Crítica | O Anjo (2018)

“As pessoas são malucas? Alguém considera a chance de ser livre? Ir a todo lugar quando quiser; quando você quiser. Nós todos temos um destino. Eu sou um ladrão de nascença. Eu não acredito em “isso é seu, e isso é meu.”

O Anjo é uma produção argentina consideravelmente polêmica em como aborda o caso real de um jovem criminoso, responsável por inúmeros assassinatos e roubos milionários. O cineasta Luis Ortega, visando um objetivo específico – o de auto-crítica -, diverte o espectador com a jornada do protagonista, um garoto buscando uma descoberta pessoal no crime, apenas para se enxergar ainda mais perdido no mundo – uma juventude frustada – do que inicialmente estava, enquanto ainda não tinha sangue nas mãos. O pai do menino, em uma das primeiras cenas, aponta que não o quer desperdiçando a oportunidade de estudo em um novo colégio. A coragem reside no arriscamento do longa-metragem por uma vertente de entretenimento alocada a uma história que, na realidade, é extremamente pavorosa, sobre as mortes aleatórias, com requintes de crueldade, de inúmeras pessoas. Um sadismo subjacente? O cineasta transforma as coisas, aparentemente, em uma bagunça envolvente, com trilha sonora energética, personagens carismáticos e um charme romântico sensual delicioso. Como uma narrativa acerca de invasões domésticas, sem uso de arma de fogo, se transforma em um enredo sobre um serial killer angelical

Um menino em meio à ditadura militar argentina – pontuação relevante para uma cena específica da fita -, Carlos Puch (Lorenzo Ferro) é um garoto de cabelo longo atraído pela vida à margem das regras sociais, à margem da moral de uma sociedade, assim como o público é atraído por essa atmosfera vívida. A canção que empolga a sequência inicial do filme, “El Extraño Del Pelo Largo”, da La Joven Guardia, com o jovem dançando por uma casa vazia, comenta basicamente do que se trata essa criatura: “É inútil tentar entender/ou talvez interpretar suas ações“. O monólogo – em destaque na crítica – abre as portas do espectador para esse universo sem respostas, mas de uma “compreensão” subvertida da cabeça confusa do jovem, perdido. Os porquês são insuficientes. Uma “justificativa” para os roubos, plenamente compreensível apenas na mentalidade do garoto, é apresentada nesse deturpado monólogo. Quando mata, ainda consegue se desvencilhar da culpa – “ele morreu por conta própria”. Os homens que agrediram o seu amigo. O caminhoneiro que estava com uma pistola escondida. Uma incessante necessidade por respostas a atitudes que, na realidade, são impulsionadas apenas pela sua cabeça enormemente adoecida.

O criminoso, com fogo latente nos olhos – lágrimas apenas uma única vez, quando a narrativa é invertida, saindo do seu enredo em crescimento, para a sua derrocada – não é uma criatura deselegante, quebrando com o estereótipo do crime associado à feiura, exatamente do que se trata o longa-metragem, porque, assim como a aparência do assassino, a obra é visualmente belíssima, em contrapartida com a cru natureza retratada. A cenografia cumpre uma essencial participação nessa contraposição entre o grotesco e o lúdico. A “primeira” casa invadida é extremamente colorida, contrapondo-se com o cenário da última cena, devastada pelo vácuo de pensamentos do protagonista, que alcançava, enfim, a perdição ansiada. O Anjo Negro – apelidado pela imprensa assim -, em uma manobra cíclica do longa-metragem, retomando uma essência musical, igualmente coreográfica, para enaltecer as divergências evidentes diante do caos premeditado, de um começo sedutor a um término auto-crítico, dança como antes dançou, mas sem ser a mesma pessoa de antes, muito pelo contrário, desistindo de justificar-se. O inferno é mais atrativo, porém, nem ainda assim suficiente para as suas necessidades.

A orientação sexual do jovem, em outra instância, surge acompanhada de uma malícia sedutora – os olhares que troca com o seu amigo Ramón (Chino Darín). As sugestões são mais que necessárias. O Anjo, por exemplo, nunca mostra o menino resolvendo as suas vontades sexuais, exemplificando um sentimento de frustração intrínseco a sua mente, porque não importa quantas casas forem roubadas, quantas pessoas forem mortas, a ingênua incompletude é tudo o que resta para o garoto, nem se preocupando em esconder a arma de um crime. Uma inocência que intensifica o processo de conciliação ácida do espectador com o personagem, que não o rejeita completamente, entretanto, entra nas suas artimanhas sedutoras. O interesse do cineasta é justamente na sedução do público. Quanto mais perdido, mais imprevisível, menos respostas para perguntas. A ação por si só que permanece. Como um acontecimento rotineiro, a primeira morte é encarada de uma maneira abrupta, contudo, conduzida com uma atenção diferenciada. O tom não é destruído, porém, transforma-se, devido o cuidado com que os personagens se envolvem com o crime inesperado. A parcimônia não retira o espectador de cena, em oposição, o imerge.

Uma resposta para o desvio de caráter? A criação dos pais fora equivocada? O encerramento do longa-metragem apresenta ainda mais questões interessantes de serem abordadas, porque, aparentemente, não podemos viver em um mundo com anjos do mal. O personagem principal em questão incorpora consigo uma das construções de psicológico mais sensacionais vistas nos últimos anos, representando uma juventude frustada e perdida. A sociopatia inerente ao personagem é um desvio delineado perfeitamente pelo roteiro e pela direção, tensionando o espectador em todos os momentos que o personagem está com uma arma na mão. O personagem está apenas a procura de uma justificativa para matar, assim como encontrou uma justificativa para roubar indiscriminadamente, sem remorsos. “Você acha que uma pessoa normal faria tudo isso?”, questiona um policial, ao passo que o protagonista responde positivamente à questão. O cineasta argentino joga com o espectador, fazendo-o se deliciar com as desventuras de uma vida criminosa, mas nem um pouco glamourosa. A satisfação do personagem com o crime é a mesma satisfação do espectador com sangue em cena, com o crime transformado em espetáculo cinematográfico.

O Anjo (El Angel) – Argentina, 2018
Diretor: Luis Ortega
Roteiro: Sergio Olguín, Luis Ortega, Rodolfo Palacios
Elenco: Lorenzo Ferro, Chino Darín, Daniel Fanego, Mercedes Morán, Cecilia Roth
Duração: 118 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.