Crítica | O Barba Ruiva (1965)

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Em icônica entrevista cedida a Donald Richie, Akira Kurosawa disse que concordava com as análises então feitas sobre o seu Barba Ruiva, quando apontavam que este longa era o “fim de uma Era” para ele. Foi o décimo sexto e último longa realizado com seu então amigo e — ao lado de Takashi Shimura –, ator favorito, Toshiro Mifune. Último filme preto e branco que assinaria. Último suspiro de claro humanismo na filmografia do diretor, que foi incisivo ao dizer que, com este filme, tinha dito tudo o que tinha para dizer nesta seara, e que em produções seguintes falaria de outras coisas, mostraria um outro lado de seu espírito, de sua visão de mundo (algo que também encontramos nas declarações de Teruyo Nogami em À Espera do Tempo – Filmando com Kurosawa). De O Barba Ruiva para frente, o Mestre se permitira experimentar ainda mais, investir em uma abordagem mais existencialista e numa maior desolação de seus personagens.

Ambientado no final do Período Edo (ou Tokugawa), na segunda metade do Século XIX, a presente película nos faz acompanhar o jovem e arrogante Doutor Noboru Yasumoto (Yûzô Kayama em uma abordagem sensível para o papel), designado para um hospital periférico que atendia pacientes pobres, local regido com mão de ferro pelo genial, mas de difícil trato, Dr. Niide, o Barba Ruiva (Toshiro Mifune, em uma interpretação com grande força, mesmo em seus poucos gestos e falas). Baseado em Os Contos do Dr. Barba Ruiva (Akahige Shinryōtan, 1958), de Shūgorō Yamamoto – ou Satomu Shimizu – o filme é uma lição de humildade, maturidade e entrega a uma causa, com forte dose de estoicismo e uma estrutura que não era comum para Kurosawa nem no roteiro com os pés fincados na emoção, nem na serpenteadora forma narrativa.

As filmagens de O Barba Ruiva duraram dois anos, e este realmente foi o grande motivo pelo qual Kurosawa e Mifune brigaram, gerando uma mágoa que infelizmente duraria pelo restante da vida dos dois artistas. Embora tivesse oportunidade para fazer cameos e pequenas aparições em filmes da Toho, coprodutora da fita junto à Kurosawa Production Co., o ator preferiu não fazer, para não sair da imersão em seu papel. Além disso, ele precisou deixar crescer e manter a barba ao longo de toda a filmagem, o que impedia que recebesse ofertas realmente importantes e que valessem uma possível participação. Diante dessa situação, Mifune começou a acumular dívidas altas, passando por um período de paupérrimas finanças, o que fazia com que ele apressasse Kurosawa para filmar logo as suas cenas — e daí, surgiram também divergências entre os dois, sobre a forma como o personagem deveria ser interpretado –, mas o diretor, que tinha o ator “preso” por um contrato, seguia o seu próprio ritmo e fazia valer a sua ideia final, com todo o detalhismo que lhe era típico. Ao fim da produção, ambos estavam extremamente desgastados e descontentes um com o outro, embora muito felizes com o filme que fizeram. Todavia, jamais voltariam trabalhar juntos e só voltariam a se falar 27 anos depois.

A exigência de Kurosawa para a construção do hospital e suas redondezas chegou ao ponto de ele exigir o “tipo certo de madeira envelhecida”, a mesma que teria sido usada na região no momento em que o filme é ambientado. A base arquitetônica pesquisada pelo diretor e pela engenharia de produção reproduz a Clínica Koishikawa, construída em 1722, um conceito retirado das plantas originais do projeto, tendo uma equipe especialmente designada por Kurosawa para fazer igual. A mesma coisa podemos dizer dos figurinos, muito importantes para a criação dos ambientes dramáticos — já que existe uma destacada representação de distintas classes sociais na película, sendo a vestimenta um dos grandes ícones de separação de pessoas na sociedade japonesa da época.

À medida que o filme avança, percebemos que o protagonista deixa pouco a pouco a vaidade de lado, entendendo a postura de seu tutor, o Dr. Niide, e cedendo às exigências do lugar. A insalubridade, o abandono infantil, a fome extrema, a proliferação de doenças, o estupro (inclusive de crianças) e uma porção de simbolismos de equilíbrio da vida e busca pela felicidade (abrindo novamente a janela do estoicismo) aparecem no filme e dão a oportunidade para o diretor fazer um pequeno estudo de personagem com todos eles. Ninguém passa pela obra sem ter o amparo necessário para capturar a atenção do espectador e ter justificada a sua presença no texto.

Há, no roteiro, uma grandiosa noção de pertencimento, noção que se transforma a olhos vistos e que podemos aplicar ao uso da maquiagem, à mudança de figurinos, às escolhas de ângulos do diretor para focar determinado personagem, à duração dos planos dependendo da situação e à aplicação de luz nos rostos ou nas cenas — a depender do estado de espírito do personagem. Lembrem-se como a luz muda de ato para ato toda vez que Otoyo, personagem da excelente Terumi Niki, aparece. Inicialmente, apenas um rastro de luz nos olhos e, aos poucos, com o rosto mais e mais iluminado, exposição acompanhada pelo fato de a personagem também começar a se expressar por palavras. A clínica do Barba Ruiva acaba se tornando um centro de concentração de diversas misérias humanas, todas servindo para que o arrogante Yasumoto retire delas uma lição. O mundo que ele vivia e o que ele esperava de sua profissão como médico não era nada realista. Ele imaginava os quartos luxuosas do Palácio do Shogun. Acabou conhecendo a verdadeira realidade dos hospitais e clínicas pelo Japão a fora.

Já vi acusarem O Barba Ruiva de “melodramático“. “Piegas“. “Exageradamente emotivo“. Ao longo de três horas, se um espectador só consegue exprimir esse tipo de juízo da camada sentimental trabalhada com rigor por Kurosawa, então dormiu, não prestou atenção, inverteu ou inventou conceitos a respeito do filme, porque nada disso encontra pé na realidade. A lágrima, a angústia, as tragédias que encontramos em Barba Ruiva são cruas e realistas, mostradas de maneira tão impecável pela câmera e com um uso tão sublime da trilha sonora (econômica e certeira), que nos toma de assalto e emociona. Mas em nenhum momento esse fator é gratuito, jogado a esmo ou posto ali apenas pelo capricho de impressionar e fazer chorar. Essas ações servem como indicações de crescimento. De encontro com um outro mundo para que uma grande lição de humildade e humanismo seja aprendida. Apenas na cena final, o texto se deixa levar por uma deslocada brincadeira — após um tanto deslocado casamento –, impedindo que a obra termine com a mesma grandeza com que começou e foi desenvolvida, mas ainda assim, se encontra entre as grandes produções do Mestre Kurosawa. Um filme que é um teste de coração. Se você não for tocado pela obra, com certeza está morto por dentro.

O Barba Ruiva (Akahige) — Japão, 1965
Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa, Masato Ide, Hideo Oguni, Ryûzô Kikushima (baseado na obra de Shûgorô Yamamoto)
Elenco: Toshirô Mifune, Yûzô Kayama, Tsutomu Yamazaki, Reiko Dan, Miyuki Kuwano, Kyôko Kagawa, Tatsuyoshi Ehara, Terumi Niki, Akemi Negishi, Yoshitaka Zushi, Yoshio Tsuchiya, Eijirô Tôno, Takashi Shimura, Chishû Ryû, Haruko Sugimura, Kinuyo Tanaka, Eijirô Yanagi, Kôji Mitsui, Nobuo Chiba, Kamatari Fujiwara
Direção: 185 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.