Crítica | O Amor Custa Caro

estrelas 2

A filmografia dos irmãos Coen tem por característica filmes que satirizam a sociedade, criando histórias através do humor negro e roteiros cheios de reviravoltas. Com isso, os diretores conquistaram ao longo dos anos admiração do público e crítica, com obras premiadas, como, por exemplo, Fargo e Onde os Fracos Não Têm Vez. Porém, em O Amor Custa Caro, os irmãos ingressam no romance, gênero com o qual ainda não haviam trabalhado. Será que eles manteriam suas características? Ou partiriam para uma linha nova de construir histórias?

O filme conta a história de Miles Massey (George Clooney), um advogado bem-sucedido especialista em divórcios, que um dia conhece Marylin Rexroth (Catherine Zeta-Jones), uma mulher que deseja se tornar rica através do dinheiro conseguido em diversas separações. No entanto, Miles passa a ser o advogado do ex-marido dela, Rex Rexroth (Edward Herrmann), sem saber que ele é o próximo alvo de Marylin em sua lista de pretendentes.

A primeira cena mostra um marido flagrando sua mulher com um amante, o que poderia ser um momento dramático, mas ali já fica claro que o filme não se leva a sério, com uma trilha sonora brega e atuações caricatas. Além disso, os figurinos de vários personagens durante o filme são exagerados e há vários diálogos que destacam a futilidade dos mesmos personagens, ressaltando ainda mais a excentricidade daquele universo.

Os protagonistas são bem estabelecidos e ambos tem pontos em comum, por exemplo, ganham a vida com divórcios, mas Miles, sendo o advogado e Marylin, sendo a divorciada. George Clooney parece estar atuando no automático, transmitindo segurança no papel, mas sem se destacar muito. O destaque está em Catherine Zeta-Jones, com uma composição forte. Atuando muito por olhares, ela constrói uma personagem confiante, sensual e que demonstra sempre saber o que está fazendo.

Porém, se o primeiro ato é bem sucedido em estabelecer a história e personagens, o mesmo não deve ser dito sobre os seguintes. O romance entre os protagonistas é mal desenvolvido, e não há uma preparação até o momento do primeiro beijo deles, pelo contrário, quando isso ocorre é mais curioso do que emocionante. Além disso, a primeira parte do filme coloca Miles e Marylin tão bem como pessoas solitárias que quando eles demonstram o contrário, soa incoerente com o que foi mostrado.

Em alguns momentos, a montagem apresenta informações importantes em pouco tempo, impedindo que o público assimile aquilo que foi passado, como, por exemplo, a maneira como Marylin e Miles se envolvem. Isso acontece de forma muito rápida, quase que de repente. Portanto, os momentos  românticos em vez de ser emocionantes, são apenas surpreendentes, impedindo a empatia de quem assiste.

Há pequenas críticas à sociedade, mostrando o quão fútil é a vida de alguns ricaços. O longa também apresenta os advogados como seres solitários, gananciosos e que fazem de tudo pela sobrevivência, como o chefe de Miles, sendo criticados por lucrarem em cima da tragédia das pessoas. Mas ao contrário de outros filmes dos irmãos Coen, as críticas são mais sutis, e às vezes soam um pouco bobas, sem muita ênfase.

A obra possui as características presentes na filmografia dos Coen, mas o humor, por exemplo, nem sempre funciona, algumas piadas são sem graça e, em uma cena, eles escolhem utilizar o humor pastelão, o que não se encaixa naquilo que foi mostrado antes. Já as reviravoltas também acontecem no roteiro, mas o fato de o público já saber a intenção dos personagens impede que quem está assistindo se surpreenda com aquilo.

O Amor Custa Caro ensina que, por mais que tenhamos sucesso financeiro, sempre precisaremos de alguém para nos amar. Mas apesar da bela mensagem, o filme não se destaca na carreira dos irmãos Coen, pelo contrário, se apresenta como uma das obras mais fracas dos diretores. Isso porque, apesar de estabelecer bem o início de sua história, desenvolve mal a relação dos personagens, impedindo que o público realmente se envolva com eles e assimile o que foi transmitido.

O Amor Custa Caro (Intolerable Cruelty) – EUA, 2003
Direção: Joel Coen, Ethan Coen
Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen, Robert Ramsey, Matthew Stone, John Romano
Elenco: George Clooney, Catherine Zeta-Jones, Geoffrey Rush, Billy Bob Thornton, Edward Hermmann, Cedric The Entertainer, Jack Kyle, Richard Jenkins, Mia Cottet, John Bliss, Julia Duffy, Paul Adelstein e Stacey Travis.
Duração: 100 min.

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.