Crítica | O Bom Dinossauro

o-bom-dinossauro-plano-critico

estrelas 3,5

O que aconteceria se o meteoro que dizimou os dinossauros jamais tivesse atingido a Terra? Com essa simples premissa a Pixar estabelece o universo de seu filme, O Bom Dinossauro, lançado no mesmo ano que Divertida Mente. Infelizmente, a simplicidade que marca o argumento central da obra se estende, em demasia, para o roteiro, que nos entrega uma história sem grandes novidades, que traz basicamente uma grande reciclagem de elementos que já vimos em dezenas de outras obras, algumas da própria Disney – vide O Rei Leão. Dito isso, o longa animado ainda é capaz de entreter, embora não corresponda ao padrão de qualidade esperado da Pixar.

A trama gira em torno de Arlo (Raymond Ochoa), um jovem apatossauro que, desde pequeno, demonstra ser mais medroso que os outros de sua família. Depois de falhar em cumprir a tarefa dada a ele por seu pai, que acaba morrendo em razão de uma grande tempestade que os pega desprevenidos, Arlo busca remediar o seu erro, capturando a pequena criatura que vem roubando do armazém de sua família, a criança humana, Spot (Jack Bright) . No processo, porém, ele acaba caindo no rio e é levado para um local desconhecido. Cabe, então, a ele e Spot encontrarem o caminho de volta para casa, tudo enquanto Arlo aprende a se livrar de seu medo, se tornando adulto no processo.

O Bom Dinossauro, apesar da ambientação diferenciada, nada mais é que uma história sobre o clássico coming of age. Acompanhamos o jovem apatossauro enquanto ele, pouco a pouco, perde a sua inocência, descobrindo mais sobre o mundo e, é claro, sobre ele próprio. Em linhas gerais, o enredo consegue nos prender, mesmo se mantendo previsível do início ao fim, salvo algumas pequenas surpresas que funcionam como as fontes de humor e tensão ao longo da narrativa. Mesmo a morte do pai do protagonista, que claramente herda de O Rei Leão, vem com alta dose de previsibilidade, atuando como o ponto de virada que irá colocar o jovem em sua jornada de auto-descobrimento.

O roteiro de Meg Lefauve, baseado na história original sua, em conjunto com Peter Sohn, Bob Peterson, Erik Benson e Kelsey Mann, tem como principal atrativo a relação construída entre Arlo e Spot, que nos entretém em razão da inversão de papéis, a quebra da expectativa em vermos o humano atuando como bicho de estimação e não o contrário. Por não tornar precisa a época na qual a história se passa, o filme claramente perde a oportunidade de realizar críticas em relação a como o homem destruiu a natureza, mas, evidentemente, esse não é o foco da obra.

Ironicamente, as mais atraentes tomadas do filme são aquelas com maior profundidade, que exibem o cenário fotorrealista em toda a sua majestade, com a natureza imperando sobre o quadro. A água é um dos elementos que mais chamam a atenção, atraindo nossa atenção pela fluidez da animação e realismo das texturas apresentadas. Em geral, quando se trata de filmes sobre dinossauros, é comum vermos diversas dessas criaturas, mas, aqui, o que vemos são poucas, todas, desde o início, sujeitas aos poderes da natureza, seja em razão do inverno que se aproxima, da tempestade impiedosa ou do rio, que, ao mesmo tempo que pode guiar o protagonista para casa, pode tirar dele aqueles que ama.  Dito isso, existe, sim, a mensagem de respeito àquilo que é natural, algo expressado verbalmente pelo pai de Arlo logo no início da projeção.

Contrastando com os cenários realistas, temos os personagens cartunescos, os quais muito bem representam suas próprias personalidades. Arlo, por exemplo, desde o início é enxergado como uma figura mais frágil, algo que vai se alterando com o passar do filme, especialmente nos momentos finais. Spot, por sua vez, é uma criatura selvagem, com cabelo bagunçado e olhar ágil, bem simbolizando sua desconfiança em relação ao resto do mundo. Tal questão se torna bem evidente com o grupo de tiranossauros que conhecemos no meio da obra, um deles em específico nos remetendo imediatamente à figura do velho cowboy, durão e de poucas palavras. Aliás, é interessante observar como o texto herda tanto d road movies quanto de westerns para compor sua narrativa, uma pena que isso se perca ao longo da história, que não sabe se decidir sobre qual tom adotar. Vale ressaltar que, somente por conta do visual cartunesco, não temos um ótimo trabalho de textura e animação – como sempre a Pixar não decepciona nesse setor.

No fim, O Bom Dinossauro é um filme com grandes qualidades, mas cujo roteiro peca por não nos oferecer quase nada de novo. Com um protagonista e coadjuvante bem construídos, um excelente trabalho de animação e uma atmosfera que não sabe bem se decidir sobre o que quer ser, temos uma obra menor da Pixar, especialmente se a compararmos com o filme que fora lançado no mesmo ano, Divertida Mente. Dito isso, trata-se de um longa-metragem que nos entretém, levantando belas questões sobre a perda da inocência e o respeito à natureza.

O Bom Dinossauro (The Good Dinosaur) — EUA, 2015
Direção: Peter Sohn
Roteiro: Meg LeFauve, baseado na história original de Peter Sohn, Bob Peterson, Erik Benson, Kelsey Mann e Meg LeFauve
Elenco (vozes originais): Jeffrey Wright, Frances McDormand, Marcus Scribner, Raymond Ochoa, Jack Bright, Steve Zahn, Peter Sohn, Sam Elliot, Anna Pacquin, A.J. Buckley
Duração: 100 minutos.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.