Crítica | O Ato de Matar

estrelas 4

É muito difícil escrever sobre O Ato de Matar. O documentário, dirigido por Joshua Oppenheimer em colaboração com Christine Cynn e um indonésio anônimo, aborda, de certa forma, o mesmo tipo de massacre que A Imagem que Falta abordou. Enquanto o filme de Rithy Panh conta de forma lírica sobre o massacre da população cambojana, na década de 70, sob o regime comunista de Pol Pot, O Ato de Matar nos conta o massacre dos comunistas pelo governo de ultra-direita de Suharto, depois do golpe de estado que derrubou Sukarno, em 1965.

A dificuldade de escrever sobre esse documentário está na sua forma técnica, que contrasta fortemente com seu resultado prático. Não entendeu? É porque é realmente complicado explicar a ambiguidade que senti ao acabar de assistir e digerir essa obra.

Vamos, então, começar do começo.

A proposta é brilhante. Dois executores, Anwar Congo e Adi Zulkadry, responsáveis diretos por centenas de torturas, estupros e assassinatos em Sumatra do Norte, e que andam livremente pelo país e, pior, são festejados como patriotas e heróis, são recrutados pela produção para reencenar, da maneira que bem entendessem as execuções que perpetraram na década de 60.

Sem qualquer tipo de freio na criatividade dos dois, Congo e Zulkadry partem para fazer o que querem em termos “artísticos”: um filme no estilo noir e um musical multicolorido são os resultados mais palpáveis dessa proposta. Mas o objetivo, claro, era usar a premissa para fazer com que os dois revisitassem o passado e os assassinatos em massa pelos quais foram responsáveis.

Com esse ponto de partida fascinante, os diretores se perdem completamente em sua narrativa. Apesar de a história começar com Congo e Zulkadry, ela logo larga Zulkadry completamente de lado, passando a focar apenas em Congo e em uma figura asquerosa chamada Herman Koto. Fica a dúvida se Koto participou do massacre entre 1965 e 1966 e apenas sua idade – ele era muito jovem à época – revela que, na verdade, ele não é muito mais do que um admirador doentio de Congo que adora se vestir de Carmen Miranda. No entanto, cabe ao espectador se virar para deduzir isso, pois a montagem falha só atrapalha.

Dá para entender porque as câmeras de Oppenheimer e seus co-diretores se viraram para Koto, mas não dá para aceitar que o corte final seja tão amador ao ponto de perder seu objetivo nos primeiros minutos e nunca mais voltar ao foco até o final da projeção. As reencenações laboriosas criadas por Koto é que dão “cor” ao filme, por mais nojento que seja a glorificação do mal encarnado, mas não ajudam muito em criar um norte na narrativa mal-ajambrada.

Nesse ponto – o da banalização do mal – é que o filme se torna muito difícil de se assistir. Congo, Koto e, de certa forma, Zulkadry, estão felizes e se divertindo com o trabalho a eles encomendado. Vão à televisão falar sobre seu trabalho, recebem a visita do Ministro dos Esportes da Indonésia no set de filmagens. Não há sinal de arrependimento, muito ao contrário, na verdade.

Mas esse aspecto fica muito claro logo no início, nos primeiro 30 minutos. O que vemos na hora seguinte é uma repetição monocórdia do tema principal que não nos leva a lugar nenhum. Ficamos enjoados com a atitude insensível desses animais que se acham membros da raça humana, mas não conseguimos ir muito além disso em razão de um trabalho simplista e equivocado dos diretores.

No entanto, na meia hora final, algo inesperado começa a ocorrer. Falar sobre o que acontece é absolutamente inevitável, mas, se o leitor ainda não assistiu ao filme, sugiro fortemente que pare de ler, assista e, depois, volte aqui. Haverá, a partir do próximo parágrafo, muitos SPOILERS.

Entendido? Há SPOILERS adiante e, mesmo que você considere que um “documentário” não pode ter SPOILERS, garanto que esse tem e o que acontece funciona como a virada completa na narrativa e é o que gerou minha dificuldade em escrever sobre o O Ato de Matar.

Mostrando o poder do documentário e, também, da confrontação psicológica dos demônios do passado, os diretores acabam conseguindo um efeito que, tenho para mim, era completamente inesperado para eles. Anwar Congo começa a ser fortemente afetado pelo que é obrigado a relembrar e uma certa purgação dos pecados passa a ocorrer.

O primeiro sinal dessa virada psicológica vem quando Congo, atuando como vítima de tortura em um ambiente que tenta evocar os filmes noir, está para ser “enforcado” com arame por Koto. Um profundo silêncio se abate sobre ele e seus olhos se fecham, suas mãos tremem e ele para completamente de se mexer, como se morto estivesse. Encenação? É Koto sendo esperto ao entender o propósito de Oppenheimer e fazendo exatamente o que é esperado dele de forma que o espectador tenha alguma “simpatia” pelo monstro? Não descartaria a hipótese completamente, ainda que Koto tivesse que ser um excelente ator para isso.

Mas o primeiro sinal se expande para o momento em que, pela segunda vez – e dessa vez sozinho – Congo leva o cinegrafista para o pátio onde cometia suas atrocidades. Ele começa a fazer sons terríveis como se fosse vomitar, com fortes contrações de sua garganta no começo e, depois, basicamente do corpo todo. Mais encenação? Tenho minhas dúvidas. Parece-me – e eu prefiro acreditar nessa hipótese, pois não é possível que Congo não tenha sequer um traço de humanidade – verdadeiramente um ato involuntário do assassino relembrando seu passado e passando mal com isso. É um momento cinematográfico raro. Mesmo não ouvindo qualquer semblante de um pedido de desculpas, mesmo que nenhuma lágrima seja vertida, a impressão que dá é que os fantasmas voltam para assombrar – merecidamente – esse ser bípede que me faz ter vergonha de ser humano.

Com esse surpreendente final, O Ato de Matar quase consegue completa absolvição por seus pecados técnicos. Apesar de ser difícil de assistir e mais difícil ainda escrever sobre o documentário, ele é essencial, obrigatório, assim como é A Imagem de Falta.

O Ato de Matar (The Act of Killing, Dinamarca/Noruega/Reino Unido – 2012)
Direção: Joshua Oppenheimer, Christine Cynn, Anônimo
Elenco: Anwar Congo, Adi Zulkadry, Herman Koto, Syamsul Arifin, Ibrahim Sinik, Yapto Soerjosoemarno, Soaduon Siregar, Syryono, Sakhyan Asmara
Duração: 115 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.