Crítica | O Bom Gigante Amigo

estrelas 3,5

Steven Spielberg sem dúvida marcou a infância de muitos cinéfilos, incluindo a minha. Sua incursão em obras que se concentravam especificamente nessa faixa etária também lhe renderam muitos sucessos, como o recente As Aventuras de Tintim e o subestimado Hook: A Volta do Capitão Gancho. Mas, claro, foi mesmo com E.T. – O Extraterrestre que Spielberg entregou uma obra “infantil” fenomenal e que veio a tornar-se um clássico absoluto do gênero. De lá pra cá, vimos o diretor apostar em dramas pesados, thrillers de espionagem e até mesmo algumas comédias um tanto irônicas. Finalmente O Bom Gigante Amigo traz Spielberg de volta ao gênero infantil

Um projeto em longa gestação nos cinemas, a trama adapta o clássico livro de Roald Dahl sobre uma menina órfã (Ruby Barnhill) que é subitamente sequestrada por um gigante (Mark Rylance) que então a leva para seu distante e mágico país. Logo aprendendo que esse gigante na verdade é o mais dócil de seu tipo, ela descobre que o local é ameaçado por um grupo de outros gigantes malvados, e precisará pensar em um plano para salvar o lugar e seu amigo das gigantescas mãos antagonistas.

É incrível ver a mudança de tom gritante deste BGA do longa anterior de Spielberg, o denso thriller Ponte dos Espiões. O diretor demonstra que ainda sabe como criar uma aventura adorável e despretensiosa, que acaba tornando-se até infantil demais durante o primeiro ato, mas merece créditos por dedicar uma grande quantidade de tempo a cenas em que praticamente só acompanhamos os dois protagonistas conversando. Claro, a óbvia diferença de tamanho entre os dois garante engenhosas possibilidades para que Spielberg nos demonstre mais uma vez sua incomparável habilidade com a câmera, oferecendo travellings elaborados que passeiam pelo detalhado design de produção de Rick Carter e que certamente deram muito trabalho à equipe de efeitos visuais.

Aliás, esse é um quesito no qual o resultado é imperfeito. Nota-se nitidamente o maciço excesso de efeitos digitais aqui, seja nos cenários que vão de uma Londres dos anos 60 até a colorida (e belíssima) Terra dos Sonhos que ganha um tratamento levemente inspirado nas águas espelhadas de As Aventuras de Pi, uma artificialidade que é disfarçada através do competente uso de 3D. Porém, demora para que nos acostumemos com o visual motion capture dos gigantes, principalmente do BGA protagonista que sempre surge com um nítido contraste com a personagem (em carne e osso) de Sophie. Os demais gigantes trazem um visual mais cartunesco e sem feições muito definidas (com exceção daquele vivido por Jemaine Clement), então é natural que soem ainda mais artificiais.

Felizmente, Mark Rylance é um monstro sagrado. Já tendo surpreendido a todos e até conquistando um Oscar por sua performance em Ponte dos Espiões, o ator traz aqui um trabalho radicalmente diferente de seu espião russo, adotando um sotaque esquisito e desajeitado para dar vida ao simpático BGA. Os efeitos digitais preservam o excelente trabalho do olhar de Rylance, que surge muitas vezes triste e abatido, e também sua risada cansada. A estreante Ruby Barnhill também revela-se uma grande revelação, transformando Sophie em uma jovem carismática e curiosa, fazendo jus à excepcional galeria de astros mirins que Spielberg apresentou ao longo de sua carreira.

O outro aspecto que definitivamente merece destaque é o inesperado aspecto nonsense do filme. Não sei o quanto os trailers divulgaram ou o conhecimento geral acerca da obra original de Dahl, então evitarei entrar em detalhes. Basta dizer que o terceiro ato do filme aposta em uma solução absurda, com pitadas de A Origem e que funciona justamente por ser imprevisível e render aquele que é, de longe, a sequência mais divertida de toda a projeção; ainda que traga a piada de peido mais ridícula dos últimos tempos…

Ingênuo e sem grandes pretensões – apesar da escala de seus personagens – O Bom Gigante Amigo é um filme divertido e dócil que deve agradar ao público infantil e entreter com eficiência a ala mais adulta. Steven Spielberg continua demonstrando seu poderio cinematográfico que permanece inatingido, e espero que ele continue sempre nos presenteando com sua habilidade impressionante.

O Bom Gigante Amigo (The BFG, EUA – 2016)

Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Melissa Mathison
Elenco: Mark Rylance, Ruby Barnhill, Penelope Wilton, Jemaine Clement, Rebecca Hall, Rafe Spall, Bill Hader, Ólafur Darri Ólafsson
Duração: 117 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.