Crítica | O Amante Duplo

Contém spoilers!

O plano-detalhe que inicia O Amante Duplo, novo filme do diretor francês François Ozon, se abre a partir do colo de um útero, percorrendo todo o canal vaginal até enquadrar a vulva da personagem principal – Chloé. O cineasta corta sutilmente para a fenda palpebral da protagonista, cujos olhos se abrem para a câmera. É simplesmente impossível não acusar o golpe diante do primeiro plano e do primeiro corte do novo longa-metragem de Ozon. A beleza dessa abertura está combinada com uma série de significados de sabor psicanalítico aqui reconhecíveis. O exame ginecológico não oferece quaisquer justificativas às dores abdominais de Chloé. Seu útero enquadrado de forma tão ousada descreve na linguagem do cinema a natureza da personagem – uma histérica típica. Não é necessário extrapolar o que está na projeção para chegar à conclusão. François Ozon é criativo, plástico e didático para nos dizer isso.

Para quem conhece a essência da teoria psicanalítica (mesmo sem ser um psicanalista, como eu), fica fácil reconhecer a maravilhosa metáfora visual do francês. O match cut inicial de François Ozon, que conecta uma vulva a um olho, alude à fantasia de castração na gênese da histeria de Chloé. São os olhos que revelam ao indivíduo a castração da mãe como um risco convertido em fantasia e é a angústia de castração que desloca a libido fálica do corpo genital para o não-genital em forma de sintoma. Para o cineasta francês, não foi preciso mais do que um plano, um movimento de câmera e um corte para sintetizar tudo isso em seu novo filme. O Amante Duplo foi apresentado em Cannes e também é destaque no Festival Varilux de Cinema Francês de 2018. Ainda que de modo muito distinto, retoma a temática do sofrimento histérico, que havia aparecido em Um Instante de Amor, destaque do festival no ano passado.

O filme de François Ozon traz novamente o elemento que sempre recorreu em sua filmografia – o erotismo. As qualidades do francês ao dirigir cenas de sexo são inegáveis desde Swimming Pool. Em O Amante Duplo, além da sensualidade dos corpos que bailam de prazer, há algo de misterioso e até de diabólico nos encontros sexuais de Chloé. Convencida da natureza psicossomática de suas dores, ela procura um psicanalista para tratá-las. A terapia é abortada quando ela e Paul desenvolvem transferência um pelo outro e ele resolve encaminhá-la. Eles iniciam então um romance. O filme ganha o tom de thriller erótico quando ela descobre que Paul esconde a existência de um irmão gêmeo – Louis –, com quem ela também passa a se encontrar. Paul é passivo. Acolhe Chloé e lhe oferece tratamento. Louis é violento. A protagonista não o procura em busca de cura, mas é ele quem revela a natureza de seu tormento.  Os gêmeos surgem como antítese um do outro, tal como Castor e Pólux no mito grego.

O Amante Duplo faz um trabalho belíssimo com seus enquadramentos, embora não inteiramente original. Os planos ora focalizam os personagens diretamente, ora focalizam suas imagens espelhadas. O recurso, como muitos já apontaram, pode ser encontrado facilmente no cinema de Brian de Palma. Podemos encontrar no novo longa-metragem de François Ozon o jogo de espelhos, a montagem em split screen, a inversão de perspectivas e a manipulação dos espaços entre os personagens, que foram tão marcantes em filmes do diretor norte-americano, como Dublê de Corpo. Em Ozon, isso não apenas cria o suspense. A manipulação do olhar, quase sempre duplicado, está sempre fragmentando os personagens em partes ocultadas até si mesmos. O espectador vê-se envolvido em uma trama em que tudo é hipotético, duvidoso e ambíguo. Se Chloé apenas delira, o cineasta francês demonstra competência ao usar a gramática que aprendeu com de Palma (ou até mesmo com o Polanski da Trilogia do Apartamento) para fazer o público delirar junto. O thriller erótico de Ozon cresce e atordoa sem parar.

A atuação de Marine Vacth também é um destaque. Sua personagem descobre que a origem de suas dores era o fato de possuir em seu abdome os resquícios de sua irmã gêmea. A metáfora da duplicação de seu amante ressurge como a duplicação de si mesma. Seu adoecimento pela erotização do corpo não-genital (mais uma vez, uma descrição de sua histeria bem ao gosto dos psicanalistas) se materializa em um arremedo de carne e de ossos excisados de dentro de seu abdome. A cena dessa descoberta acrescenta elementos de realismo fantástico e de terror ao longa-metragem. O público, vacinado pelos jogos de dúvida de Ozon, acaba questionando essa suposta cura de Chloé. Mas é interessante notar também que o diretor termina seu filme estilhaçando a tela como quem quebra os mesmos espelhos que criaram os duplos de seus personagens. Teria o processo terapêutico da protagonista realmente chegado ao fim?

A resposta pouco importa. O que interessa mesmo é o brilhante trabalho de François Ozon ao inserir o discurso psicanalítico dentro de um filme tão bem arranjado, que bebe das melhores fontes de forma honesta e faz o público mergulhar em sua trama labiríntica e sedutora do início ao fim.

L’Amant Double (O Amante Duplo) – França, 2017
Direção: François Ozon
Roteiro: François Ozon
Elenco: Marine Vacth, Jérémie Renier, Jacqueline Bisset, Myriam Boyer, Benoît Giros, Dominique Reymond, Jean-Paul Muel
Duração: 107 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.