Crítica | O Balão Branco

estrelas 4

Antes de dirigir O Balão Branco (1995), Jafar Panahi já tinha três curtas e um documentário média-metragem chamado Kish, de 1991, no currículo. Mas foi a partir deste presente longa de 1995 que ele ganhou representatividade internacional, acumulando prêmios e elogios ao redor do mundo e construindo uma filmografia sólida, de tendência realista, fortemente inspirada no neorrealismo italiano em sua estética e abordagem sociológica, garantindo lugar no panteão do Novo Cinema Iraniano — ou neorrealismo iraniano como alguns críticos, jornalistas e estudiosos eventualmente chamam.

O roteiro do filme, baseado em uma ideia do próprio Panahi e de Parviz Shahbazi, foi escrito por Abbas Kiarostami, outro importante cineasta iraniano que usou de sua larga experiência e sensibilidade para trabalhar com crianças e criou uma história familiar, urbana e terna onde uma garotinha chamada Razieh passa por dissabores infantis envolvendo dinheiro e um peixe dourado que ela queria comprar para o Noruz (o Ano-Novo do calendário persa, que é o primeiro dia da primavera). Aqui aprende que para se sentir angustiado e chocado com alguma coisa não é preciso que haja violência, sangue ou explosões, basta a premissa e o clima dramático certos para que esse incômodo venha à tona, e é justamente isso que o roteiro de Kiarostami faz: consegue achar o ponto certo para desenvolver uma historia que nos deixa muito apreensivos.

E tudo é muito, muito simples. Por se tratar de uma obra com pouco dinheiro para produção e proposta simples de execução, o público acha de imediato a essência da obra — os sentimentos, a história — e passa a olhar para esse aspecto do filme com uma simpatia além do normal. Em pouco tempo estamos afeiçoados a Razieh e juntamente com ela sentimos todos os problemas, o aproveitamento de sua inocência e o desejo cada vez mais ardente de ter o peixinho dourado para o Ano-Novo. É como se o texto, a ternura das interpretações e a forma como o diretor foi adicionando coadjuvantes à história — todos atendendo ou se afastando do “pequeno grande problema” da garota –, servissem de base para tornar a película ainda mais forte, humana, cheia de solidariedade e individualismo por parte dos que estavam à volta de Razieh, tal como na vida real.

Há quem se incomode com a falta de exploração dos coadjuvantes ou com o foco principal em uma criança e a passagem real do tempo, mas nenhuma dessas escolhas atrapalham o aproveitamento da obra. O filme perde um pouco por estender algumas cenas um pouco mais do que deveria, mas ainda assim, estamos diante de uma espera, de uma busca que por sua duração, vai provar para nós a perseverança da garota, a união com o irmão para encontrar o que deseja e, por fim, a aceitação de uma ajuda inesperada vinda de um garoto afegão que vende balões e, ao final, quando traz a resolução para o problema, carrega um balão branco, simbolismo que para quem conhece um pouco a situação geopolítica do Oriente Médio vem em boa hora e trazendo boas-novas, quase uma ironia de criança para um assunto sério, algo bastante recorrente nos textos de Kiarostami.

Jafar Panahi realiza um filme em tempo real que é capaz de deixar qualquer espectador feliz, após largos minutos de agonia tendo como base algo relativamente simples, corriqueiro, afinal, quem nunca perdeu dinheiro quando criança ou quem nunca fez outras coisas ao invés de cumprir uma ordem paterna ou materna para ir comprar algo e voltar rápido para casa? Essa relação com uma experiência também possível para o espectador torna o filme ainda mais forte e dada a simplicidade de sua cinematografia e precisão de sua direção, quase transporta a plateia para a infância, à espera do resgate de uma nota perdida e da compra de um almejado peixe dourado para o Ano-Novo. Maior ternura que isso, impossível.

O Balão Branco (Badkonake sefid) — Irã, 1995
Direção: Jafar Panahi
Roteiro: Abbas Kiarostami (baseado em uma ideia de Jafar Panahi e Parviz Shahbazi).
Elenco: Aida Mohammadkhani, Mohsen Kafili, Fereshteh Sadre Orafaiy, Anna Borkowska, Mohammad Shahani, Mohammed Bakhtiar, Aliasghar Smadi, Hamidreza Tahery
Duração: 88 minutos

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.