Crítica | O Ano Mais Violento

estrelas 5,0

Mesmo o ser humano mais inofensivo, quando pressionado ao seu extremo, é capaz de atos aos quais para ele, antes, talvez fossem impensáveis, porque talvez não haja quem resista ao abalo da realidade que se construiu ou que se constrói para si próprio. Essa, aparentemente, é a tese defendida em O Ano mais Violento. Tese batida ao extremo, é verdade, embora nosso tempo não canse de revigorá-la, seja como expressão artística ou a partir de como se faz a visão de um mundo inseguro e paranoico, cujo marco simbólico é tão atribuído ao 11 de setembro.

Por esse viés, não parece surpresa que o filme situe sua trama em plena Nova Iorque, porém em 1981, quando as torres gêmeas emanariam por mais vinte anos sua imponência e poderio a Big Apple, mas também passavam a ser a extensão de um cenário então corrupto, violento acima da média e incerto quanto ao futuro de muitas de suas partes – período perfeitamente interpretável como vulgo prelúdio. Nesse contexto, se explorar o ser humano num ambiente em crise não é novidade para o cinema e demais segmentos narrativos, evidenciar tão claramente a dependência de no mínimo um personagem à sua concepção de vida ideal certamente encerra, afinal, uma proposta bem mais original.

Vemos tão bem essa dependência na figura de Abel Morales (Oscar Isaac), um imigrante que, vivendo com sua mulher e filhos pequenos na violenta Nova Iorque, comanda uma empresa de combustíveis que herdou do sogro. Só que ele quer mais, tudo pelo chamado “sonho americano”. Morales quer adquirir uma propriedade abeira de um rio para armazenar seu produto, assim facilitando o recebimento da carga e permitindo que lucre com a venda do material estando o seu mercado em alta ou em baixa, graças à grande quantidade estocada da substância. O problema começa quando o clima caótico vigente se abate sobre o seu negócio e sua família: seus caminhoneiros são atacados e caminhões, roubados, sua empresa é investigada pelas autoridades sob a acusações vigentes de ilegalidade e até sua casa passa a sofrer invasões e outras hostilidades.

Morales nos é apresentado como um homem íntegro, orgulhoso, que claramente vê no capitalismo um sistema excludente, mas pensa ter de se adaptar a ele com o máximo de honestidade aos seus funcionários e contratantes. Conforme a tensão aumenta, contudo, o limite da sua declarada integralidade será testado, bem como o limite dos mais próximos a ele. A grande questão do longa é a dúvida entre a influência de um ambiente externo ou de nossa mera fraqueza interior sobre a manutenção ou perda da nossa moralidade. Questão muito bem sintetizada, por exemplo, num episódio envolvendo o atropelamento de um veado por Morales. A atmosfera do longa é muito bem construída, sempre sombria, com um cunho dramático que se estende do meio familiar ao político, social e econômico e à óbvia relação entre todos esses segmentos, num ritmo narrativo que, se por vezes parece arrastado, só faz crescer constantemente a tenção e a incerteza – impossível, nessa construção narrativa, não observar muitas semelhanças com aquela adotada na trilogia O Poderoso Chefão.

Tal como nesse clássico, atuações também não deixam a desejar – dadas, é claro, as devidas proporções. Oscar Isaac cativa desde o começo com uma frieza aparente, contrastante com seu moralismo e sua determinação, e Jessica Chastain cai como uma luva no papel de Anna, a impaciente e impulsiva esposa de Morales – o casal protagoniza diálogos realmente intensos. Também vale observar a preocupação do filme em retratar a atribuição humana de valores específicos para o que julga valioso e digno de proteção independente do juízo alheio, como vemos em certa cena envolvendo presentes de aniversário. A trilha sonora de Alex Ebert é ótima, dialogando perfeitamente com o tom obscuro e tenso da obra, sabendo ausentar-se e apresentar-se, de modo discreto a intenso, com grande precisão – outro fator de semelhança inegável, em dados momentos, com o contido na referida trilogia clássica, salve o aparente emprego da trombeta e a própria melodia tocada pelo instrumento.

Resultado: O Ano mais Violento é um trabalho de primeira linha, tecnicamente competente, com um roteiro minucioso e belas atuações. Com um falso final, a partir do qual se precipita um terceiro ato poderoso e perturbador, questiona o poder do meio sobre o fim. Terceiro trabalho assinado por J. C. Chandor, que dirigiu o promissor Margin Call – O Ano Antes do Fim e o mais maduro Até o Fim (não, o segundo não continua a história do primeiro ), agora legitima sua evolução com um projeto redondo em sua estrutura, e podemos esperar mais grandes coisas de sua autoria.

O Ano Mais Violento (A Most Violent Year – EUA, 2014)
Direção: J. C. Chandor
Roteiro: J. C. Chandor
Elenco: Oscar Isaac, Jessica Chastain, David Oyelowo, Alessandro Nivola, Albert Brooks, Elyes Gabel, Catalina Sandino Moreno, Peter Gerety, Christopher Abbott, Ashley Williams
Duração: 125 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.