Crítica | O Amor é Estranho

estrelas 5,0Ainda que seja uma sensação maravilhosa e que muitas palavras nem sempre consigam explicar a causa, o amor é um sentimento estranho, confuso, difícil e complicado. Não há uma definição exata, pois, cada indivíduo sente e ressente de um jeito singular. Então, como definir quando é amor? Simples. Não dá. Apenas sentimos e então, sabemos que existe.

George e Ben estão juntos há quase 40 anos e decidem que é hora de se casar. A cerimônia ao ar livre é linda, os amigos e familiares reunidos exultam alegria e a festa após é simplesmente encantadora. Porém, George acaba sendo demitido do emprego de Professor de Música em uma escola e agora, os dois precisam vender o apartamento onde moram e ficam sem lugar para chamar de seu. Os amigos e familiares decidem abrir a casa para eles, mas, cada um vai para um canto, ficando separados justamente logo depois do tão desejado ‘sim’. A distância entre o casal é mais emocional do que física e eles precisam aprender a lidar com isso pela primeira vez em anos, assim como aqueles que os acolheram. Porque, veja bem, é muito fácil amar alguém estando cada um num canto, mas, quando a pessoa está vivendo debaixo do nosso teto, a situação muda de figura.

E são essas relações forçadas que ditam o tom em todo o filme. Ben sempre foi o tio querido, carinhoso, atencioso e favorito de Elliot. E tudo muda quando ele vai morar uns tempos com o sobrinho, sua esposa Kate e o filho adolescente Joey. O casal se encontra no meio de uma crise e o filho mal fala com eles. Ben acaba sendo um incômodo ao tentar desviar dos problemas e tropeçar no meio deles, sem querer. Já George se hospeda na casa de um casal amigo que promove reuniões e festas constantemente e ele mal consegue ter paz para fazer uma única refeição. Em meio a todo o caos, o casal consegue ter alguns momentos sozinhos e reafirmar o amor deles antes de voltarem cada um para sua casa temporária e isso, vai desgastando-os mais e mais.

A beleza de O Amor é Estranho reside na finitude dos sentimentos. Por mais que se ame alguém, de forma verdadeira e sincera, haverá sempre um espaço onde começa e termina a necessidade de expressar esse amor. E é onde entra o fator convivência e aprender a ter uma vida familiar. A questão que fica é: Quem sabe realmente como lidar com isso?

George e Ben são o exemplo de companheirismo e união no qual seus amigos e familiares se espelham, mas, não seguem exatamente os mesmos passos. Enquanto o sobrinho e a esposa se distanciam mais, e parecem bem com isso, ao menos um deles, o casal vai ficando cada vez mais melancólico e ressentido por estarem separados, ainda que casados. E são emoções tão suaves e sutis que somente atores de peso como Alfred Molina e John Lithgow poderiam executar esses papéis de forma tão genuína e diria até que impecável. Os dois são incrivelmente amáveis um para com o outro e acabam tornando a trama muito mais crível. E por mais que se trate de um casal homossexual, em momento algum o filme é tratado como propagandista ou levanta qualquer bandeira sobre o assunto. Nesse ponto, o diretor Ira Sachs soube tratar tudo com uma destreza e leveza tão grande que acabou não sendo necessário, afinal o amor, ainda que estranho, continua sendo real e não escolhe suas vítimas, qualquer um está na mira e com o talento desses três gigantes Sachs, Molina e Lithgow, vai ser quase impossível não ser cativado pelo filme.

Não escreveu o cantor Vinícius de Moraes “Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure?” E não há nada de errado na finitude, se souber aproveitar enquanto tem.

O Amor é Estranho (Love is Strange – EUA  2014)
Direção: Ira Sachs
Roteiro: Ira Sachs, Mauricio Zacharias
Elenco: John Lithgow, Alfred Molina, Tatyana Zbirovskaya, Olya Zueva, Jason Stuart, Darren E. Burrows, Marisa Tomei, Charlie Tahan, Harriet Sansom Harris, Cheyenne Jackson, Manny Perez, Christina Kirk, John Cullum, Eric Tabach, Tank Burt
Duração: 106 min.

MELISSA ANDRADE . . . Uma pessoa curiosa que possui incontáveis pequenos conhecimentos desde literatura a filmes a reality shows a futebol alemão e está sempre disposta a aprender muito mais. Por isso sou Jornalista por experiência e vocação. Fotógrafa Profissional com muita paixão e um olhar apurado e Roteirista frustrada e uma Crítica de Cinema em ascensão.