Crítica | Advogado do Diabo

“Eu só monto o palco, vocês puxam as próprias cordinhas”, é o que afirma o “Diabo” em seu desempenho cinematográfico nos anos 1990. Lidar com tal figura não é uma tarefa fácil, pelo menos para o personagem de Keanu Reeves neste “clássico moderno”. Indesejável desde o Gênesis, apresentado como uma serpente enganadora, o Diabo já provocou Jó, perturbou uma boa quantidade de possessos nos “evangelhos” bíblicos, tentou Jesus no deserto, apresentou-se como um terrível dragão no Apocalipse e assumiu a postura de bode expiatório em Levítico, trecho das “sagradas escrituras”.

Dirigido por Taylor Hackford, tendo como guia o roteiro escrito por Jonathan Lemki e Tony Gilroy, em 1997, o “tinhoso” foi representado por John Milton, personagem de Al Pacino em Advogado do Diabo, numa referência óbvia, mas bastante pertinente, ao autor de Paraíso Perdido. Kevin Lomax (Keanu Reeves) é a vítima da vez. Ele é um advogado que se gaba por nunca ter perdido um caso em sua vida profissional. Por conta do ótimo desempenho, recebe uma proposta para trabalhar na poderosa firma Milton, Chadwick e Waters.

Enquanto a sua esposa Ann (Charlize Theron) fica animada, a sua mãe (Judith Ivey) o alerta para não se perder diante das artimanhas malignas de uma vida em Nova Iorque. Feliz inicialmente, a vida do advogado começa a ganhar novos rumos cada vez que a sua relação com John Milton ganha maior profundidade. A voluntariosa e agradável esposa, inicialmente satisfeita com o sucesso do marido, começa a ter visões diabolicamente desagradáveis.

Ele defende o caso de Alexander Culler (Craig T. Nelson), um milionário acusado de assassinar a esposa, o enteado e uma das empregadas da casa. É quando o advogado percebe que seu chefe não lhe contratou apenas por seu desempenho profissional. Milton monta o cenário e aguarda os personagens desenvolverem a cena, diante de seus desejos, vontades, ânsias. Será possível resistir ao mundo de possibilidades e ofertas propostas? É o que veremos ao longo dos 128 minutos de produção.

Visualmente, Advogado do Diabo é um filme que consegue acentuar muito bem o clima diabólico proposta pelo roteiro. O design de produção de Bruno Rabeo consegue transformar a casa de John Milton numa obra de arte em movimento, como se cada quadro fosse uma pintura ou fotografia pictórica.  A maquiagem de Rick Baker não apela para a cultura do excesso, tampouco os efeitos especiais, numa busca por equilíbrio narrativo, sem tornar tudo um manancial de cenas visualmente carregadas, mas dramaturgicamente estéreis. No que tange aos aspectos sonoros, o filme consegue êxito, graças ao eficiente James Newton na condução musical.

Diante do exposto,  Advogado do Diabo é um filme bem sucedido. O Diabo, na figura de John Milton, é um mestre da retórica, ótimo argumentador, conectado a um roteiro sustentado por debates acerca de questões como ética, livre-arbítrio e justiça. Ele apresenta para o advogado Lomax um feixe de escolhas que pode determinar para sempre o destino da sua vida. Será que é “melhor reinar no inferno que servir no céu”?

Esta é uma das principais questões colocadas por Milton para o jovem advogado, numa espécie de alegoria para o embate maniqueísta entre o bem e o mal, luta constante que engendra as relações e reflexões filosóficas em nossa sociedade mergulhada nos dogmas do cristianismo. Na edição de dezembro de 2010 da revista NURES (Núcleo de Estudos Religião e Sociedade), o pesquisador Marcos Renato Holtz de Almeida apresentou um interessante estudo intitulado O Diabo e a Indústria Cultural e alegou que o imaginário existente sobre o Diabo passou a ser utilizado pela indústria do entretenimento e pela sociedade de consumo como mercadoria capaz de satisfazer os gostos das sociedades e culturas contemporâneas.

Alegoria para questões que gravitam em torno de discussões sobre materialismo e outros elementos típicos dos desejos humanos, o Diabo é tido um personagem sedutor que por meio da oferta dos prazeres mundanos, permite a reflexão sobre os mandamentos da moral e dos costumes, historicamente impostos pela Igreja. Uma das regras principais é a negação do prazer, pois o que se acreditava era que este nos leva ao caminho da perdição, além de nos afastar do caminho rumo ao divino.

O prazer, então, seria algo de ordem diabólica. O luxo, o bem estar e o sucesso, em Advogado do Diabo, estão desconectados com a vida de expiação e simplicidade, ligadas ao jejum e ao ascetismo cristão, o que levará Lomax a seguir os seus instintos éticos e fazer escolhas semelhantes ao caminho da personagem de Anne Hathaway em O Diabo Veste Prada, afinal, respondendo ao questionamento de Milton citado anteriormente, a vida mais simples e digna pode ser menos exuberante, mas oferta maior segurança que o ofuscante reino do inferno.

Advogado do Diabo — (The Devil’s Advocate) Estados Unidos, 1997.
Direção: Taylor Hackford,
Roteiro: Jonathan Lemki, Tony Gilroy
Elenco:  Al Pacino, Charlize Theron, Connie Nielsen, Craig T. Nelson, Heather Matarazzo, Keanu Reeves
Duração: 108 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.