Crítica | O Anjo Exterminador

estrelas 5

Aqui estamos nós! Eles ali chegando! Olhai os bichos acossados pela miséria! Vejam como ela os força a descer! Vejam como eles vem descendo! Daqui ninguém volta: aqui estamos nós! Bem-vindos! Bem-vindos! Bem-vindos! Bem-vindos cá embaixo entre nós!

Bertold Brecht

Se em Viridiana, Buñuel dessacralizou a beatice e a caridade, instaurando a desvirtude através da apostasia, em O Anjo Exterminador (1962), o cineasta traria a desvirtude à aristocracia. Neste filme, Buñuel despe a alta classe de seu “discreto charme”, retira a pompa da ocasião em que se reúnem, arranca as etiquetas, expele as verdadeiras personalidades de cada um, e ainda critica a igreja, na sequência final do filme, quando a polícia abre fogo contra a multidão na praça e um bando de ovelhas entram na casa de Deus: providência divina de alimento para os que ali permaneceriam trancados ou metáfora da união fascismo-igreja?

Eis a trama de O Anjo Exterminador: uma festa de gala é oferecida na mansão de um rico casal. Os convidados e os anfitriões acabam de chegar de uma audição de Lucia de Lammermoor, de Donizetti. As horas se passam, e quando os convidados preparam-se para despedir-se, algo estranho acontece: ninguém consegue transpor os umbrais da sala ou entrar na mansão – vê-se aqui um alusão ao episódio do extermínio dos primogênitos do Egito, narrado nos capítulo 11 e 12 do livro de Êxodo, no Antigo Testamento.

Os dias se passam com as pessoas trancadas na sala. Ninguém consegue manter uma aparência social aceitável por tanto tempo e então as máscaras pessoais caem. A desvirtude de Buñuel está instaurada.

O tema religioso, ao contrário do que muita gente pensa, não é o motivo principal desta obra. A religião aqui é apenas mais uma obrigação social a ser cumprida pelos aristocratas e artistas. Na realidade, todos pretendem pavonear seus corpos e seu intelecto, exibir felicidade e saúde, fingir ser o que não são. Mas o sortilégio exterminador tem outros planos para esse jantar na Rua da Providência (um nome irônico para o que vemos acontecer com esses pobres coitados).

No início da obra, ouvimos um oratório, e no final, o badalar dos sinos da igreja que recebe as ovelhas desesperadas: último refúgio do falso cristão? Lobos fascistas ou burgueses vestidos em pele de cordeiro? População alienada que corre para sua dose de ópio (Marx) enquanto a polícia atira, na praça? A pergunta não cala: o que significa a cena final de O Anjo Exterminador?

A “noite da verdade” que constitui a primeira parte do filme, já começa de modo estranho. Antes mesmo da chegada dos convidados, os empregados sentem uma necessidade imperiosa de sair da casa. O prato principal da noite é derrubado pelo garçom e ninguém come o jantar. Famintos, os convidados passam à sala para uma sonata de Paradisi executada ao piano. Mais tarde, a repetição desse momento será a chave para o fim do sortilégio.

O Anjo Buñuel extermina a falsa moral e as aparências. Maçons, feiticeiras, histéricas e doentes terminais dividem o espaço com um morto, um casal suicida, um pervertido sexual… A tão estampada virtude burguesa é aniquilada. Por fim, o Anjo abre as portas da casa para fechá-las novamente, na igreja. Padres e fiéis encurralados pelo Anjo Buñuel, que exige-lhes uma vida autêntica. Fora das portas do templo, o extermínio prossegue, mas não pelas mãos do Anjo, que repudia a política da força e da repressão. O resultado dessa segunda fase de revelações de personalidades nem a câmera de Buñuel tem estômago de esperar pra ver.

O Anjo Exterminador (El Ángel Exterminador) – México, 1962
Direção: Luis Buñuel
Roteiro: Luis Buñuel
Elenco: Silvia Pinal, Enrique Rambal, Claudio Brook, José Baviera, Augusto Benedico, Antonio Bravo, Jacqueline Andere, César del Campo, Rosa Elena Durgel, Lucy Gallardo
Duração: 95 minutos

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.