Crítica | O Alerta Vermelho da Loucura

estrelas 3

Noivas. Casamentos. Felicidade? Não em Alerta Vermelho da Loucura, produção do mestre do macabro, Mario Bava, cineasta italiano que como já sabemos, antecipou a sanha assassina dos mascarados dos anos 1970 e 1980 nos Estados Unidos. Com roteiro de Santiago Moncada, associado ao argumento e ideias do próprio Bava, o filme é um delírio visual cheio de cenas perturbadoras que mais interessa pela sua forma que por seu conteúdo.

O roteiro traz elementos mais psicanalíticos, com ideias complexas, numa mescla de giallo com espiritualismo, o que não deixa de ser interessante, mas no que tange a fruição de uma narrativa, torna-se, em alguns momentos, dispersivo e “onírico” demais. Filmado entre a Itália e a Espanha, o filme nos apresenta um personagem em seu estado gradual de perda da sanidade. Ele é o herdeiro de uma loja que trabalha com design para noivas e casamentos, espaço por excelência do brasileiro Nelson Rodrigues, outro fascinado pela desconstrução das “instituições”.

Com algumas moderadas doses de erotismo e enquadramentos estilizados, bem característicos do estilo de Bava, o filme nos mergulha neste universo confuso de John (Stephen Forsyth), um psicopata que elimina qualquer grande surpresa ao se assumir o responsável pelo rastro de sangue do preâmbulo ao epílogo da narrativa. Sedutor e empoderado, ele assassina noivas incautas por conta de um trauma da infância, elemento bastante aproveitado pelo slasher estadunidense ao longo das décadas seguintes.

Através de cenas fantasiosas e algumas doses generosas de nonsense, Alerta Vermelho da Loucura se estabelece como um filme de suspense e horror, repleto de músicas pop dos anos 1960 e os famosos teclados que conduzem as cenas mais tensas, bem diferente dos ferrões musicais e cópias de Tubarão e Psicose, situações muito comuns aos filmes de terror daquela época.

A direção de fotografia é um ponto forte da trama, com tons que tendem para o vermelho como paleta, numa sintetização de horror e psicanálise que poucos realizadores seriam capazes de dar conta. O jeito como Bava conduz o filme nos remete ao que se convencionou chamar de estilo “hitchcockiano”: minucioso ao lidar com os personagens e habilidoso ao entregar os fatos em camadas. Antes do reconhecimento como “mestre do macabro”, o realizador italiano era operador de câmera e já havia trabalhado com vários cineastas, tais como Camerini, Steno, Monicelli, etc.

As atuações são ruins, fato. A maioria delas, sendo a condução narrativa do cineasta o setor um dos propósitos de darmos a devida dignidade ao filme. Para os que amam reviravoltas, há um plot twist no mínimo curioso, mas conta-lo seria estragar a surpresa, e, já que os elementos surpresas são parcos por conta de um assassino que já conhecemos cabalmente, contar menos, aqui, é mais.

O Alerta Vermelho da Loucura (Rosso Segno Della Follia) — Espanha/Itália, 2005
Direção: Mario Bava
Roteiro: Santiago Moncada, Mario Bava
Elenco: Stephen Forsyth, Laura Betti, Dagmar Lassander, Jesús Puente, Femi Benussi, Antonia Mas, Luciano Pigozzi, Gérard Tichy.
Duração: 88 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.