Crítica | O Agente da U.N.C.L.E. (2015)

estrelas 4

É impressionante como 2015 tem se mostrado um ótimo ano para o gênero da espionagem. Já em fevereiro, a comédia de ação Kingsman: Serviço Secreto pegou todos de surpresa ao apostar numa abordagem refrescante e empolgante. Dois meses depois, Melissa McCarthy nos fez crer que era realmente engraçada com A Espiã que Sabia de Menos, que também funciona como uma eficiente sátira dos clichês do gênero. Aí o maluco Tom Cruise chega com Missão:Impossível – Nação Secreta, que traz algumas das melhores cenas de ação do ano e um ritmo vibrante, mesmo em se tratando do quinto filme da série. E, agora, é a vez de Guy Ritchie brincar com O Agente da U.N.C.L.E., revelando-se uma divertida homenagem ao espião dos anos 60.

A trama começa em plena Guerra Fria, quando o agente da CIA Napoleon Solo (Henry Cavill) é forçado a se unir com o agente da KGB Illya Kuryakin (Armie Hammer) para uma missão que envolve impedir remanescentes nazistas de lançar uma bomba nuclear. Com diferentes estilos e ideologias, a dupla ainda precisa proteger um importante contato, a mecânica Gaby Teller (Alicia Vikander).

De todos os filmes citados ali em cima, U.N.C.L.E. certamente é o que segue a fórmula mais tradicional. Um roteiro que traz situações simples e sem muita profundidade, mas que funcionam graças a estereótipos consagrados (a femme fatale de Elizabeth Debicki é visualmente hipnotizante, mas vazia como uma bexiga) e a deliciosa atmosfera retrô. A fotografia em película de John Mathieson captura com perfeição o look dos anos 60, com a imagem levemente granulada e cores dessaturadas, enquanto a trilha sonora absolutamente genial de Daniel Pemberton (um nome para ficarmos de olhos bem abertos) fornece uma identidade sonora única; ao mesmo tempo em que a seleção incidental de Richie oscila inteligentemente entre Nina Simone e Tom Zé.

O próprio Solo de Cavill é uma versão mais debochada e malandra do James Bond de Sean Connery, o que rende uma excelente performance do ator e um contraponto visível com o Illya de Hammer. A irreverência de Solo chega no ponto em que este simplesmente se abriga em um caminhão e toma vinho, enquanto o parceiro enfrenta uma mortal perseguição de lancha, ou quando percebe ter sido drogado, e logo se deita no sofá de seu captor para evitar bater a cabeça no chão. Já Hammer é o exato oposto, e isso já fica evidente em seu figurino mais “capanga”, contra o impecável terno de Solo, e o esforçado ator entrega um sotaque russo convincente e que diverte por seu constante comportamento carrancudo. Ver os dois agindo juntos rende os momentos mais ricos da produção, que também não precisa apelar para um bromance estranho – como o próprio Ritchie fizera com Sherlock Holmes e Watson em suas versões do detetive de Arthur Conan Dyle.

Como diretor, Ritchie encontra-se bem mais contido do que suas surtadas cômicas em Snatch ou  Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes. Tudo bem que o diretor e roteirista insiste em apostar em sua batida técnica de repetir cenas para nos revelar “um truque de mágica” escondido ali (mesmo que este seja bem perceptível algumas vezes, como a primeira aparição de Hugh Grant), mas, no geral, é uma condução segura e elegante, especialmente em sequências como o encontro inicial entre Solo e Illya no Muro de Berlim ou uma corrida contra o tempo claramente inspirada em Curtindo a Vida Adoidado. Só deixo registrado aqui que U.N.C.L.E. tem a perseguição de carro mais estranha que já vi na vida, como se Goddard resolvesse bagunçar toda a disposição espacial e cinematográfica desse tipo de cena.

O Agente da U.N.C.L.E. é entretenimento de primeira, promovendo uma palpável reconstrução da atmosfera da Guerra Fria e uma química divertidíssima entre seus protagonistas, que fazem valer qualquer absurdo ou clichê. Em um bom ano para agentes secretos, agora é esperar que James Bond não decepcione…

O Agente da U.N.C.L.E. (The Man from U.N.C.L.E., EUA/Reino Unido – 2015)
Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Guy Ritchie, Lionel Wigram
Elenco: Henry Cavill, Armie Hammer, Alicia Vikander, Elizabeth Debicki, Hugh Grant, Luca Calvani, Sylvester Groth, Jared Harris, Christian Berkel, Misha Kuznetsov, Guy Williams
Duração: 116 min.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.