Crítica | O Balconista (1994)

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estrelas 3,5

Filmado na loja onde o próprio Kevin Smith trabalhava na época, O Balconista (1994), que marcou a estreia de Smith atrás das câmeras (em longas, porque ele já tinha feito um curta dois anos antes), foi um inteligente golpe nerd de poucos recursos que catapultou sua carreira. A principal história da produção já é uma lenda conhecida do grande público: sem dinheiro para bancar a produção, o diretor precisou vender uma parte considerável de sua coleção de quadrinhos e depois do sucesso inesperado de O Balconista, voltou à mesma loja para comprar o que desse de volta.

A inspiração de Smith para estruturar o roteiro foi A Divina Comédia, que vemos surgir como referência em diversas partes do longa, do nome do protagonista, Dante (Brian O’Halloran) até a divisão em “capítulos”, cada um representando um dos “círculos do inferno” pelo qual o personagem passa ao longo do dia. Da abertura da loja onde ele é um balconista até o fechamento, há tanta coisa acontecendo e tanta loucura a ser considerada, que não é difícil entender por que o filme chamou tanto a atenção do público jovem. É justamente a história de muitas coisas erradas acontecendo em um curtíssimo espaço de tempo e de dois jovens protagonistas lidando com essas situações de manerias igualmente hilárias que aproxima o espectador do enredo, quase fazendo dele também um personagem.

O outro motivo, claro, é a forma. Filmado em preto e branco e claramente com o mínimo de recursos possíveis, O Balconista se destaca pela semelhança com o “mundo real”, com suas personalidades estranhas, os maus hábitos, a sujeira e mal atendimento de alguns estabelecimentos comerciais ou as muitas bizarrices que acompanham determinados relacionamentos, tudo isso entrecortado por uma trilha sonora com rock indie/punk e hip hop. Os diálogos desbocados, as manias sexuais e acontecimentos dadaístas mesclados de humor negro se juntam a essa aparência de “filme de garagem” e mais uma vez dos deixa perguntando qual é a receita que faz com que esse tipo de formato (como também acontece com os found footage) atraia tanto.

Paradoxalmente, é neste mesmo ponto positivo que encontramos alguns erros, além, é claro, de estarmos falando do primeiro filme de um diretor, podendo se esperar, portanto, uma série de coisas ainda não lapidadas. A divisão em capítulos vem em primeiro lugar. Ela tem um bom simbolismo (a já citada referência à obra de Dante Alighieri), mas não é utilizada com o devido cuidado. Tampouco as divisões são pensadas como impulso para a narrativa, apenas para a separação entre os atos, de modo que a partir da quarta cartela, esperamos não haver mais tantas quebras de ritmo, pois elas atrapalham o andamento. Se olharmos mais a fundo, o corte final do filme quase exigiu do diretor essa separação, porque as horas passadas por Dante e seu amigo Randal (Jeff Anderson) no trabalho não são mostradas em boas elipses de tempo, logo, era preciso alguma coisa para fazer o pulo de longos minutos ou horas entre uma cena e outra.

Em um ponto de vista, foi uma saída “elegante”, porque não veio vazia de significado interno e externo. Em outro, faz do filme uma coleção de esquetes majoritariamente engraçadas, com um resultado final bom, mas uma percepção isolada um tanto problemática, principalmente do meio para o final, com destaque para a cena em que a dupla vai ao velório de uma antiga parceira de Dante.

No todo, podemos entender O Balconista como um desesperador e ao mesmo tempo engraçado grito de socorro. A trama se passa nos anos 90 e temos jovens se debatendo para conseguir dar algum significado para suas vidas e alternativas para os padrões nos quais estão inseridos. Sem perceberem, porém, eles acabam legitimando esses mesmos padrões em seu cotidiano, fazendo assim suas próprias prisões.

Desesperançados e o tempo inteiro agindo de maneira que os fazem se arrepender em curto espaço de tempo (notamos todos são inconsequentes e que não lidam bem com frustrações, embora nem todos exteriorizem isso), os amigos, interesses amorosos e conhecidos de O Balconista estão apenas “cumprindo a ordem do dia“. Até Randal, que parece ser o que menos se importa com toda a hierarquia e relações humanas e sociais ao seu redor, está preso ao ciclo e não consegue se livrar dele. Estava dado o início do View Askewniverse, um Universo onde os personagens jovens ou jovens-adultos exibem e discutem as suas próprias tragédias. Está aí uma grande diferença para com o mundo real.

O Balconista (Clerks) — EUA, 1994
Direção: Kevin Smith
Roetiro: Kevin Smith
Elenco: Kevin Smith, Brian O’Halloran, Jeff Anderson, Marilyn Ghigliotti, Lisa Spoonauer, Jason Mewes, Scott Mosier, Scott Schiaffo, Al Berkowitz, Walter Flanagan, Ed Hapstak, Lee Bendick, David Klein, Pattijean Csik, Ken Clark
Duração: 92 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.