Crítica | O Assassinato de Gianni Versace: American Crime Story – 2ª Temporada

  • Leia, aqui, a crítica da temporada anterior.

O terreno da psicopatia é um espaço de muita elegância no bojo da indústria audiovisual. Diretores de fotografia, figurinistas e designers de produção, unidos aos roteiristas e diretores, constroem perfis psicóticos que, ao invés de nos causar repulsa, acabam revelando o quanto somos atraídos por estes personagens que, pasmem, estão mais presentes em nosso entorno do que podemos imaginar. Em sua maioria, os “monstros” são bonitos e atraentes, conseguem nos levar “no papo” e cativam “aquele” lado que talvez esteja em déficit no momento de contato. Ao passo que eles demonstram essas proezas, abrem espaço para o próximo nível, isto é, o “lado sombrio da Força”, seara da agonia, do desespero e das atitudes extremas para conseguir o que querem. Na história da humanidade, há vários desses. E a história do futuro fará o seu papel de catalogar os próximos passos dos pertencentes a este terreno ficcionalmente sedutor, mas perigosamente real.

O tema é o ponto nevrálgico da segunda temporada da antologia American Crime History, intitulada O Assassinato de Gianni Versace. A versão anterior, focada no midiático julgamento de O. J. Simpson arrebatou vários prêmios e conquistou o público e a crítica, o que abriu espaço para esta segunda incursão. Tendo como base o livro Vulgar Favors: Andrew Cunanan, Gianni Versace and the Largest Failed Manhunt in U. S. History, de Maureen Orth, a série trafega entre situações verídicas e material ficcional, afinal, não é um documentário focado no mito da imparcialidade dos relatos. O que temos aqui é ficção. E das boas. Para os que vão assistir pensando ser Versace o foco central, engana-se, adianto. A estrela aqui é o narcisista, mitômano, arrivista e violento Andrew Cunanan, interpretado com muito talento por Darren Cris.

Andrew é um rapaz com passado cheio de cicatrizes, praticamente como a maioria dos homossexuais mergulhados em seus respectivos históricos de opressão, bullying e outras celeumas oriundas de uma sociedade calcada na “heteronormatividade”. Ele desenvolve uma obsessão pelo estilista Gianni Versace (Édgar Ramírez), o seu último alvo numa lista de cinco assassinatos realizados com extrema violência. Certo dia, enquanto caminhava para casa após comprar o jornal, o estilista foi surpreendido em frente à sua mansão, alvejado por dois tiros fatais. Vítima da psicopatia de Andrew, o estilista vivia um momento de crise, principalmente na relação com a sua irmã, Donatella Versace (Penélope Cruz) e as certezas e incertezas do relacionamento aberto com Antonio D’Amico (Ricky Martin). Andrew, construído pelo roteiro como um personagem invejoso, irado com as conquistas materiais de outras pessoas, não conseguia lidar com nada que estivesse fora do seu alcance. Bastava a sua vontade não ser respeitada, correspondida, para que o “monstro” interior ganhasse projeção, eliminando vidas quando necessário.

Focado mais em Andrew que em Versace, a série é oportunista ao trazer o nome do estilista. Ou talvez tenha a pretensão de nos dar uma “rasteira” enquanto espectadores interessados em caminhar os mesmos passos da vida repleta de luxo, sexo e celebridades, o estereótipo da personagem midiática. Ao contrário, há episódios em que o estilista sequer aparece, principalmente quando o foco dramático é adensar nas necessidades dramáticas de Andrew, em uma tentativa de compreender suas motivações. Cabe ressaltar, como dito, que, antes de Versace, Andrew Cunanan assassinara outras pessoas, deixando um extenso rastro de sangue, dor e luto, crimes que, inclusive, ganham maior projeção e análise que a morte do estilista parte do título da temporada.

A família Versace divulgou notas na imprensa alegando que a série deve ser pensada apenas como ficção, pois os relatos não batem com o que eles dizem ser “real”. O criador da série Ryan Murphy se defendeu, apontando que o seu material é inspirado em um livro bem recebido há duas décadas e ainda explicou que a família está sendo retratada de forma positiva. Há informações de satisfação no desempenho de Penélope Cruz da própria Donatella Versace, irmã do estilista que diria estar satisfeita com a sua personagem na série, delineada como um modelo feminino positivo. Polêmicas à parte (sem deixar de lembrar que elas tornam tudo mais midiático do que a “publicidade institucional”), O Assassinato de Gianni Versace vai além da pura fofoca dos tabloides e traça um dos perfis mais instigantes dos últimos anos, um destaque, haja vista a quantidade de produções sobre psicopatas disponíveis para consumo.

Os méritos da série trafegam pelo contextual e estético. O que se vestia, ouvia e cultuava em Miami pode ser visto na eficiente reconstrução de época. O contextual dialoga com os elementos estéticos graças ao belo trabalho dos designers de produção e da montagem que transforma alguns momentos musicais “quase” em pequenos videoclipes. Em um dos primeiros episódios, Andrew dança ao som de “Easy Lover”, de Phil Collins, e nos mostra um desempenho fascinante, algo que deságua em vários momentos posteriores. Com todos os clássicos modernos que o leitor possa imaginar, a câmera passeia pelos espaços, captando o que pode e radiografa com eficiência os anos 1990. É um trunfo dos grandes da série, sabe?

Tal como os diversos produtos culturais sobre psicopatas, a série investe bastante na construção do seu “monstro”, um ser que deveria surgir de forma repulsiva, mas que nas lentes da produção, dialoga com todo vocabulário em torno da “sedução”. Ele é atraente, charmoso, bonito, inteligente, mas extremamente perigoso. Uma espécie de Hannibal Lecter contemporâneo, salvas (e bem guardadas) as devidas proporções comparativas, caro leitor. Se você é fascinado em histórias macabras e misteriosas, tenha certeza que o mergulho na série será bastante proveitoso. Basta esquecer alguns ruídos narrativos, completar algumas peças do quebra-cabeça você mesmo e consumir sem culpa cada minuto dos nove episódios. Mergulhe, mas não se esqueça de retornar para nos comentar as suas impressões, tudo bem?

O Assassinato de Gianni Versace: American Crime Story (The Assassination of Gianni Versace, EUA – 2018)
Showrunner:  Ryan Murphy
Direção: Ryan Murphy, Nelson Cragg, Gwyneth Horder-Payton, Daniel Minahan, Matt Bomer
Roteiro: Tom Rob Smith, Maggie Cohn (baseado em obra de Maureen Orth)
Elenco: Édgar Ramírez, Darren Criss, Ricky Martin, Penélope Cruz, Judith Light, Aimee Mann, Finn Wittrock, Joanna P. Adler, Joe Adler, Annaleigh Ashford, Will Chase, Giovanni Cirfiera, Mike Farrell, Jay R. Ferguson, Cody Fern, Ricky Martin
Duração: 50 min (cada episódio – 9 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.