Crítica | O Amor em Fuga

estrelas 3

O Amor em Fuga representa o fechamento de um ciclo. A saga do personagem Antoine Doinel, representado com maestria por Jean-Pierra Léaud durante duas décadas e cinco filmes encontra um desfecho com tons nostálgicos, mesmo que a produção seja menos interessante que as primeiras aparições do rapaz. Digamos que a máxima do vinho, sobre o fato de que “quanto mais velhos ficam, melhores”, não se aplica ao filme.

Em debates acadêmicos ou até mesmo no senso comum, é intrigante observar como certos diretores são quase intocáveis, deuses de um Olimpo cinematográfico, caracterizados pela perfeição. François Truffaut é um desses. O “menino” modelo da Nouvelle Vague, inicialmente crítico de cinema e pesquisador engajado na expressão da linguagem cinematográfica produziu diversos filmes complexos e repletos de múltiplas interpretações. Obras valiosas que nos servem como radiografias de um tempo específico da história do cinema e de situações da vida cotidiana.

No entanto, nem tudo é perfeito, e O Amor em Fuga, por exemplo, é um desses exemplos não tão bem sucedidos na forma e no conteúdo. A trama traz cenas intertextuais em relação à outros filmes de Truffaut, bem como flashbacks que reforçam o caráter memorialista do personagem, avaliado nas cenas de acordo com o que é, com base no que sempre foi: um rapaz egocêntrico, manipulador e esperto.

Aos 35 anos, Antoine encontra-se divorciado de Christine. Como numa espécie de fábula de despedida, reencontra antigos amores e demais pessoas que passaram pela sua vida até o dia em que encontra Sabine, uma jovem vendedora de discos. O amor, mais uma vez, “está no ar”, e um novo casal surge em cena, embalados pela música geralmente bem orquestrada nos filmes do diretor francês.

Em parceria com Marcel Moussy, o cineasta construiu o roteiro do filme, indicado ao César (1980) de melhor música para o cinema e melhor filme no Festival de Berlim (1979). Os demais recursos audiovisuais são competentes e dispensam observações, todavia, o trabalho com a câmera, aliado ao trabalho de montagem, são ótimos aliados para a construção do caráter memorialista e fragmentário da obra.

O Amor em Fuga é um filme sobre o amor, mas também é uma produção sobre Memória cultural, haja vista que são percorridos 20 anos durante a saga, com mudanças comportamentais e culturais entre 1959 e 1978. Os flashbacks, recursos máximos para a memória no cinema, estão bem organizados e funcionam de forma didática na cadência dos acontecimentos.

Lançado em 1978 nos cinemas, O Amor em Fuga possui 94 minutos de duração e não é nenhum sacrífico para o cinéfilo ou até mesmo o espectador comum. Há momentos divertidos, bem como cenas de romance e “trapalhadas”, em suma, situações que alcançam públicos mais amplos. O que fica como saldo, ao final de tudo, é que Truffaut já não dirigia e roteirizava com a força de antes, pelo menos nesse filme, e a saga de Antoine, antes delirante e muito interessante, surge como narrativa audiovisual para os nostálgicos, fãs do personagem ou admiradores do realizador.

O Amor em Fuga (L’amour en fuite) — França, 1979
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut, Marie-France Pisier, Jean Aurel, Suzanne Schiffman
Elenco: Jean-Pierre Léaud, Marie-France Pisier, Claude Jade, Dani, Dorothée, Daniel Mesguich, Julien Bertheau, Jean-Pierre Ducos, Marie Henriau, Rosy Varte, Pierre Dios, Alain Ollivier, Julien Dubois
Duração: 94 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.