Crítica | O Autor (2017)

A escrita pode ser um ato bastante ingrato quando não nos encontramos dispostos e fluentes. O cinema, ciente disso, há tempos percebeu que o processo criativo pode gerar conflitos interessantes em narrativas metalinguísticas. Kubrick gerencia bem o desempenho dramático de Jack Nicholson em O Iluminado, ao nos apresentar um escritor atormentado por seu bloqueio criativo, situação que também acomete o personagem de Nicolas Cage em Adaptação, produção complexa e bastante filosófica de Charlie Kaufman. Woody Allen nos divertiu e emocionou com o escritor que “nasceu na época errada” em Meia-Noite em Paris e Kathy Bates assustou plateias como a leitora que pressiona o seu escritor favorito por meio de estratégias nada ortodoxas no sufocante Louca Obsessão.

Como o leitor pode observar, o processo de escrita, em especial, a realização de obras ficcionais, já foi tema de diversas produções cinematográficas e televisivas, enredos que utilizam o bloqueio e outros obstáculos do processo criativo como conflito e estratégia narrativa. Para debater sobre o assunto, dialogaríamos aqui com Nine, Crepúsculo dos Deuses, Barton Fink – Delírios de Hollywood, Dentro de Casa, Quando Paris Alucina, Histórias de Amor Duram Apenas 90 minutos, etc. A lista é grandiosa, mas ficaremos apenas com a análise do espanhol O Autor, dirigido por Manuel Martin Cuenca. Mesmo com a sua lista de irregularidades narrativas, o filme nos permite refletir sobre o processo de criação literária com algum didatismo, o que não anula por completo a experiência do espectador.

O tema é a dificuldade de escrever diante de um bloqueio. A questão nos leva a pensar: mas, afinal, escrever é um ato de iluminação divina ou a sistematização da arte? Edgar Allan Poe já discutiu com maestria essa polêmica no elucidativo A Filosofia da Composição, ensaio sobre o processo criativo do poema O Corvo. Conforme seu ponto de vista, a escrita é mais “trabalho duro” e menos a “genialidade” que muitas apregoam pelas fronteiras imprecisas do campo da literatura. Ao passo que O Autor avança e se preocupa em driblar os conflitos gerados pelo roteiro de Alejandro Hernández e Manuel Martin Cuenca, baseados na novela de Javier Cercos, a ideia de “trabalho” ganha inicialmente contornos no mínimo curiosos, para no desfecho dialogar com decisões extremas de seu personagem protagonista.

Para contar a história, Cuenca conta com a cuidadosa direção de fotografia de Paul Esteves Birba, setor que dialoga de maneira eficiente com a direção de arte de Sonia Nolla, ambos em perspectiva para construir os aspectos visuais e psicológicos do protagonista Álvaro (Javier Gutiérrez), um advogado que trabalha num cartório e leva uma vida mediana. Diariamente convive com um falastrão colega de trabalho, com um chefe tirano e com a esposa bem sucedida, escritora do que o protagonista considera literatura de massa, barata, best-seller, algo que supostamente é de baixo valor estético.

Premiada, a esposa goza de privilégios enquanto o marido tenta escrever e não consegue. Ele, entretanto, possui uma desculpa para o problema. Seu interesse é escrever uma obra-prima, uma produção da alta literatura, não um romance qualquer adornado por personagens rasos e soluções fáceis. A pergunta que mais o aflige é sobre o seu talento. “Será que tenho talento para a escrita”? Após se questionar e ser questionado pelo professor durante uma aula, melhor trecho do filme, por sinal, Álvaro começa a sua cruzada em busca de uma boa história.

Seu conflito ganha maior intensidade depois que flagra a esposa numa relação sexual pouco convencional. Arrasado, sai de casa, afasta-se do trabalho e vai para um apartamento se isolar para fermentar o processo criativo. Na tal aula citada anteriormente, leva a maior bronca do professor por escrever uma história vazia com personagens que parecem fruto da literatura de massa que ele tanto quer distância. Seu professor discute questões sobre o processo de escrita e ironiza os estereótipos comuns de muitos manuais que regem regras fixas. Como conselho, o docente pede que Álvaro observe a realidade, as coisas que gravitam em torno da sua existência.

O protagonista, então, segue ao pé da letra as sugestões. Torna-se amigo da síndica infeliz (Adelfa Calvo) e por meio do voyeurismo, analisa a vida alheia e passar a desenvolver a sua história. Ao manipular a vida das pessoas, em especial, um casal de imigrantes mexicanos e um idoso interessado em xadrez, Álvaro esboço e dá vazão ao seu plano de escrita, mas como é de se esperar, os acontecimentos desdobram-se erroneamente (ou acertadamente, a depender do ponto de vista) e o projeto ganha rumos totalmente inesperados.

Importante ressaltar que O Autor parte de uma premissa intrigante, mas se perde ao alongar demais a história, fechando em 112 minutos uma história que poderia ser bem contada em 90. O final “absurdo” é parte integrante de um pacote de figuras de linguagens e suspensão relativa da crença por parte do espectador. A mensagem é clara: para conseguir atender aos seus anseios criativos, um escritor pode ultrapassar todos os limites possíveis. Hemingway, como descreve o professor de escrita criativa de Álvaro, ficava nu diante da mesa, no aguardo das ideias bloqueadas pela mente em processo de sabotagem intelectual. Neste filme, o protagonista é levado ao extremo para conseguir dar conta do seu projeto.

O Autor nos faz refletir sobre as possibilidades e impossibilidades na tarefa de sistematizar um processo que está ligado ao fazer artístico. Os especialistas reforçam sempre que é preciso engenhosidade e inovação, bem como o conhecimento profundo das regras básicas narrativas para quebrá-las em prol do estilo próprio de um escritor. Há quem sugira lembretes; a leitura de outros autores, principalmente os consagrados, antes de começar a escrever; o uso de uma fotografia para aguçar a curiosidade; a escrita a mão, juntamente com marcadores de texto, antes de esboçar qualquer coisa no computador; até mesmo experimentar a escrita em horários diferentes do dia, tendo em vista descobrir qual o momento mais adequado para colocar em prática o jogo de criação de personagens e histórias.

No geral, esses filmes refletem sobre a elaboração de “criaturas” que entram em nossas vidas durante alguns instantes de projeção. Algumas ficam mais algum tempo, como uma boa cena obrigatória de um roteiro, outras passam ligeiro, apressadas e sem preenchimento suficiente para manterem-se relevantes depois que a narrativa acaba. Álvaro é um personagem interessante, esférico e bem delineado, mas infelizmente não teve a chance de se desenvolver no filme “certo”, relegado a sair em “busca de um autor” com, talvez, a sagacidade de Pirandello ou a astúcia de Nelson Rodrigues.

O Autor (El Autor/Espanha, 2017)
Direção: Manuel Martin Cuenca
Roteiro: Alejandro Hernández, Manuel Martin Cuenca, Javier Cercos
Elenco: Javier Gutiérrez, Adelfa Calvo, Antonio de la Torre, Maria León, Adriana Paz, Tenoch Huerta, Alberto González, José Carlos Carmona, José Chaves, Amanuel Cadaval
Duração: 112 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.