Crítica | O Bebê de Rosemary, de Ira Levin

estrelas 4

Desde o século XIII, época da modelação do ideal de infância, tais seres geralmente eram representações do divino, angelicais, principalmente se observadas pela ótica da Bíblia. No Antigo Testamento, tendo em vista testar a sua fé, Abraão decide sacrificar Isaac. Neste mesmo livro, a promessa de uma nova era surge através de um recém-nascido, Moisés, o homem do mar vermelho. O holocausto de Herodes e o embate entre Davi e Golias são outras alegorias. Ao pular para o século XX, a mudança é brusca. A Aldeia dos Amaldiçoados, de John Wydham, O Exorcista, de William Peter Blaty e As Crianças do Milharal, parte integrante do livro de um livro de contos de Stephen King, nos mostram as crianças numa perspectiva radicalmente distinta. O Bebê de Rosemary está dentro deste pacote.

No livro a vinda de uma nova criança está totalmente diferente das convenções supracitadas. Ao contrário, o bebê vem dentro de um pacote envolvendo bruxaria, práticas satanistas e baixa energia, numa narrativa excêntrica e cheia de momentos assustadores. Remete-nos ao interessante A Literatura e o Mal, de Georges Baitalle, livro que elenca temas associados ao mal na literatura, tais como as obras de Baudelaire, Emily Bronte e William Blake. Panteão do cânone literário que mais adiante, receberia, mesmos que de maneira menos sofisticada, os autores contemporâneos do terror, sendo Ira Levin um deles.

O livro nos apresenta a vida de Rosemary e o seu marido Guy. Eles vivem um momento aparentemente intenso na relação, menos no lado profissional, pois o moço está numa incessante busca por se firmar em sua carreira, mas a inexistente oferta de oportunidades lhe sabota constantemente. Certo dia eles decidem morar em Bramford, um local com preços geralmente exorbitantes, mas que naquele momento, está com uma vaga por preço ínfimo. Como sabemos morar num espaço novo nos faz mergulhar num mar de possibilidades em profusão. Novo lar, novos rumos. Assim parece ser inicialmente, já que duas novidades se estabelecem logo nos primeiros momentos.

Antes de excursionar pelas novidades, no entanto, cabe ressaltar que inicialmente Rosemary apresenta alguma resistência. Há ruídos estranhos durante a noite, o local grandioso, com dimensões e estilo vitoriano, habitado por moradores idosos e pouco amistosos, guarda uma longa e tenebrosa história de incidentes criminais envolvendo bruxaria, feitiçaria e demonismo.

Na chegada o casal é recepcionado pelos excessivamente gentis Roman e Minnie. Rosemary, intuitiva, mais uma vez, guarda ressalvas, enquanto Guy parece a vontade com os novos laços de amizade. Para não bancar a chata, Rosemary cede, principalmente porque coisas boas parecem pulular a todo instante. Ela engravida, Guy consegue um importante papel na Broadway, como no se diz no popular, “pizzas para todos”.

Ao passo que a narrativa avança, entretanto, ao invés de somente a felicidade ocupar aquele espaço, coisas estranhas começam a surgir. Pesadelos inquietantes, sensações estranhas, mensagens subliminares e desconfiança são indícios de que algo está errado, o que fornece espaço para que Rosemary inicie uma teoria que a deixará com aparência de louca e vulnerável para o clã satanista que diferente do que imaginamos ao longo do romance, não ofereceu uma oportunidade brilhante para Guy em prol do sacrifício da criança, mas organizou nada mais, nada menos, que a vinda do anticristo para colocar os planos do inferno em prática e dar conta das profecias bíblicas.  Em suma, a mulher entra em colapso ao descobrir que carrega o filho de Satã no ventre.

Muito além das polêmicas e das lendas urbanas que circularam em torno do romance, O Bebê de Rosemary também possui o seu valor literário, principalmente no que tange aos personagens e a formulação das suas características. Rosemary é uma mulher tranquila, magra, pálida e inofensiva, mas que ao passo que a narrativa avança, torna-se perigosa em relação aos planos malignos da seita em Bramford. Guy tem alguns traços misteriosos, mas consegue ser calmo e compreensivo com os delírios de sua esposa, mesmo estando diante de uma época conflituosa em sua vida.

Na seara dos personagens é interessante observar com a figura da mulher é representada com alguns problemas. Minnie é uma serva de Satanás, Rosemary é a responsável por carregar, mesmo contra a vontade, o filho de Satã em seu ventre. Ao pensar no livro numa perspectiva diacrônica, podemos perceber que as duas são agentes do “tinhoso”. Em História do Medo no Ocidente: 1300-1800, Jean Delemeau apontou que desde a Idade Moderna, a mulher já era considerada perigosa, não apenas pelos membros da Igreja, mas pelos homens da sociedade. Minnie, como auxiliadora de Satanás, torna-se componente essencial para a manutenção da gravidez e chegada do anticristo, um ser que vem associado ao caos e a destruição.

No que tange aos aspectos contextuais, há associações com o rastro de medo e delírio deixado por Charles Manson e Anton Lavey. Era uma época de reflexão dos Estados Unidos e seus valores trincados e espedaçados do pós-guerra, bem como os conflitos sociais envolvendo a Guerra do Vietnã e os levantes contra a cultura vigente, oriundos do fracasso do american way of life. Era uma época de desesperança e Anton Lavey conseguiu se estabelecer com a fundação da Igreja de Satanás, primeira organização satanista abertamente declarada. Autor da Bíblia Satânica, foi alvo da mídia sensacionalista da época, antenada em proclamar o pânico social e vender mais unidades de suas revistas e jornais. Em suas missas negras e cultos satanistas, os ideais de hedonismo, materialismo e individualismo eram os tópicos mais disseminados.

Charles Manson foi outra figura excêntrica e pop daquele momento, fundador de uma seita que cometeu vários crimes nos anos 1960, inclusive o estupro e assassinato de Sharon Tate, esposa do cineasta Roman Polanski, então grávida de oito meses. O crime abalou a sociedade, mas não impediu que o diretor produzisse a aterrorizante adaptação do livro, um sucesso do cinema e referência para outros cineastas e filmes do gênero. Á guisa de complemento, importante salientar que o filme reforça o estereótipo da bruxaria associada ao satanismo. A relação é complexa e cheia de peculiaridades, mas é preciso lembrar que a bruxaria pregava a negação a Deus, era herética por adorar ao Diabo, mas longe do que se imagina, não tinha interesse em causar danos alheios a pessoas que em si não atrapalhavam os seus cultos.

Ao longo das suas 224 páginas, o escritor nova-iorquino Ira Levin, autor de obras como Meninos do Brasil, outro “clássico moderno” de 1976, emprega o suspense em progressão a cada parágrafo. Falecido em 2007, investiu numa sequência para o livro, O Filho de Rosemary, sem muita projeção por aqui. Apesar de ser um livro conceituado dentro de determinadas instâncias, a republicação da obra e o contínuo interesse do público também possuem ligações com o filme de Polanski e a minissérie eficiente com a atriz Zoe Saldana. Independente destas questões de cunho comercial, O Bebê de Rosemary é um livro que vale a pena ser conferido, tamanha a potência narrativa e o trabalho de radiografia de uma época conturbada no que tange aos aspectos políticos e sociais.

O Bebê de Rosemary (Rosemary´s Baby) – EUA, 1960
Autor: Ira Levin
Publicação: Editora Manole, 2014
Páginas: 224

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.