Crítica | O Albergue 2

estrelas 3

As críticas ao filme O Albergue foram positivas. Como representação de um gênero, a produção foi louvada por muitos profissionais, principalmente pela presença de Quentin Tarantino na realização, mesmo que na posição de produtor. Entretanto, como nada é perfeito, o filme recebeu alguns dedos em riste por parte de pessoas que achavam a produção machista demais.

Como forma de suavizar os comentários, Eli Roth decidiu entregar às mulheres o protagonismo do filme subsequente, um dos raros casos de uma continuação que consegue manter o nível do filme “original”.  Em O Albergue 2, três jovens estadunidenses estudam em Roma e se preparam para partir numa viagem de final de semana. Próximo do momento de partida elas conhecem uma atraente modelo que as convida para se juntarem, assegurando-lhe que há um local perfeito para elas relaxarem e rejuvenescerem.

As moças seguem para o mesmo albergue dos jovens mochileiros do filme anterior. Ao se estabelecerem no local, seus passaportes são enviados para a “máfia” da cidade, o que garante ao espectador que muito sangue e violência estão garantidos até o final do filme. Com maior carga sensual e desenvolvimento maior dos personagens, o que favorece o processo catártico, O Albergue 2 é intenso e envolvente, ao mesmo tempo que incomoda e causa repulsa, tamanha a crueldade dos clientes que desejam torturar e extrapolar a “inerente” fúria em pessoas inocentes.

O trabalho de som é bastante eficiente, a edição bem cuidadosa, os personagens mais desenvolvidos, além da direção de Eli Roth, bem segura, beneficiada pelo ótimo trabalho do designer de produção. Os sons das grades, os ecos dos corredores e o controle da iluminação, tendo em vista que o filme foi em grande parte, realizado em estúdio, promovem a relação de asco e pavor entre filme e espectadores.

Há várias cenas macabras, mas duas merecem destaque: numa festa popular, crianças assistem a uma apresentação de marionetes cheia de violência. Seria um treino para o futuro? E no final, há uma decapitação irônica que desagua numa “pelada” envolvendo uma cabeça, o que nos remete a um acontecimento violento ocorrido aqui no Brasil, nos idos dos anos 1990.

Em 1992, o fotógrafo Severino Silva retratou, no Parque Fluminense, uma cena minimamente estranha: garotos pareciam jogar futebol com uma cabeça que teria sido desprendida do corpo de um homem executado por traficantes. A imagem foi publicada numa revista francesa e ilustrou uma reportagem chamada O Sangue do Brasil, o que causou um debate midiático imenso. No final das contas, mais uma prova de que o terror da vida real ganha realce nos filmes, e assim como dito em Pânico na Floresta, a realidade às vezes pode ser mais insana.

Injustamente indicado ao prêmio Framboesa de Ouro de Pior Prelúdio ou Sequência, a produção tem as participações especiais de Ruggero Deodato e Edwige Fenich, musa de giallos dos anos 1970. Com uma abertura ao estilo Sexta-Feira 13 parte 2, o filme apresenta o protagonista do filme anterior. O seu destino? Fatídico, irônico e tenebroso.

O Albergue 2 (Hostel 2) –  EUA, 2006.
Direção:  Eli Roth.
Roteiro: Eli Roth.
Elenco: Lauren German, Roger Bart, Heather Matarazzo, Bijou Phillips, Richard Burgi, Vera Jordanova, Jay Hernandez, Jordan Ladd, Patrick Zigo, Ruggero Deodato, Edwige Fenich.
Duração: 94 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.