzido pela Drafthouse Films. Como deixei bem claro em meus comentários, o filme não vale o papel onde seus roteiros foram escritos.

Eis que, em 2014, a continuação do filme é lançada na nova edição do Festival do Rio e, quando me dei conta, já estava com um ingresso. Masoquismo? Loucura? Provavelmente um pouquinho de cada um…

No entanto, talvez porque o primeiro tenha sido tão traumático, sua continuação tenha acaba sendo muito superior, ainda que não mais do que medíocre. É aquela velha história: qualquer coisa é melhor do que bambu enfiado embaixo da unha. E O ABC da Morte 2 evita justamente ser o bambu que foi o original e consegue reunir diretores – todos ilustres desconhecidos – que, no cômputo geral, fogem da escatologia, nojeira e outros artifícios baratos do gênero.

Mas, se você não sabe do que estou falando, deixe-me brevemente resumir o que o projeto ABC da Morte: 26 diretores do mundo todo são convidados para escolher uma palavra seguindo a ordem alfabética e, com total liberdade criativa, produzir um curta com o tema morte usando a palavra escolhida, que só é revelada ao final de cada segmento. No primeiro filme, dos 26 curtas, apenas uns dois ou três se destacavam em um conjunto abaixo da crítica. Agora, há um certo equilíbrio, com o aproveitamento mediano de cerca de metade dos curtas.

Não adianta nem eu tentar comentar alguns curtas, pois, em sua maioria, eles desafiam explicações lógicas, ainda que, como disse, alguns tenham conseguido trabalhar o assunto morte de maneira menos óbvia, como um segmento inteiro feito com uma versão “nojenta” do stop-motion, outro todo em desenhos surreais à lápis, com duas cabeças batalhando e alguns bem assustadores, como o segmento em que uma jovem testemunha um fenômeno no céu que faz com que os habitantes de um prédio próximo chacinem seus pares e até outros pesados, com mortes de crianças ou de uma “gravidez ao contrário”, mas que são trabalhados eficientemente, considerando-se o contexto.

O que não se deve esperar é muita elegância ou discrição. Os curtas são, todos eles, muito diretos, com morte em câmera e não escondidas e pouquíssima construção de suspense ou mesmo de personagem. Sim, sei que são curtas de apenas dois ou três minutos, mas isso não costuma ser um impeditivo absoluto para um mínimo de trabalho no roteiro e um polimento nas técnicas visuais. Parece-me que poucos entendem – inclusive o público, que levou o primeiro filme a um grau de sucesso que justificou uma continuação – que o horror mais eficiente é aquele intuído, não mostrado, apenas sugerido. Na série O ABC da Morte, a regra é escancarar tudo da maneira mais repugnante possível, pois sangue, tripas e cérebros são, aparentemente, a única linguagem do gênero que é compreensível pelo público em geral.

Como disse na crítica do primeiro filme, trata-se de uma ótima ideia desperdiçada em uma terrível – ainda que melhor dessa vez – execução. Um desperdício de 125 minutos de sua vida.

O ABC da Morte (ABCs of Death, EUA/Nova Zelândia/Canadá/Israel/Japão – 2014)
Direção: Rodney Ascher, Julian Barratt, Robert Boocheck, Alejandro Brugués, Kristina Buozyte, Alexandre Bustillo, Larry Fessenden, Julian Gilbey, Spencer Hawken, Jim Hosking, Lancelot Oduwa Imasuen, E.L. Katz, Aharon Keshales, Steven Kostanski, Marvin Kren, Juan Martínez Moreno, Erik Matti, Julien Maury, Robert Morgan, Chris Nash, Vincenzo Natali, Hajime Ohata, Navot Papushado, Bill Plympton, Dennison Ramalho, Todd Rohal, Jerome Sable, Bruno Samper, Shion Sono, Jen Soska, Sylvia Soska
Roteiro: Vários
Elenco: Vários
Duração: 125 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.